A informação como utopia
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A informação como utopia


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229 - Note-se, no entanto, que esta vantagem das comunidades
virtuais se transforma facilmente em desvantagem quando
os indivíduos não revelam uma \u201cboa vontade\u201d (no sentido
kantiano do termo): a ausência de presença física, que garante
o anonimato e possibilita uma des-responsabilização quase
total, é a fonte de muitas das perversões (e não apenas num
sentido freudiano) que neste momento afectam as Redes.
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diversas. Tal permite a cada comunidade funcionar co-
mo uma espécie de \u201cenciclopédia viva\u201d, em que todos
partilham os saberes e as experiências de todos. Essa
partilha leva ao enriquecimento do conjunto dos saberes
e das experiências do conjunto da comunidade - saberes
e experiências que, arquivados nas respectivas bases
de dados, constituem a \u201cmemória\u201d e a \u201ctradição\u201d da
comunidade virtual. Assim, as comunidades virtuais -
ao abolirem as hierarquias e os assuntos proibidos,
promovendo a interacção de pessoas de todas as classes
e de todos os lugares, portadoras de todo o tipo de
saberes e de experiências - parecem revelar-se não
apenas verdadeiras comunidades como comunidades
essencialmente democráticas.
As comunidades virtuais apresentam, no entanto, um
conjunto de características que vão no sentido contrário
do que acabámos de enunciar.230
Em primeiro lugar, as comunidades virtuais, sendo
\u201ccomunidades de interesse\u201d, contribuem inquestiona-
velmente para aumentar a coesão entre os que delas
fazem parte. Mas, ao mesmo tempo, e uma vez que
as interacções entre os seus membros assumem um ca-
rácter meramente virtual, as comunidades virtuais
contribuem para isolar ainda mais os indivíduos em
relação às comunidades reais a que pertencem - agra-
vando, desta forma, os problemas de participação e
de coesão que se colocam a estas últimas comunidades.
Tal faz com que o ciberespaço, ao tornar-nos mais
próximos dos mais distantes, nos torne cada vez mais
distantes dos mais próximos.
As comunidades virtuais e a partilha do poder
230 - Acerca destes aspectos problemáticos, ver Howard Rheingold,
A Comunidade Virtual, Lisboa, Gradiva, 1996, pp. 77 ss;
Philippe Quéau, op. cit., pp. 77-78; Michael Heim, op. cit.,
pp. 99-100; Jan Fernback e Brad Thompson, op. cit.
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Em segundo lugar, o facto de cada uma das comu-
nidades virtuais ser constituída por um conjunto de
indivíduos que partilham uma certa \u201ccultura\u201d implica
uma dupla perversão. Por um lado, a exclusão: se é
certo que a comunidade de cultura inclui cada um dos
membros da comunidade virtual, não é menos certo
que ela tende a excluir todos os indivíduos que não
partilham essa mesma cultura. Por outro lado, a homo-
geneização: as comunidades virtuais tendem a tornar-
-se uma espécie de comunidades \u201cprivadas\u201d, compostas
por indivíduos não \u201ciguais\u201d mas homogéneos - o que
impede o enriquecimento epistémico e multicultural que
se espera dessas comunidades. Assim, e sob a a capa
de uma aparente democracia, as comunidades virtuais
mantêm (ou agravam mesmo) as características menos
democráticas das sociedades \u201cnão virtuais\u201d.
Em terceiro lugar, os problemas de coesão que afec-
tam as comunidades reais afectam, de forma ainda mais
profunda, as próprias comunidades virtuais. Com efeito,
es tas apresentam uma grande tendência para a
desagregação e o desaparecimento, nomeadamente à
medida que o número dos seus membros vai aumentan-
do, fazendo rarear (ou mesmo cessar) as interacções
entre os seus participantes. Provavelmente, haverá
mesmo um limite crítico a partir do qual as interacções
virtuais se tornam impossíveis com alguma sequência
e profundidade. O que coloca as comunidades virtuais
perante um dilema de difícil (ou mesmo impossível)
resolução: ou um reduzido número de elementos, mas
coeso e participativo; ou um grande número de ele-
mentos, mas tendendo inevitavelmente para a ausência
de participação e a desagregação. Ora, foi em grande
medida a incapacidade prática de resolver este dilema,
trazido pela industrialização e pela urbanização, que
levou aos fenómenos de desagregação das comunidades
reais diagnosticados, no século XIX, por sociólogos
como Tönnies e Durkheim.
A informação como utopia
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Em quarto lugar, o tipo de linguagem utilizado -
ou melhor, a forma como a linguagem é utilizada -
nas Redes também merece reparos. Como sabemos, a
forma de comunicação mais rica é a comunicação direc-
ta, pessoal - que envolve, para além dos aspectos
verbais e locutórios, uma multiplicidade de aspectos
não verbais e não locutórios (contexto espácio-temporal
comum, gestos, entoações, etc.), decisivos para a codifi-
cação e a interpretação não ambígua das mensagens.
Ora, a linguagem que circula (por enquanto) nas Redes,
praticamente reduzida ao verbal-escrito, elimina todas
essas componentes informativas de ordem não verbal
e não locutória. A interacção comunicativa - e, por
consequência, o próprio sentimento de comunidade -
vê-se, assim, extremamente empobrecida e limitada.231
Em quinto e último lugar - mas não menos decisivo
- as comunidades virtuais põem em questão a própria
noção de sujeito. Este, ao ser des-corporalizado e des-
-socializado, torna-se uma mera presença especular, um
simulacro - o terminal de um conjunto de máquinas
comunicantes que se interconectam. A sua \u201cacção\u201d e
o seu \u201cdiscurso\u201d limitam-se à emissão e à recepção
de mensagens que circulam à velocidade da luz; a sua
\u201cliberdade\u201d é conseguida à custa da negação da acção
e do discurso efectivos.
As comunidades virtuais e a partilha do poder
231 - Já Rousseau fazia notar que, enquanto a fala (a oralidade)
é expressividade, transmissão de sentimentos e explosão da
subjectividade, a escrita é precisão, transmissão de ideias
e objectividade. Cf. Jean-Jacques Rousseau, Ensaio sobre
a Origem das Línguas, Lisboa, Estampa, 1981, pp. 60-61.
Herder glosa este mesmo tema, quando afirma que \u201cnão há
l íngua que, na sua sonoridade viva, se deixe reduzir
completamente a letras e ainda menos a uma vintena delas.\u201d
Johann Got t f r ied Herder, Ensaio sobre a Origem da
Linguagem, Lisboa, Antígona, 1987, p. 31.
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Da análise anterior parece poder concluir-se que a
\u201ccomunidade\u201d, entendida de forma estritamente virtual,
já pouco ou nada tem a ver com uma verdadeira comu-
nidade humana - que não pode deixar de envolver um
certo grau de proximidade física e de contacto directo
entre os indivíduos.232 Daqui não se infere, no entanto,
que as comunidades virtuais não possam ter um papel
positivo: não um papel de substituição das comunidades
reais por uma espécie de paraíso virtual, situado \u201cne-
nhures\u201d no ciberespaço, mas um papel de complemento
e de reforço das interacções e do sentido comunitário
das comunidades reais (como tem acontecido, aliás, com
meios de comunicação como o telefone). A solução
ideal reside, deste modo, numa espécie de \u201cfusão\u201d entre
as comunidades reais e as comunidades virtuais - \u201cfu-
são\u201d materializada na constituição de comunidades
virtuais baseadas na proximidade física mas completa-
mente abertas ao exterior.233 Tal solução permite apro-
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232 - Reconhecendo is to mesmo, comunidades vir tuais bem
sucedidas como a ECHO (East Coast Hang Out, sediada em
Nova Iorque) e a WELL - cujo utopismo inicial se encontra
actualmente bem mais temperado - promovem, regularmente,
actividades (festas, convívios, congressos, etc.) que envolvem
a interacção directa e pessoal entre os seus participantes.
233 - Parece-nos interessante, a este respeito, a distinção que Annie
Beamish faz entre \u201crede comunitária\u201d (community network)
e \u201ccomunidade virtual\u201d (virtual community). A primeira é
definida como \u201cuma rede de computadores com modens que
estão inter l igados através de l inhas te lefónicas a um
computador central, que providencia informação da comu-
nidade e um meio para a comunidade comunicar electro-
nicamente\u201d. Estas comunidades encontram-se baseadas num
determinado