A informação como utopia
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A informação como utopia


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relativamente ao governo
das comunidades reais.243 Por outro lado, quando existe,
por parte dos governos e administrações, a preocupação
de incentivar a \u201cparticipação democrática\u201d, eles
limitam-se a entender tal \u201cparticipação\u201d como o mero
acesso, pelos cidadãos, à informação disponibilizada
pelos organismos e serviços públicos - o que, não dei-
xando de ser importante (nomeadamente em países em
que o peso da burocracia é asfixiante, como é o caso
de Portugal), é claramente insuficiente.244
As comunidades virtuais e a partilha do poder
242 - Três exemplos conhecidos dessa \u201cdemocracia electrónica\u201d
(um mais antigo, dois mais recentes) são o sistema QUBE,
em Columbus, Ohio, o da Câmara Municipal de Zushi, no
Japão e o PEN (Public Electronic Network), em Santa Mónica,
Califórnia. Estes exemplos encontram-se descritos, de forma
resumida, respectivamente, em: David Lyon, A Sociedade da
Informação. Questões e Ilusões, Oeiras, Celta Editora, 1992,
p. 29; Howard Rheingold, A Comunidade Virtual, Lisboa,
Gradiva, 1996, p. 248; Doug Schuler, Creating Public Space
in Cyberspace: The Rise of the New Community Networks,
1995 (Internet) e Anne Beamish, op. cit..
243 - A ECHO e a WELL parecem ser as excepções que confirmam
a regra. Cf. Anne Beamish, op. cit..
244 - Como já foi referido no Capítulo anterior, também o Livro
Verde para a Sociedade da Informação, apesar de todas as
boas intenções que se lhe reconhecem, não escapa a esta
perspectiva redutora.
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Igualdade de acesso e de participação de todos os
cidadãos: uma verdadeira \u201cdemocracia electrónica\u201d
pressuporá, no mínimo, que todos os cidadãos: i) te-
nham possibilidade de aceder a e utilizar o equipamento
informático indispensável (em casa ou em locais públi-
cos facilmente acessíveis); ii) possam participar, de
forma efectiva e igualitária, na discussão pública dos
diversos problemas (e não meramente carregar na tecla
do \u201csim\u201d ou do \u201cnão\u201d) - discussão sem a qual qualquer
referendo ou votação se transformará num mero soma-
tório de opiniões individuais, desencontradas e sujeitas
a todas as manipulações e interferências. Ora, estas
exigências, difíceis de garantir mesmo a nível de uma
pequena comunidade local - mas em que a sua viabi-
lidade é, apesar de tudo, maior -, revelam-se prati-
camente irrealizáveis a nível de uma grande cidade ou
de um país. Talvez por isso mesmo, os estudos que
existem mostram que, mesmo quando praticada a nível
da comunidade local, a participação na votação elec-
trónica envolve ainda maior abstenção que as votações
reais.245
Autonomia em relação aos poderes políticos e
económicos: as forças económicas e políticas que se
mostram mais interessadas no desenvolvimento das
comunidades virtuais - das indústrias de informática
e telecomunicações aos diversos sectores governa-
mentais - não estão, seguramente, preocupadas (ou, pelo
menos, predominantemente preocupadas) com o bem
público e a democracia, mas com riqueza e poder. Colo-
ca-se, assim, a tripla questão de saber: quem comanda
o desenvolvimento das novas tecnologias; quais os
objectivos desse desenvolvimento; quais os seus
principais beneficiários.246
A informação como utopia
245 - Cf. Anne Beamish, op. cit..
246 - A propósito desta questão, David Ronfeldt teorizava, já em
1992, o advento da \u201cciberocracia\u201d, que definia como \u201co
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Esta tripla questão leva-nos, directamente, ao proble-
ma da dimensão política do ciberespaço, da sua natu-
reza de \u201cespaço de controlo\u201d (como o indica a etimo-
logia). Um espaço de controlo que vem procurar substi-
tuir - com sucesso ou não, isso é uma questão a discutir,
e para a qual a actualidade ainda não nos forneceu
uma resposta conclusiva - o espaço público clássico,
centrado na ideia de \u201crepresentação\u201d. O controlo do
(no) ciberespaço assume, hoje, duas formas fundamen-
tais: a vigilância informática (que é realizada por meio
das bases de dados) e o marketing (que tem acarretado
a mercantilização crescente das Redes).
O Ciberespaço como espaço de controlo
Como observa Giddens, o aprofundamento dos meca-
nismos de vigilância constitui, a par do capitalismo,
do industrialismo e do controlo dos meios de violência,
uma dimensão institucional ligada ao surgimento da
Modernidade.247
A questão da vigilância é colocada, por Foucault,
a partir do tema do \u201cpanóptico\u201d.248 Distanciando-se da
concepção de Bentham, Foucault atribui às ciências
As comunidades virtuais e a partilha do poder
governo por meio da informação\u201d. Segundo este autor, a
informação e o seu controlo tornar-se-ão, gradualmente, a
fonte de poder dominante nas sociedades. Daí a importância
da questão do controlo das (e nas) Redes. Cf. David Ronfeldt,
\u201cCyberocracy is coming\u201d, in The Information Society Journal,
Vol. 8, Nº 4, 1992 (disponível na Internet).
247 - Cf. Anthony Giddens, As Consequências da Modernidade,
Oeiras, Celta Editora, 1995, p. 47.
248 - Neologismo introduzido por Jeremy Bentham, em 1791, para
baptizar o seu projecto de penitenciária. Para uma descrição
deste projecto cf. Michel Foucault, Discipline and Punish.
The Birth of the Prison, London, Penguin Books, 1991, pp.
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sociais - e nomeadamente à psicologia, à pedagogia,
à psiquiatria e à criminologia - a introdução, na Moder-
nidade, do controlo de comportamento pretendido pelo
panóptico benthamiano, num processo mediante o qual
o poder e o saber se reforçam mutuamente.249 Através
desse processo, a difusão generalizada do panóptico
é obtida mediante a interiorização progressiva daquele
por cada um dos sujeitos, tornando-se(-lhe) uma espécie
de segunda \u201cnatureza\u201d, fazendo com que o controlo
exterior se torne auto-controlo e se traduza em
A informação como utopia
200-201. No entanto, e ao contrário do que a descrição de
Foucault pode levar a crer, Bentham não reduz o panóptico
a um sistema penitenciário e punitivo, atribuindo-lhe antes
intuitos claramente reformadores. Na opinião de Bentham,
a reforma social poderia ser conseguida generalizando o
panóptico a todos os sectores da sociedade, \u201cpunindo os
incorrigíveis, guardando os insanos, reformando os viciosos,
confinando os suspeitos, empregando os indolentes, mantendo
os doentes, instruindo o voluntário em qualquer ramo da
indústria, ou treinando a geração ascendente no caminho da
educação.\u201d Bentham, citado em David Lyon, Electronic Eye.
The Rise of Surveillance Society, Cambridge, Polity Press,
1994, p. 65.
249 - Assim, referindo-se à psicologia educacional e à entrevista
médica ou psicológica, Foucault afirma que \u201cessas técnicas
apenas remetem os indivíduos de uma autoridade disciplinar
para outra e reproduzem, de uma forma concentrada ou
formalizada, o esquema de poder-saber próprio de cada
disciplina.\u201d Michel Foucault, op. cit., pp. 226-227. Como
observa Deleuze, \u201ca fórmula abstracta do Panoptismo já não
é \u2018ver sem ser visto\u2019, mas impor uma qualquer conduta a
uma qualquer multiplicidade humana\u201d, multiplicidade que
deve ser pouco numerosa e restringir-se a um espaço
limitado.\u201d Gilles Deleuze, Foucault, Lisboa, Editorial Vega,
1987, p. 58; ver também p. 101.
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comportamento \u201cnormal\u201d (normalizado). A afirmação
suprema do panóptico reside, assim, na sua (aparente)
negação, na transformação de cada um em guarda e
prisioneiro de si próprio. 250
É certo que, em Surveiller et Punir, Foucault não
se refere (nem podia referir) ao problema da chamada
\u201cvigilância informática\u201d. No entanto, inspirando-se na
análise foucaltiana do panóptico, diversos autores têm
vindo a encarar as modernas tecnologias de informação
e comunicação como uma espécie de \u201cpanóptico
electrónico\u201d ou \u201csuper-panóptico\u201d, omnipresente no
local de trabalho, no mercado, na sociedade em geral.
Como fazem notar esses autores, através dos mais
pequenos gestos da nossa vida quotidiana - que se
baseiam, cada vez mais, nas novas tecnologias -
estamos, de forma voluntária (mas, ao mesmo