A informação como utopia
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A informação como utopia


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passar, constantemente, de um plano
de descrição a um plano de problematização, tentando
evitar quer a ideologização quer a utopização acríticas
da \u201csociedade da informação\u201d a que, nos últimos
tempos, temos vindo a assistir de forma crescente.
Como qualquer trabalho, este é o resultado do
confronto ( fe i to de discordâncias mas também,
obviamente, de muitas concordâncias) com múltiplos
autores e perspectivas. No conjunto desses autores e
perspect ivas não podemos deixar de destacar -
sobretudo como ponto de partida problemático - a
posição da chamada \u201cteoria crítica\u201d (e, nomeadamente,
de Adorno e Horkheimer, Marcuse e Habermas) acerca
da ciência e da tecnologia. Esse destaque justifica-se
por duas ordens de razões: em primeiro lugar, porque
a \u201cteoria crítica\u201d parece-nos, ainda hoje, uma referência
incontornável para pensarmos a sociedade que emerge
com a Modernidade. Em segundo lugar, porque há, da
nossa parte - porque não confessá-lo? - uma simpatia
especial por um tipo de pensamento que se pretende
profundamente iconoclasta. Mas que, ao mesmo tempo,
parece revelar uma certa pena por não poder deixar
de sê-lo...
Introdução
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PREÂMBULO
IDEOLOGIA E UTOPIA
\u201cO mais raro e digno de admiração é agora uma
república justa e sabiamente governada.\u201d - Thomas
More, Utopia
A extensão crescente da ciência e da tecnologia a
todos os níveis e esferas da actividade humana - num
processo que se afigura incontrolado e irresistível10
- faz com que impere, por toda a parte, o discurso
normalizador e tranquilizante do \u201crealismo\u201d, do
\u201cpragmatismo\u201d e da \u201ceficácia\u201d. O tema do \u201cfim\u201d (da
história, das ideologias, da política, etc.), retomado
obsessivamente de múltiplas formas e a partir de
múltiplas origens, seria, segundo alguns, o sinal de que
viveríamos já hoje, e não poderíamos deixar de o fazer
no futuro (e ainda haverá futuro?), sob o signo da repe-
tição e da monotonia. A esta história completamente
naturalizada se aplicaria, de forma perfeita, a frase do
Eclesiastes parafraseada por Hegel para caracterizar a
natureza: \u201cO que aconteceu, de novo acontecerá; e o
que se fez, de novo será feito: debaixo do sol não
há nenhuma novidade.\u201d11
10 - Este processo é, frequentemente, entendido em termos de
\u201cviolência\u201d. Ora, como faz notar José Manuel Santos, trata-
-se aqui de \u201cuma violência mais subtil, de carácter político,
ético e estético, quase invisível, quotidiana, que se disfarça
sob o engodo da \u2018utilidade\u2019.\u201d Cf. José Manuel Santos, op. cit..
11 - \u201cEclesiastes\u201d, 1, 9, in Bíblia Sagrada, Lisboa, S. Paulo, 1993,
p. 906. A frase de Hegel é, na versão francesa, a seguinte:
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A informação como utopia
Falar de ideologia e de utopia a propósito da
tecnociência em geral e da sociedade da informação
em particular parecerá, a todos os que defendem uma
das múltiplas variantes do tipo de discurso que
acabámos de caracterizar, um regresso anacrónico aos
tempos em que, em nome das ideologias e das utopias,
se afrontavam partidos, se faziam revoluções, se
procurava mudar o mundo. No entanto, não é de
regressos ao passado que aqui se trata. Pôr o problema
da ideologia e da utopia, aqui e agora, equivale a
afirmar que, ao contrário do que muitos pretendem,
a política - entendida como a construção em comum
de uma sociedade justa e l ivre , como projecto
(incómodo) sempre sonhado e sempre adiado pelas
grandes revoluções modernas -, não deixou de existir.12
E que, provavelmente, essa existência tem hoje mais
razão de ser do que nunca. Com efeito, a humanidade
encontra-se, de há algumas décadas a esta parte - desde
um momento que alguns situam entre as duas Guerras
Mundiais -, num momento crítico da sua história; num
momento em que, para parafrasearmos a célebre
expressão do Zaratustra de Nietzsche, o homem se
torna verdadeiramente \u201cuma corda por cima de um
abismo\u201d. Terríveis perigos o espreitam - mas também
novas possibilidades salvadoras. Esses perigos e essas
possibilidades salvadoras vêm-lhe, mais uma vez, do
lado da ciência e da tecnologia - que, na visão
\u201cIl n y a rien de nouveau sous le soleil\u201d. Cf Hegel, La Raison
dans l\u2019Histoire, Paris, Plon, 1979, p. 92. Como sabemos, à
monotonia e à repetição da natureza Hegel opõe a novidade
e o progresso do Espírito.
12 - Cf. José Bragança de Miranda, op. cit., pp. 13-14. O mesmo
autor acrescenta que, enquanto tal, \u201caté hoje a política nunca
existiu.\u201d.
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Ideologia e utopia
coincidente de Heidegger e McLuhan atingem agora,
na \u201cera da informação\u201d, o seu estádio supremo e
definitivo. Talvez tenha aqui cabimento, mais uma vez,
o dito de Hölderlin que, a propósito da tecnologia,
Heidegger tanto gostava de citar: \u201cmas onde há o
perigo, ali cresce também o que salva.\u201d13 . Sucumbirmos
ou não perante o perigo - tal parece ser o dilema
fundamental do nosso tempo; um dilema que nunca
foi de outro tempo que não o nosso.
Conceitos de ideologia e utopia
Ao pretendermos, no decurso deste trabalho, pensar
a tecnociência e a sociedade da informação em termos
do par conceptual ideologia/utopia, uma primeira tarefa
se nos impõe: a de procurarmos clarificar o significado
e a relação de dois conceitos cuja história, apesar de
relativamente curta, é, no entanto, rica de equívocos
e controvérsias.14
13 - Martin Heidegger, \u201cLa question de la technique\u201d, in Essais
et Conférences, Paris, Gallimard, 1990, p. 38.
14 - McLlenan assinala, a propósito do conceito de ideologia, que
este \u201cé o conceito mais indefinível no conjunto das ciências
sociais. (...) é um conceito essencialmente contestado, isto
é, acerca de cuja definição (e portanto aplicação) existe viva
controvérsia.\u201d David McLlenan, A Ideologia, Lisboa, Editorial
Estampa, 1987, p. 13. Ainda a propósito do mesmo conceito,
Onésimo Teotónio Almeida refere \u201ca enorme confusão
conceptual em que assentavam (e ainda assentam) os debates
à volta dele (...).\u201d Onésimo Teotónio Almeida, \u201cIdeologia.
Revisitação de um conceito\u201d, in Revista de Comunicação e
Linguagens, Nº 21-22, Lisboa, Edições Cosmos, 1995, p. 69.
Quanto ao conceito de utopia, a situação não parece ser menos
confusa.
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Uma concepção muito difundida de ideologia encara
esta como uma espécie de véu mistificador, de ilusão
intencional que, com a finalidade inconfessada de
reproduzir e perpetuar os privilégios e o poder de uma
determinada classe social, tende a mascarar a verdadeira
realidade das coisas, só captável através da visão clara
e desmistif icadora do discurso científ ico. 15 Esta
concepção de ideologia esquece, de forma aparente-
mente ingénua, que a própria ciência assume sempre
(e não pode deixar de assumir) um carácter ideológico,
como têm mostrado os trabalhos de autores como
Marcuse, Habermas, Foucault e Feyerabend, para
referirmos apenas alguns - de tal forma que o único
ponto exterior a uma ideologia (e a partir do qual se
pode falar dela) é, queiramo-lo ou não, uma outra
ideologia.16
Quanto à utopia, ela é entendida, frequentemente,
como um discurso irrealista, sem os pés assentes na
terra, que apresenta projectos de mundos irrealizáveis
- com a finalidade obscura de nos dissociar do mundo
real, condenando-nos a uma espécie de esquizofrenia
obnubiladora. Esta concepção de utopia confunde,
A informação como utopia
15 - Uma concepção deste género aparece em Althusser, que
introduz a oposição ideologia-ciência para marcar a distinção
entre o \u201cMarx de juventude\u201d (\u201cideológico\u201d) e o \u201cMarx adulto\u201d
(\u201ccientífico\u201d). Afirma Althusser: \u201cÉ preciso estar fora da
ideologia, isto é, no conhecimento científico, para poder dizer:
estou na ideologia (caso excepcional) ou (caso geral): estava
na ideologia.\u201d Louis Althusser, Ideologia e Aparelhos
Ideológicos do Estado, Lisboa, Presença, 1980, p. 101.
16 - Robert Young fornece copiosos exemplos histórico-teóricos
da \u201cconfusão\u201d entre ciência e ideologia nos campos da
economia política, da biologia, da sociologia, etc..