A informação como utopia
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A informação como utopia


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espaço físico, por exemplo uma cidade ou um
bairro. Já as \u201ccomunidades virtuais\u201d (ou \u201ccomunidades on-
-line\u201d) se referem \u201ca grupos de pessoas que se congregam
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veitar duplamente as Redes: quer para reforçarmos os
laços com os membros da nossa comunidade real, quer
para estabelecermos contactos com os membros de
outras comunidades virtuais, inseridos em outras comu-
nidades reais e portadores de outras culturas - e vice-
-versa. Situação que, no limite, permite antever a
realização - ainda que virtual, o que não significa
\u201cirreal\u201d - da sociedade \u201ccosmopolita\u201d tematizada por
Kant.
Note-se, desde já, que o contributo das Redes para
o reforço da interacção comunicativa e do sentido de
comunidade não é habitualmente enfatizado pelos go-
vernos e instituições oficiais - que tendem a conceber
as Redes como meras bases de dados que possibilitam,
à generalidade dos cidadãos, o acesso a um conjunto
de informações de que estes necessitam.234 Porém, como
observa Rheingold, em toda a parte os grupos de
cidadãos parecem preferir \u201cutilizar as CMC (Comuni-
cações Mediadas por Computador) para comunicarem
entre si, de formas não previstas pelos diversos tipos
e níveis de poder, do que em consultarem meras ba-
ses de dados.\u201d 235 Opinião que Negroponte também
partilha, ao afirmar que \u201co verdadeiro valor de uma
rede tem menos a ver com informação e mais com
As comunidades virtuais e a partilha do poder
(electronicamente) para discutir tópicos específicos que vão
da pesquisa académica aos hobbies. Essas pessoas estão
ligadas por um interesse comum ou pela profissão. Não há
l imi tes geográ f icos pa ra as comunidades on- l ine , e
participantes de qualquer parte do mundo podem tomar parte.\u201d
Anne Beamish, op. cit.
234 - Tal é o caso, entre nós, de projectos como o Programa
Internet nas Escolas, o Info-Munícipe, etc., referenciados no
Livro Verde para a Sociedade da Informação.
235 - Howard Rheingold, A Comunidade Virtual, Lisboa, Gradiva,
1996, p. 269.
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comunidade.\u201d236 Desta forma, conceber as Redes como
meras bases de dados decorre de (ao mesmo tempo
que reforça) uma certa maneira de conceber a política
e a democracia - uma maneira que se revela muito
\u201cpolítica\u201d e pouco democrática.
Comunidades virtuais e acção política
Uma outra consequência fundamental do processo
de instituição da tecnologia e da ciência em ideologia
é a oclusão da política, que se traduz na transformação
da política em mera \u201carte de governar\u201d, em \u201carte\u201d de
fazer com que \u201cos muitos\u201d obedeçam aos \u201cpoucos\u201d (aos
cada vez menos).237
O regresso da política, a que hoje se assiste - e
que se traduz, nomeadamente, na exigência dos cida-
dãos de discutirem e tomarem decisões relativamente
aos problemas que afectam as suas vidas e a vida das
suas comunidades, que tendem a identificar cada vez
mais com as comunidades locais -, deve-se a factores
diversos e nem sempre claramente identificáveis.238
A informação como utopia
236 - Nicholas Negroponte, op. cit., p. 194.
237 - Cf. José Bragança de Miranda, Política e Modernidade,
Lisboa, Colibri, 1997, p. 13.
238 - É certo que este regresso é ainda algo incipiente e assume,
muitas vezes, a forma de uma negatividade mais ou menos
explosiva, repentina e espontânea - mas, mesmo assim, ele
parece-nos um dos factos mais importantes das sociedades
actuais. Dois exemplos concretos da forma como se tem vindo
a dar o regresso da política (o Autor chama-lhe \u201cres-
susc i t ação\u201d) aparecem re fe r idos em Adr iano Duar te
Rodrigues, \u201cMorte ou ressurreição da política?\u201d, in Revista
de Comunicação e Linguagens, Nº 21-22, Lisboa, Edições
Cosmos, 1995.
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Correndo o risco da omissão, não podemos deixar de
indicar quatro desses factores que nos parecem essen-
ciais: o esgotamento das velhas ideologias políticas que
dividiam o mundo em blocos antagónicos e que tendiam
a ser vividas como crenças sagradas e indiscutíveis;
o falhanço do chamado \u201cEstado-Providência\u201d, incapaz
de responder às crescentes solicitações por parte dos
cidadãos; a crescente desconfiança com que se olha
a ciência e a tecnologia, e que leva a pôr em questão
a ideologia cientista e tecnocrática que tem estado
subjacente ao seu desenvolvimento; a descrença gene-
ralizada nas formas institucionalizadas da democracia
representativa, reduzida a uma série de celebrações
periódicas e rituais que pretendem dar a ideia de que
algo muda para que tudo permaneça.239 O regresso da
política que se anuncia é, assim, indissociável da \u201ccrise
da política\u201d. Crise da forma como a política tem vindo
a ser entendida de há décadas a esta parte: como \u201carte
de governar\u201d, como \u201cadministração do existente\u201d, reser-
vada a uma casta. O que o regresso e a crise de que
falamos prefiguram é, claramente, o movimento em
direcção à ideia de política que herdámos dos gregos
e dos iluministas.
As Redes (e nomeadamente as Redes comunitárias)
apresentam-se, hoje, como uma das condições de supor-
te (e mesmo de aprofundamento) deste movimento -
e isto por várias razões. Em primeiro lugar, porque
As comunidades virtuais e a partilha do poder
239 - As taxas cada vez mais altas de abstenção nas diversas
e le ições , o des in te resse c rescente dos c idadãos pe la
\u201cactividade política\u201d, a sua concentração cada vez maior nos
interesses locais e privados, devem ser lidos como sintomas
cada vez mais claros de que a generalidade dos cidadãos
encara a \u201cdemocracia\u201d política vigente como um jogo (cada
vez mais) viciado - e em que, por consequência, se recusa
a participar.
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as Redes permitem, aos cidadãos, a substituição (pelo
menos parcial) das formas tradicionais de organização
política, centralizadas e burocráticas, pela interacção
informal e pela associação voluntária (cujo declínio
Wright Mills considera como um dos principais sin-
tomas do \u201cdeclínio do político\u201d que caracteriza as
\u201csociedades de massas\u201d).240 Em segundo lugar, porque
as Redes - na medida em que escapam a qualquer
controlo centralizado - tornam possível, aos cidadãos,
quer o acesso a formas alternativas de informação,
diferentes das oficiais, quer a difusão de versões dos
acontecimentos diferentes das dos poderes dominantes.
Tal faz com que as Redes apareçam, hoje, como um
dos meios privilegiados para a organização de acções
políticas autónomas contra os diversos tipos de poderes
(acções ligadas à defesa do ambiente, de certas mino-
rias, de determinados interesses locais, etc.).241 Em
terceiro lugar, porque as Redes facultam, aos cidadãos,
o acesso às informações das diversas instituições da
administração pública, fazendo diminuir a dependência
desses cidadãos em relação a um poder burocrático-
-administrativo muitas vezes asfixiante.
Foi a pensar neste tipo de razões que autores como
Alvin Toffler (1980), Yoneji Masuda (1981) e John
Naisbitt (1982) teorizaram o aparecimento da \u201cdemo-
cracia electrónica\u201d - implicando, nomeadamente, a dis-
cussão, o referendo e a votação electrónicos -, que
tendem a ver como o meio que permitirá contrariar
as tendências anti-democráticas das democracias ac-
A informação como utopia
240 - Cf. C. Wright Mills, op. cit., p. 359.
241 - Para darmos apenas um exemplo - e referente à própria
Internet -, este aspecto das Redes revelou-se particularmente
importante na luta encetada pela Electronic Front ier
Foundation contra a censura visada pelo Telecommunication
Reform Act, da Administração Clinton.
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tuais.242 A maneira como estes (e outros) autores enca-
ram a \u201cdemocracia electrónica\u201d merece, contudo, ser
questionada pelo menos em relação aos três aspectos
seguintes:
Existência efectiva da discussão e da decisão
políticas por parte dos cidadãos: de uma forma geral,
as chamadas \u201credes comunitárias\u201d caracterizam-se mais
por fornecerem informação aos cidadãos do que por
promoverem a participação destes na discussão e na
tomada de decisão (políticas)