A informação como utopia
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A informação como utopia


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e, como tal, susceptível
de ser utilizada e manipulada. Conhecida, medida, domi-
nada, restará à natureza servir os desígnios do homem.
O conceito de domínio, de poder, é, deste modo, o
conceito que une, de forma subterrânea, a filosofia da
subjectividade e a técnica, orientando todo o projecto
da Modernidade.46
Na opinião de Descartes, a nova ciência permitirá,
ao homem, um duplo desiderato: por um lado, a produ-
ção de um conjunto de \u201cartifícios\u201d (de invenções técni-
cas), que facilitarão a sua vida material; por outro lado,
a descoberta de processos (médicos) conducentes à
melhoria das condições de conservação da saúde,
libertando-o das doenças e possibilitando, quiçá, o
prolongamento indefinido da vida.47 Ao estender a sua
46 - Este aspecto, que foi particularmente enfatizado por Heidegger
(nomeadamente nos seus ensaios A Questão da Técnica e
Língua de Tradição e Língua Técnica), é ilustrada, de forma
clara, nas seguintes afirmações de Kurt Hubner sobre a relação
entre ciência e técnica: \u201cA ciência exacta da natureza aponta
já enquanto tal para uma conquista técnico-prática da
existência. Surge sempre em relação com o aparelho técnico:
o relógio, o telescópio, o pêndulo, para apenas enumerar
alguns. Cada vez mais se exige também que os conceitos
científicos se definam mediante operações com aparelhos de
medida, os quais se tornam ao mesmo tempo mais completos
e sofisticados.\u201d Kurt Hubner, Crítica da Razão Científica,
Lisboa, Edições 70, 1993, p. 234. Não é impossível, aliás,
que a invenção (técnica) anteceda mesmo a teorização
(científica): \u201cEm 1824, por exemplo, Carnot tentou elaborar
uma teoria da máquina a vapor, quando esta já prestava
serviços excelentes; em 1912, von Laue identificou a natureza
dos raios de Roengten (Raios X), cuja utilização se encontrava
já muito difundida.\u201d Cf. pp. 234-235.
47 - Cf. Descartes, op. cit., p. 50.
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A tecnociência como ideologia
acção ao nível da linguagem, a ciência poderá mesmo
conduzir ao acordo universal entre os homens, mediante
a construção de uma língua artificial, de índole mate-
mática, que permita a tradução e a comunicação claras
e transparentes do pensamento, impossíveis através da
linguagem vulgar (natural) do senso comum.48
Esta tematização cartesiana da ciência leva-nos a
pensar, na linha de Arnold Gehlen, que o verdadeiro telos
da ciência e da tecnologia modernas parece ser menos
o domínio da natureza (ou a sua \u201cpro-vocação\u201d, como
dirá Heidegger) - ainda que tais finalidades também
estejam presentes, mas a título de finalidades intermédias
e instrumentais - e mais a construção de um perpetuum
mobile, de um automatismo que, eliminando maximamente
todos os \u201cacidentes\u201d e \u201cdesastres\u201d naturais, permita a
construção de uma espécie de \u201cparaíso terreno\u201d, em que
a distância entre o desejo do homem e a sua actualização
plena seja tendencialmente nula.49 A consciência desta
natureza da ciência e da tecnologia modernas é também
antevista por Hegel, quando este atribui, ao trabalho de
\u201cnegação\u201d da actividade científico-tecnológica, o objectivo
essencial da construção de uma segunda \u201cnatureza\u201d,
plenamente humanizada e mais perfeita e fiável que a
natural.50
48 - Sobre este projecto de língua artificial - a que voltaremos
adiante, de forma mais desenvolvida -, ver René Descartes,
\u201cLettre au P. Mersenne\u201d, de 20 de Novembro de 1629, in
Ouevres Philosophiques, Tome I (1618-1637), Paris, Garnier,
1972. Sobre este mesmo tema, cf . Ernst Cassirer, La
Phi losophie des Formes Symbol iques , Volume I (\u201cLe
Langage\u201d), Paris, Éditions de Minuit, 1991, pp. 73-74.
49 - Cf. Arnold Gehlen, A Alma na Era da Técnica, Lisboa, Livros
do Brasil, s/d, especialmente pp. 24-25. Cf. também José
Manuel Santos, op. cit..
50 - Cf. José Manuel Santos, ibid..
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A informação como utopia
O Iluminismo, que é o herdeiro directo da utopia carte-
siana, vai procurar estender essa utopia à organização
da sociedade - que se pretende o mais \u201cracional\u201d e \u201ccientí-
fica\u201d possível. O seu grande tema (e objectivo) é a emanci-
pação da humanidade, \u201ca saída do homem da sua menori-
dade de que ele próprio é culpado\u201d, para utilizarmos
a célebre definição de Kant.51 Enquanto relativamente ao
indivíduo a emancipação exige a autonomia - a capacidade
de o indiví- duo pensar por si próprio, a partir da sua
própria Razão, recusando submeter-se à tutela da auto-
ridade e da tradição - em relação à humanidade a emanci-
pação exige o progresso em direcção a uma ordem social
justa e perfeita. Esse progresso liga-se indissociavelmente
às ciências naturais e à tecnologia: a racionalização é,
em primeiro lugar, uma racionalização científico-
-tecnológica que, a pouco e pouco, deve alargar-se a toda
a sociedade.52 O progresso das ciências e a organização
cada vez mais racional da sociedade possibilitarão o fim
das desigualdades (quer entre as nações quer entre os
cidadãos de cada nação) e o aperfeiçoamento real de cada
um dos seres humanos. À semelhança de Descartes, antevê-
-se a possibilidade de a medicina eliminar as doenças e
as dores físicas e permitir o prolongamento indefinido da
vida humana. A ideia de progresso liga-se assim,
claramente, a uma visão optimista do mundo e da história,
assente na crença na perfectibilidade da natureza humana.53
51 - Cf. Immanuel Kant, A Paz Perpétua e Outros Escritos,
Lisboa, Edições 70, 1988, p. 11.
52 - Cf. Kurt Hubner, op. cit., p. 239.
53 - Note-se, no entanto, que nem todos os chamados \u201ciluministas\u201d
são optimistas em relação à marcha da \u201ccivilização\u201d. Não
o é por exemplo Rousseau que, no Discours sur les Sciences
et les Arts, de 1750, responde à pergunta da Academia de
Dijon - \u201co progresso das ciências e das artes contribuirá para
purificar ou para corromper os nossos costumes?\u201d com um
rotundo \u201cNão\u201d. Cf. Boaventura de Sousa Santos, op. cit., p. 7.
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A tecnociência como ideologia
Mas a emancipação da humanidade - na sua dupla
vertente de autonomia individual e de progresso
colectivo - exige o uso público da Razão, o \u201cprincípio
da publicidade\u201d.54 Para os Iluministas, o pensar, o uso
da razão, a crítica racional não constitui um exercício
solipsista. Se é verdade que pensar implica pensar
contra (uma autoridade, uma tradição, um pensamento
já pensado), não é menos verdade que pensar implica
pensar com (os outros a quem nos dirigimos e que
se nos dirigem, mesmo para deles discordarmos e os
criticarmos). Assim, pensar é sempre um acto de
comunicação, um acto que consiste em pôr algo em
comum com os outros, com o \u201cpúblico\u201d55 . Daí que,
54 - Para ilustrar este \u201cprincípio da publicidade\u201d, Habermas cita
a seguinte afirmação de Kant: \u201cÉ, pois, difícil a cada homem
desprender-se da menoridade que para ele se tornou quase
uma natureza. (...) Mas é perfeitamente possível que um
público a si mesmo se esclareça. Mais ainda, é quase
inevitável, se para tal lhe for dada liberdade.\u201d Jürgen
Habermas, L\u2019Espace Public, Paris, Payot, 1993, p. 114. Cf.
Immanuel Kant, op. cit., p. 12.
55 - O nascimento do público (ou, pelo menos, do \u201cpúblico\u201d num
sentido completamente diferente do das épocas anteriores)
- que Gabriel Tarde define como \u201cuma colectividade puramente
espiritual, uma dispersão de indivíduos fisicamente separados
e entre os quais existe uma coesão apenas mental\u201d, que
aumenta de forma contínua e tem uma extensão \u201cindefinida\u201d
- é um dos mais importantes efeitos da imprensa, no século
XV. Um segundo momento importante na criação dos públicos
modernos é representado pelo aparecimento e extraordinário
desenvolvimento dos jornais (ao conjunto dos quais se passa
mesmo a chamar a chamar \u201ca imprensa\u201d), sobretudo na época
da Revolução Francesa de 1789. Cf. Gabriel Tarde, La
Opinión y la Multitud, Madrid, Taurus, 1986, pp. 43 ss. Ver,
acerca de Tarde em particular e da emergência do público
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A informação como utopia
na opinião de Kant, a liberdade de comunicação,