A informação como utopia
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A informação como utopia


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ou retórico
- ainda que se defina, justamente, pelo apagamento
desse mesmo carácter.121 O discurso científico, como
qualquer outro discurso, implica a relação com um
auditório, a procura da adesão desse auditório a
determinadas teses, a utilização de técnicas retóricas
que visam suscitar essa adesão em termos de valores-
-relevantes ou de valores-referência. Dizer \u201cÉ verdade
que...\u201d, ou \u201cÉ evidente que...\u201d, pondo em jogo valores
do auditório como a \u201cverdade\u201d ou a \u201cevidência\u201d, não
é a mesma coisa que afirmar, pura e simplesmente,
um certo \u201cconteúdo\u201d. O discurso científico é, assim,
um - e não mais do que um - de entre os incontáveis
\u201cjogos de linguagem\u201d. Como diz Wittgenstein nas
Investigações Filosóficas, \u201cfalar uma língua é uma parte
de uma actividade ou de uma forma de vida\u201d122 . Tais
actividades e formas de vida não se reduzem, de forma
alguma, à ciência.
120 - Chaim Perelman, \u201cArgumentação\u201d, in Enciclopédia Einaudi,
Volume 11, Lisboa, Imprensa Nacional - Casa da Moeda,
1987, p. 234.
121 - Como acentua Michel Meyer, \u201cem linguagem de Austin e
Searle, dir-se-ia que a formalização é um acto ilocutório de
que qualquer referência ao ilocutório se quer ausente (...).\u201d
Michel Meyer, Lógica, Linguagem e Argumentação, Lisboa,
Teorema, 1992, p. 120.
122 - Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, Lisboa,
Gulbenkian, 1987, p. 189.
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A \u201csociedade de informação\u201d e as novas condições
discursivas
O triunfo da \u201crazão instrumental\u201d, que é visto por
Adorno, Horkheimer - e, em certa medida, pelo próprio
Marcuse - como inteiramente destrutivo e inultrapas-
sável representa, segundo estes autores, a derrota da
razão por si própria, o seu fechamento a toda e qualquer
potencialidade libertadora.
Contudo, análises como as de Adorno, Horkheimer
e Marcuse - ou, a um outro nível, as de Heidegger
sobre a tecnologia, quando afirma, por exemplo, que
\u201cJá só um Deus nos pode ainda salvar\u201d123 - pecam por
um determinismo pessimista (e, de certo modo, pouco
\u201ccrítico\u201d) que é fruto, em grande medida, das especiais
circunstâncias históricas em que tais análises foram
elaboradas. Por razões idênticas, também não nos
parecem aceitáveis visões como as de McLuhan que,
ainda que a partir de diferentes pressupostos teóricos
e políticos, acabam por cair igualmente no determi-
nismo, desta vez de sinal optimista - dum optimismo
que assume, muitas vezes, contornos nitidamente
ingénuos. Ambas as anteriores formas de determinismo
nos aparecem marcadas por um duplo defeito. Por um
lado atribuem, à ciência e à tecnologia, o papel princi-
pal (senão mesmo exclusivo) nas transformações histó-
ricas, remetendo cada um de nós à condição passiva
da espera: ou da catástrofe (na falta de \u201cum Deus que
nos venha salvar\u201d) ou do paraíso (da \u201caldeia global\u201d).
Por outro lado, elas deixam-nos desprovidos de
qualquer alternativa que nos permita pensar, de forma
verdadeiramente crítica, as mudanças profundas que,
Um novo paradigma da ciência e da técnica
123 - Cf. Martin Heidegger, \u201cJá só um Deus nos pode ainda salvar\u201d
(Entrevista à Der Spiegel) , in Filosofia - Publicação
Periódica da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Vol. III,
Nºs 1/2, Outubro de 1989, p. 122.
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A informação como utopia
a nível da ciência e da tecnologia, se efectuaram nos
últimos anos - nomeadamente nas áreas da informação
e da comunicação -, e que têm revolucionado todas
as nossas formas de viver e de pensar. O que assim
se ilude, mesmo que de forma involuntária, é o
problema político da discussão e da decisão acerca de
qual deve ser o nosso tipo de sociedade - bem como
do papel e da importância que, nesse tipo de sociedade,
a ciência e a tecnologia deverão assumir.
Essa discussão e essa decisão políticas - e a
consequente ultrapassagem do carácter ideológico da
ciência e da tecnologia - não serão possíveis sem o
aumento generalizado da capacidade discursiva, da
\u201ccompetência comunicativa\u201d (Habermas) de cada um
dos cidadãos. Em consequência, torna-se necessário
atenuar (e potencialmente eliminar) a desigualdade
entre os diferentes discursos - de forma a que não haja
nem discursos privilegiados nem locutores excluídos.
O controlo do discurso - com os seus mecanismos
de exclusão, de delimitação e de restrição, que
estabelecem quem pode falar e não pode falar, quem
pode dizer o quê, quando e acerca de quê - é, assim,
uma questão eminentemente política. Provavelmente é
mesmo a questão política por excelência. Como afirma
Hannah Arendt, sempre que o discurso está em jogo,
\u201cos assuntos tornam-se políticos por definição, já que
o discurso é o que faz do homem um ser político.\u201d124
Tem assim todo o cabimento a lenda acerca da origem
da Retórica segundo a qual Hiéron, tirano de Siracusa,
teria proibido aos seus súbditos o uso da fala - porque
a fala, sendo o \u201córgão\u201d político por excelência, é o
que se pode opor à tirania e à violência. O que explica
124 - Hannah Arendt, op. cit., p. 3. O problema do controlo do
discurso é justamente o tema principal de A Ordem do
Discurso, de Michel Foucault, que afirma a dado passo que
\u201co discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas
ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo qual e com
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Um novo paradigma da ciência e da técnica
também porque é que a Retórica vem a ganhar uma
enorme importância na democracia ateniense, em que
o saber falar, para persuadir e convencer, se torna
essencial: nos tribunais, nas assembleias políticas, nas
praças públicas, nos encontros sociais.
A importância do discurso, enquanto instrumento
(necessariamente) político, tem sido também realçada
pelos estudos de Pragmática - que podemos considerar
como uma das disciplinas (e perspectivas) fundamentais
nas actuais investigações sobre a linguagem. Esses
estudos mostram, por um lado, que toda a interlocução
se consti tui como um \u201cespaço agonístico\u201d, uma
\u201clogomaquia\u201d ou \u201cluta de discursos\u201d125 , e, por outro
lado, que não tem qualquer sentido a tradicional
separação entre \u201cdizer\u201d e \u201cfazer\u201d, já que dizer é por
natureza sempre um fazer, ou, melhor dizendo, um agir
(o que não implica, obviamente, reduzir todo o agir
ao dizer).
No entanto, apesar de a dimensão interlocutiva da
linguagem ser \u201cde todos os tempos e sociedades\u201d, o
seu relevo actual deve-se, em grande medida, à
\u201cviragem logotécnica\u201d característica do mundo actual,
materializada na expansão crescente das Redes de
informação e telecomunicação.126 Essas Redes abrem, hoje,
a possibilidade de uma distribuição mais democrática do
discurso - e do saber e do poder que ele envolve. A ciência
e a tecnologia poderão, assim, com a emergência da
o qual se luta, o poder de que procuramos assenhorear-nos.\u201d
Michel Foucault, L\u2019Ordre du Discours, Paris, Gallimard,
1971, p. 12. Há, aliás, a respeito desta questão do discurso,
uma convergência assinalável (que não pode fazer esquecer
as diferenças óbvias) entre Habermas, Foucault e Arendt.
125 - Retomamos estas expressões de Adriano Duarte Rodrigues,
Dimensões Pragmáticas do Sentido, Lisboa, Edições Cosmos,
1996, p. 15.
126 - Cf. Adriano Duarte Rodrigues, ibid., pp. 16-19.
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A informação como utopia
\u201csociedade da informação\u201d, ter criado os meios para a
superação da sua própria utilização irracional e destrutiva.127
Uma concepção \u201cpós-moderna\u201d da ciência deixa-nos
habilitados a olhar para a \u201csociedade da informação\u201d como
uma realidade que, como qualquer das realizações da ciência
e da tecnologia, não pode estar reservada aos técnicos ou
aos políticos, antes deve ser discutida e construída por todos
os cidadãos - ou seja, a conceber um desenvolvimento mais
democrático da sociedade da informação. A sociedade de
informação poderá, por seu turno, reforçar o carácter \u201cpós-
-moderno\u201d da ciência, contribuindo para que esta seja vista
não como a única verdade possível, uma verdade definitiva
e incontestável, mas como uma verdade entre outras, uma
verdade que