A informação como utopia
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A informação como utopia


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os textos de autores como
Toffler, Bell, Negroponte e de muitos dos \u201crealistas
virtuais\u201d. Neles, a sociedade da informação (nos seus
aspectos económicos, políticos e sociais) é encarada
como uma sociedade que trará um acréscimo de bem-
-estar, de qualidade de vida, de saber, de participação
democrática, de justiça, etc.. O tom é, em geral, opti-
mista e voluntarioso, fazendo lembrar alguns dos textos
mais utópicos (por exemplo, de Saint-Simon) sobre a
sociedade industrial. E, no entanto, a realidade mais
264 - Retomamos estas expressões de Michael Bawens, \u201cThe Status
of the Information Society\u201d, CMC Magazine, April 1, 1996
(Internet: ht tp: / /www.december.com/cmc/mag/1996/apr/
bawer). McLuhan e Heidegger são, quanto a nós, os dois
autores contemporâneos que melhor simbolizam esta
polaridade de atitudes perante a ciência e a tecnologia em
geral.
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recente parece obstinar-se em não dar razão a tal tipo
de posições: o crescimento económico estagnou, o de-
semprego não pára de aumentar (mesmo em países em
que esses problemas eram desconhecidos), assiste-se
à falência do chamado \u201cEstado de Bem-Estar Social\u201d,
aumenta o fosso entre os países desenvolvidos e o
Terceiro Mundo, surgem tentativas de controlar e cen-
surar as Redes, etc.. O que nos pode levar a pensar
que, se as tecnologias da informação eram a solução
do problema, elas parecem ter-se tornado, nos últimos
tempos, o problema (ou, pelo menos, um dos proble-
mas) da solução.
Há, no outro extremo, um conjunto de autores em
cujos textos perpassa um olhar profundamente \u201ccrítico\u201d
(chamámos-lhe também \u201cdistópico\u201d e \u201cdisfórico\u201d)
acerca da sociedade da informação. Para alguns desses
autores, a sociedade da informação surge da necessidade
de o capitalismo, esgotada a sua solução industrial -
por problemas como a escassez de recursos energéticos,
as diversas formas de poluição, a impossibilidade de
satisfazer as crescentes exigências de bens para
consumo, etc. -, fazer uma viragem no sentido de uma
economia mais volátil e menos poluente. Para outros
desses autores, a sociedade da informação não é mais
do que uma estratégia dos diversos Estados no sentido
de aumentarem a eficiência do controlo e do planea-
mento, aprofundando um processo que já vem dos
inícios da Modernidade. Para outros ainda, a sociedade
da informação é o culminar do domínio das elites cien-
tíficas e tecnocráticas, que detêm o monopólio do saber
e do discurso, sobre o cidadão em geral. De uma forma
geral, o tom é sombrio e, algumas vezes, mesmo apoca-
líptico, fazendo lembrar muitos dos textos que autores
como Marx e Engels dedicaram à sociedade industrial.
E, no entanto, fenómenos como as bibliotecas e as
comunidades ditas \u201cvirtuais\u201d oferecem, já hoje,
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possibilidades que ultrapassam, largamente, os limites
estreitos do quadro económico, social e político em
que se dá a sua emergência.
Apesar das suas diferenças óbvias, ambas as posições
anteriores - a que, por comodidade, chamámos \u201cutópica
digital\u201d e \u201cneo-luddista\u201d - se identificam quanto a dois
pressupostos básicos. Em primeiro lugar, o seu deter-
minismo: ambas tendem a olhar para a sociedade da
informação como se ela fosse a consequência natural
e inevitável do mero desenvolvimento científico e
tecnológico, que é concebido como o verdadeiro \u201cmotor
da história\u201d - só que, enquanto os primeiros acreditam
que esse desenvolvimento será totalmente positivo, os
segundos crêem tal desenvolvimento como inteiramente
negativo. Em segundo lugar, e em consequência do
anterior, a oclusão da política: ambas as posições
tendem a esquecer aquilo que, quanto a nós, é essencial
- a natureza política da sociedade da informação (e
da ciência e da tecnologia em geral). Assim, a impli-
cação última de ambas as posições acaba por ser a
mesma: a passividade (política) total perante os factos.
A \u201cterceira via\u201d, que reivindicamos - e que se
encontra, de forma mais ou menos explícita, subjacente
a es te t rabalho - , impl ica a inversão dos dois
pressupostos anteriores, levando-nos a afirmar que:
i) a ciência e a tecnologia, longe de serem realidades
autotélicas, não podem deixar de depender do contexto
sócio-cultural em que emergem e se desenvolvem - ao
mesmo tempo que influem, de forma poderosa, nesse
mesmo contexto; ii) a ciência a tecnologia são uma
questão política - elas são hoje, mesmo, a questão
política por excelência.
Para fundamentarmos a nossa primeira afirmação,
partiremos de um aforismo de Bacon em que este se
refere, de forma mais ou menos determinista, à \u201cforça\u201d
e aos \u201cefeitos\u201d que tiveram, no curso da história
Conclusão
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europeia e mundial, três invenções fundamentais: a
imprensa, a pólvora e a bússola.265 É interessante notar,
desde logo, que as três invenções mencionadas por
Bacon já eram conhecidas dos Chineses e utilizadas
por eles quando os Europeus chegaram à China; no
entanto, nenhuma dessas invenções teve, no contexto
em que originalmente surgiu e se desenvolveu, a \u201cforça\u201d
e os \u201cefeitos\u201d que viria a ter, na cultura ocidental, a
partir do Renascimento. Este exemplo - a que poderiam
somar-se vários outros - mostra, de forma clara, que
é o contexto cultural que \u201cprograma\u201d não só quais as
possibilidades científicas e técnicas que se realizarão
como também as finalidades dessas realizações. É certo
que, a par t i r do momento em que uma cul tura
\u201cprograma\u201d e realiza determinadas possibilidades
científicas e técnicas, em detrimento de outras, as
possibilidades realizadas vão funcionar, para os indi-
v íduos que cons t i tuem essa cu l tura , como um
verdadeiro \u201cdisposi t ivo\u201d, como algo dotado da
naturalidade própria da própria \u201cnatureza\u201d (como é
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265 - Diz Bacon: \u201cÉ oportuno observar a força e os efeitos das
descobertas. Essa força e esses efeitos não podem observar-
-se de forma mais manifesta que nas três invenções que os
Antigos ignoravam e cuja origem, ainda que recente, é
obscura: nomeadamente a imprensa, a pólvora para canhão
e o íman. Com efeito, estas três invenções mudaram o curso
e o estado das coisas à dimensão do mundo, a primeira na
literatura, a segunda na arte da guerra e a terceira na da
navegação; inúmeras mudanças se seguiram, de tal forma
que nenhum império, nenhuma seita, nenhuma estrela parecem
ter exercido mais influência e mais poder nos negócios
humanos que estas três invenções humanas.\u201d. Francis Bacon,
Novum Organum, aforismo 129, citado em Marshall McLuhan,
La Galax ie Gutenberg . La Genèse de l \u2019Homme
Typographique, Paris, Gallimard, 1977, p. 335.
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característico, aliás, de tudo o que é cultural) -
constituindo-se não apenas como um conjunto de
\u201cmeios\u201d que o homem pode utilizar para a consecução
das suas finalidades, mas também como o \u201cmeio\u201d em
que ele imerge e o envolve. Aqui reside, quanto a nós,
a verdade da crítica heideggeriana da Técnica.
Do anterior segue-se uma consequência fundamental:
a de que só é possível influir na ciência e na tecnologia
- e, assim, sair do \u201cdispositivo\u201d que elas constituem
- de forma indirecta, isto é, influindo no próprio
contexto sócio-cultural em que elas surgem e se
desenvolvem. 266 Chegamos, desta forma, à nossa
segunda afirmação, acerca do carácter eminentemente
político da ciência e da tecnologia. A este respeito,
as próprias \u201ctecnologias da informação\u201d fornecem-nos
um bom exemplo. Como referimos no Capítulo III, elas
são, em grande medida, a concretização da \u201cutopia/
/ideologia da comunicação\u201d - que constitui, obviamente,
uma certa visão política do que é (e do que deve ser)
a sociedade e do papel que a ciência e tecnologia nela
devem assumir. É claro que se pode sempre argumentar,
em relação a este exemplo, que tal utopia/ideologia
foi uma \u201cnecessidade histórica\u201d - mas isso equivale
a remeter, para uma entidade metafísica (a que
Conclusão
266 - O que não pode confundir-se, de