A informação como utopia
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A informação como utopia


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crescente) o mundo em que
vivemos? Estas questões têm, obviamente, uma
dimensão política que não pode ser iludida, e que nos
leva a retomar a etimologia da palavra ciberespaço:
\u201cespaço de controlo\u201d. Controlo de quê e de quem -
aqui reside a questão essencial acerca do ciberespaço.
Só a resposta a esta questão nos permitirá responder,
de forma cabal, às questões acima formuladas.
Entenda-se como se entender o ciberespaço, a sua
existência depende, obviamente, da tecnologia das
Redes. Já nos anos 60 McLuhan - que é, seguramente,
o primeiro pensador a construir toda uma visão utópica
em volta deste fenómeno - realçava a importância das
Redes, que via como a base da futura \u201caldeia global\u201d.
O aspecto essencial da \u201cera eléctrica\u201d reside, segundo
este autor, no estabelecimento de uma \u201crede global\u201d
que tem muitas das características do nosso sistema
nervoso central. Ao estendermos o nosso sistema
nervoso, através da tecnologia eléctrica, as nossas vidas
tornam-se informação; e, ao traduzirmos todas as nossas
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A informação como utopia
vidas \u201cna forma espiritual da informação\u201d, o globo
torna-se como que \u201cuma imensa consciência única\u201d.158
Passando quase despercebida nos anos 70, quando
o Ocidente estava mais preocupado com o problema
da escassez energética, a metáfora da \u201caldeia global\u201d
viria a tornar-se central nos anos 80, passando a ser
vista como a melhor expressão do que estava a
acontecer com o s is tema f inanceiro e as redes
telefónicas internacionais. Como escreveu Mark Poster
em 1990, \u201ca informação está agora instantaneamente
disponível em todo o globo e pode ser armazenada e
recuperada na medida em que a electricidade estiver
disponível. O tempo e o espaço já não restringem a
troca de informação. A \u201caldeia global\u201d de McLuhan
é tecnicamente possível.\u201d159
A novidade (e a importância) das Redes - e,
nomeadamente, daquela que é, hoje, o seu modelo por
excelência, a Internet160 - revela-se quando as compa-
158 - McLuhan, op. cit., p. 36. Na interpretação de Kerckhove,
neste processo em que tudo se torna informação, o próprio
hardware se irá transformando progressivamente em software,
passando do reino do poder físico para o do poder do
pensamento. Cf. Derrick de Kerckhove, The Skin of Culture,
Toronto, Somerville House Publishing, 1995, p. 40.
159 - Mark Poster, citado em Benjamin Wooley, op. cit., p. 124.
160 - Cujo crescimento - quer em termos quantitativos quer em
termos qualitativos - se tem revelado cada vez mais explosivo
e imprevisto, tornando-a um dos fenómeno comunicacionais
mais marcantes dos nossos tempos. Assim, segundo Ramonet,
o número de computadores em rede duplica todos os anos,
duplicando o número de sites todos os três meses. Cf. Ignacio
Ramonet, \u201cChanger d\u2019Ère\u201d, in Le Monde Diplomatique.
Manière de Voir - Hors Série, Paris, Outubro de 1996, p.
6. Por seu lado, Negroponte estima que, no ano 2000, a
Internet tenha 1000 milhões de utilizadores. De acordo com
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Sociedade da informação, ideologia e utopia
ramos com os tradicionais meios de comunicação \u201cde
massa\u201d. Estes meios, nomeadamente os electrónicos,
obedecem ao chamado \u201cmodelo de difusão\u201d, que
estabelece uma distinção clara entre centro (emissor)
e periferia (receptores), sendo o primeiro activo e os
segundos passivos e isolados uns dos outros. Quanto
às Redes, elas obedecem ao \u201cmodelo da interacção\u201d,
que atribui, a cada um dos sujeitos, o duplo papel de
produzir e pesquisar a informação, em vez de se limitar
a recebê-la passivamente; por outro lado, como cada
ponto de uma Rede funciona simultaneanemente como
emissor e receptor, é possível a comunicação de todos
com todos.161
A interactividade da Internet é potenciada por um
conjunto de características que, pelo menos por
enquanto - mas, quanto a nós, não por muito tempo
- ela apresenta, e de entre as quais se destacam as
seguintes: a abertura completa a todos os indivíduos,
empresas e instituições interessados, não pertencendo
nem a nenhum Estado nem a nenhuma firma comercial;
o baixo custo do acesso e a gratuitidade dos serviços
fornecidos; o carácter informal, quase anárquico, tra-
duzido na ausência de regulamentação definida; a
visibilidade (não confidencialidade) dos dados e das
informações; a ausência de hierarquia entre os
o mesmo autor, nos últimos tempos o crescimento da Internet
tem sido mais explosivo fora do que dentro dos Estados
Unidos. Cf. Nicholas Negroponte, Ser Digital , Lisboa,
Caminho, 1996, p. 193.
161 - Cf. Nicholas Negroponte, ibid., pp. 180 ss. Quéau fala, a
este respeito, de \u201ccomunicação multilateral\u201d. Cf. Philippe
Quéau, Le Virtuel. Vertus et Vertiges, Paris, Éditions Champ
Vallon/INA, 1993, pp. 46 ss. Sobre o desenvolvimento da
\u201cinteract ividade\u201d, a part i r dos anos 60, ver Nicholas
Negroponte, ibid., pp. 105-106.
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A informação como utopia
utilizadores, que possuem todos o mesmo estatuto; a
descentralização, que deriva da não existência de
qualquer entidade central que faça a gestão do sistema;
o auto-governo; a ausência de controlo; a imperma-
nência ou alteração constante.162
Dotada de todas estas características, é impossível
prever, neste momento, quais os efeitos da Internet a
nível da vida económica, social, cultural e política das
nossas sociedades. Poderemos, no entanto, afirmar
desde já, com Derrick de Kerckhove, que ela põe em
causa as distinções tradicionais em que tem assentado
a nossa cultura e a nossa sociedade: entre oral e escrito,
público e privado, individual e colectivo, real e virtual,
nacional e internacional, perto e longe, passado e pre-
sente, etc..163 Talvez por isso mesmo assistimos, nos
últimos tempos, a tentativas repetidas e multiformes
de controlar o ciberespaço. Essas tentativas, que come-
çaram por assumir uma forma predominantemente
negativa (centrada na censura e na proibição), assumem
hoje uma forma claramente afirmativa, traduzindo-se
na crescente \u201cinvasão\u201d do ciberespaço pelas diversas
instituições e poderes oficiais e pelas grandes empresas
transnacionais.
No contexto da sociedade da informação, foi
sobretudo a Internet que fez ressuscitar a velha utopia
iluminista de uma sociedade universal, composta por
162 - Cf. Pierre Lévy, \u201cConstruire l\u2019intelligence collective\u201d, in Le
Monde Diplomatique. Manière de Voir - Hors Série, Paris,
Outubro de 1996; António Eduardo Marques, \u201cTodos na
Rede\u201d, in Revista Exame (Edição Especial: \u201cGuia das
tecnologias da Informação\u201d), Maio/Junho de 1995; Kevin
Kelly, The Electronic Hive: Embrace It (Excertos de Out
of Control, publicados na Harpers, em Maio de 1994; Internet:
http://hotwired.com/staff/kevin/oocontrol).
163 - Cf. Derrick de Kerckhove, op. cit., pp. 188 ss.
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Sociedade da informação, ideologia e utopia
cidadãos informados e participativos, que discutem e
decidem em conjunto as suas vidas: \u201co sonho utópico
de uma comunidade humana harmoniosa, planetária,
em que cada um se apoia nos outros para aperfeiçoar
os seus conhecimentos e aguçar a sua inteligência.\u201d164
Entre a ideologia e a utopia
Os discursos \u201cideológicos\u201d e \u201cutópicos\u201d sobre a
sociedade da informação, a que acabámos de nos referir,
filiam-se claramente nos dois tipos de discurso sobre
a ciência e a tecnologia analisados no Capítulo I:
enquanto os primeiros surgem como uma continuação
- adaptada às novas condições - do discurso positivista,
cientista e tecnocrático que se afirma a partir dos finais
do século XIX, os segundos apresentam-se como uma
espécie de reactualização do discurso cartesiano-
-iluminista dos séculos XVII/XVIII. Como a ciência
e a tecnologia, a sociedade da informação aparece,
desde os seus inícios, eivada de uma ambiguidade
funda- mental, que faz com que ela se preste quer à
apropriação ideológica (logo, à sua utilização como
meio de naturalização de um determinado sistema
económico, político e social) quer à apropriação utópica
(e , enquanto