A informação como utopia
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A informação como utopia


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France glosa, de
forma menos metafórica, o mesmo tema: \u201cA utopia é
irrealizável. Contudo, se os homens não a tivessem inventado,
estaríamos ainda hoje a desenhar nas paredes das cavernas.\u201d
Citado em José Fernandes Fafe, \u201cO lugar da utopia na política
contemporânea\u201d, in Revista de Comunicação e Linguagens,
Nº 21-22, Lisboa, Edições Cosmos, 1995, p. 83.
31 - Seguimos, neste aspecto, na linha de Paul Ricoeur - que,
por seu lado, retoma a linha iniciada pela obra Ideologia e
Utopia, de Karl Mannheim.
32 - Cf. Paul Ricoeur, Ideologia e Utopia, Lisboa, Edições 70,
1991, pp. 501-502.
Ideologia e utopia
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A informação como utopia
e a função subversiva da utopia: sem a primeira,
nenhuma sociedade ou grupo social poderia manter-
-se; sem a segunda, nenhuma sociedade ou grupo social
poderia evoluir.33
Resulta, daqui, que a questão do poder é central
quer na ideologia quer na utopia - pelo que uma e
outra assumem um carácter eminentemente político.
Enquanto a ideologia é sempre uma tentativa de
legitimar e justificar o poder, a segunda é sempre \u201cuma
tentativa de substituir o poder por uma outra coisa
qualquer\u201d34 - não indicando, no entanto, qualquer meio
positivo e concreto para efectivar tal substituição. A
ideologia coloca-se do lado da Realpolitik, que gere
e administra o espaço político particular, tal como ele
existe; a utopia coloca-se do lado da Idealpolitik, da
\u201cidealização da \u2018universalidade\u201d, que exige a negação
daquele espaço, qualquer que seja a forma que ele
assume.35
Na prática, a fronteira entre utopia e ideologia é
sempre relativa e difícil de estabelecer - sendo, à
partida, impossível dizer de um pensamento se ele é
\u201cideológico\u201d ou \u201cutópico\u201d.36 A este propósito, o caso
33 - Cf. Paul Ricoeur, Do Texto à Acção, Porto, Rés Editora, 1989,
p. 232.
34 - Paul Ricoeur, Ideologia e Utopia, Lisboa, Edições 70, 1991,
p. 472. Cf. também Paul Ricoeur, Do Texto à Acção, Porto,
Rés Editora, 1989, p. 232.
35 - Cf. José Bragança de Miranda, op. cit., p. 160. Aceitando
a tese do Autor de que quer a ideologia quer a utopia - quando
tomadas isoladamente - impedem a política, chegamos à
consequência de que ambas, no seu conjunto, são condições
indispensáveis para essa mesma política (que não pode deixar
de partir do existente mas para o negar). Todo o nosso trabalho
se pode resumir, no fundo, ao enunciado anterior.
36 - Para além de haver quem, com propósitos políticos evidentes,
confunda intencionalmente os dois conceitos. Assim, quando
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Ideologia e utopia
do marxismo parece-nos exemplar: a) Para os operários
do século XIX o marxismo apresentava-se, indubi-
tavelmente, como uma utopia, dotada de um potencial
tranformador e revolucionário; já no Estado soviético
pós-1917 o mesmo marxismo (ou, pelo menos, uma
sua versão) assumia um carácter perfe i tamente
ideológico e conservador; b) Até há pouco tempo, o
marxismo era a ideologia que, nos países ditos \u201ccomu-
nistas\u201d, justificava o domínio e a opressão do Partido
sobre os cidadãos; já no Ocidente \u201ccapitalista\u201d ele era
encarado, por muitos, como a promessa de uma
sociedade mais justa, fraterna e igualitária, servindo
de elemento catalizador de lutas que, fosse como fosse,
levaram a ganhos sociais muito significativos. Este
exemplo permi te-nos , a l iás , ex t ra i r t rês out ras
conclusões importantes sobre a relação entre ideologia
e utopia.
Em primeiro lugar, decidir se um determinado
conjunto de ideias, crenças e valores é uma utopia ou
uma ideologia, implica tomar em consideração o
contexto histórico-social em que tais elementos sim-
bólicos e imaginários se situam (aquilo que num
determinado contexto assume um carácter utópico, pode
assumir noutro contexto um carácter ideológico, e vice-
-versa).
Em segundo lugar, a ideologia e a utopia não podem
ser vistas como realidades mutuamente exclusivas - de
facto, elas envolvem todo um conjunto de interacções
e transacções. Existe, entre ideologia e utopia, uma
se fala do \u201cfim das ideologias\u201d, o que se pretende significar
é, muitas vezes, o (suposto) fim das utopias transformadoras
do real - substituídas por uma racionalidade científico-
- tecnológica centrada na \u201cef icácia\u201d e no \u201csucesso\u201d e
glorificadora do existente. É o caso, por exemplo, de Daniel
Bell (1960).
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A informação como utopia
relação análoga àquela que Ricoeur estabelece entre
uma metáfora \u201cviva\u201d (ou metáfora propriamente dita)
e uma metáfora \u201cmorta\u201d (solidificada e institucionaliza-
da). Enquanto a primeira é uma \u201ccriação instantânea\u201d,
uma \u201cinovação semântica\u201d, que irrompe na linguagem
como algo de novo e imprevisto, a segunda - em virtude
da sua repetição e do seu uso - já perdeu todas essas
carac ter ís t icas . Daí que , segundo Ricoeur, nos
dicionários só possam existir metáforas \u201cmortas\u201d,
resultantes do esgotamento das metáforas vivas.37 Algo
semelhante se passa com a utopia e a ideologia. Ao
realizar-se parcialmente - porque, como já dissemos,
toda a utopia tende à sua realização, ainda que essa
realização nunca possa ser plena, sem o que a utopia
não seria utopia - a utopia transforma-se em algo de
\u201cmorto\u201d, de fixo, que visa já não a transformação mas
a legitimação do existente, da realidade a que deu
origem. Assim, podemos dizer que, enquanto a utopia
é uma ideologia \u201cviva\u201d, a ideologia é uma utopia
\u201cmorta\u201d.
Em terceiro lugar, ao tentarem transformar-se em
realidade, todas as utopias envolvem determinados
efei tos perversos e não previstos, determinadas
distopias38 - estas são, por assim dizer, o tributo que
o sonho paga à realidade. É ao pretenderem dissimular
estes aspectos distópicos - servindo, assim, de legi-
t imação aos in teresses de determinados grupos
espec í f icos , a quem esses aspec tos d i s tóp icos
aprove i tam - que as u top ias se t ransformam,
verdadeiramente, em ideologias. Há, aliás, toda uma
37 - Cf. Paul Ricoeur, Teoria da Interpretação , Porto, Porto
Editora, 1995, pp. 99-100.
38 - De dys, mal, e topos , lugar: metaforicamente falando, o
\u201cparaíso\u201d torna-se (ou assume aspectos de) \u201cinferno\u201d. Estamos
aqui a pensar por exemplo no Terror e no Gulag.
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Ideologia e utopia
literatura que, procurando pôr em destaque os aspectos
distópicos das diversas utopias, constrói uma espécie
de imagem invertida dessas mesmas utopias, algo a
que podemos chamar contra-utopias - de que são
exemplos clássicos e bem conhecidos o 1984, de George
Orwell e O Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.
O discurso que se segue - acerca da ciência e da
tecnologia, num primeiro momento, e da sociedade da
informação, num segundo momento -, estrutura-se a
partir da concepção das relações ente ideologia e utopia
que acabámos de delinear.
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I
A TECNOCIÊNCIA
COMO IDEOLOGIA
\u201cCom efeito, estas noções mostraram-me que é
possível chegar a conhecimentos muito úteis à vida
e que (...), conhecendo o poder e as acções do fogo,
da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os
outros corpos que nos cercam, tão distintamente como
conhecemos os diversos misteres dos nossos artífices,
os poderíamos utilizar de igual modo em tudo aquilo
para que servem, tornando-nos assim como que
senhores e possuidores da natureza.\u201d - Descartes,
Discurso do Método
Ao instituir o sujeito como fundamento - substi-
tuindo, nesse papel, toda a tradição e toda a autoridade
exteriores ao sujeito39 - a Modernidade instaura a crise
de todos os fundamentos. Com efeito, se é o Cogito
que fundamenta, a partir de si próprio, toda a \u201creali-
dade\u201d do real, recusando toda e qualquer exterioridade,
cada um dos fundamentos que (o mesmo Cogito) vai
produzindo se transforma, no acto mesmo de ser
produzido, em \u201ctradição\u201d e \u201cautoridade\u201d - e, como tal,
deve ser ser recusado.
39 - Cf. Adriano Duarte Rodrigues, Comunicação e Cultura. A
Experiência Cultural na Era da Informação, Lisboa, Presença,
1994, p. 64.