Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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acrescentei alista conhe­
cida das teses uma nova, que figura com 0 numero XVIII no exemplar des­
coberro ha alguns an os por Giorgio Agamben. Essa tese ja aparecia entre 
as noras preparatorias publicadas nos Gesammelte Scbrifien com 0 numero 
XVlIa. 0 Handexemplar encontrado por Agamben mostra que Benjamin 
pretendia inclui-la na versao final do documenro. Trata-se, alias, de urn texto 
autonomo - e nao de uma variante - da maior importincia. Figura aqui 
com 0 nurnero XVIIa para evitar rnudanca na numeracan, ja conhecida, 
das ultimas teses. 
9	 A traducao de Gagnebin e de Muller foi feica a partir do original alernao "Ober 
den Begriffder Geschichce" em GesammelteSchriften, organizado por R. TIEDEMANN 
e H. SCHWEPPENHAUSER (Frankfun, Suhrkarnp, 1974), 1,2, p. 691-704 e I, III, 
p. 1231, onde se enconcra a tese XYlIa. Pane dessa obra sera publicada em porru­
gues na colecao "Espfrito Crftico'', numa co-edicao entre as editoras 34 e Duas Ci­
dades, que gemilmeme cederam a rraducao das tesespara a Boicempo. 
10 G. BONOLA, M. RANCHETTT (org.), Walter Benjamin, sui concetto di storia (Torino, 
Einaudi, 1997). 
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Para a interpretacao das reses, consrantemente me reteri as noras prepara­
torias, publicadas no volume 1.3 dos Gesammelte Schrifien, cujas referencias 
serao mencionadas no corpo do texto (entre parenteses). 
Algumas observacoes pessoais para concluir esta inrroducao. Descobri as 
teses "Sobre 0 conceito de historia" tardiamente. Paradoxalmente, grac;as aos 
escritos de Gershom Scholem - que encontrei em Jerusalem em 1979 - tomei 
conhecimento desse documento, em urn momento em que cornecava a me 
interessar pelas relacoes entre messianismo e utopia no judaismo. No en tanto, 
o rexto estava disponivel em frances desde 1947 e em alernao desde 1950. Nao 
sei se devo atribuir esse atraso a ignorancia, a cegueira ou ao desprezo. Em 
todo caso, meu itinerario inrelectual, se divide em antes e depois da descoberta 
das teses Uber den BegrifJder Geschichte de Benjamin. 
Desde que os Ii, ha cerca de vinte anos, esses escritos nao deixaram de 
me ocupar, fascinar, intrigar, emocionar. Li, reli e Ii novarnen te, dezenas 
de vezes, tendo a sentimento - ou a ilusao - a cada leitura, de descobrir as­
pectos novas, de mergulhar mais profundamente na infinita profundidade 
do texro, de compreender enfim 0 que, pouco antes, parecia ainda herrnerico 
e opaco. Confesso que restam para mim zonas obscuras em algumas passa­
gens do documento, enquanto outras me parecem deslumbrantes por sua 
transparencia, sua luminosidade, sua evidencia inquestionavel. Essas dife­
renc;as se rnanifesrarn em urn tratamento muito desigual das teses em meus 
comentarios... 
Mas, acima de tudo, a leitura das "teses" afetou minhas certezas, transfor­
mou minhas hipoteses, inverteu (alguns de) meus dogmas: em resumo, e1a me 
obrigou a refletir de outra maneira, sobre uma serie de questoes fundamentais: 
o progresso, a rellgiao, a historia, a utopia, a polltica. Nada saiu imune desse 
encontro capital. 
Pouco a pouco me dei conta tambern da dirnensao universal das proposi­
coes de Benjamin, de sua irnportancia para compreender - "do ponto de vista 
dos vencidos" - nao so a historia das classes oprimidas, mas rarnbern a das 
mulheres - a metade da humanidade -, dos judeus, dos ciganos, dos indios 
das Americas, dos curdos, dos negros, das minorias sexuais, isto e, dos parias ­
no sentido que Hannah Arendt dava a este termo - de todas as epocas e de 
todos os continentes. 
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Nos quinze ultirnos anos, redigi muitas notas na perspectiva de uma inter­
preracao das teses. Segui os cursos ou as conferencias de eminentes especia­
listas, como Stephane Moses e Irving Wohlfarth. Por minha vez, fiz das teses 
o terna de urn serninario ao longo de urn ana inteiro na Ecole des Hautes 
Etudes en Sciences Sociales - e, mais tarde, na Universidade de Sao Paulo. Li 
uma boa parte das obras dos comentadores, todavia continuo convencido 
nao so de que ainda hi lugar para outras interpretas;oes - como a que propo­
nho aqui - mas de que 0 texto de Benjamin pertence aquela especie rara de 
escritos que tern por vocacao suscitar novas leituras, novos ponros de vista, 
abordagens hermeneuticas diferenres, rerlexoes ineditas - ad infinitum. Ou 
ainda, como diz 0 shemah israel, a milenar prece dos judeus, leolam va ed, 
por toda a eternidade. 
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TESE I 
Como sesabe, deve ter havido um automato, construido de tal maneira que, a 
cadajogada de um enxadrista, ele respondia com uma contrajogada que lhe asse­
gurava a uitoria da partida. Diante do tabuleiro, que repousava sobre uma ampla 
mesa, sentaua-se um boneco em trajes turcos, com um narguileIt boca. Um sistema 
de espelhos despertaua a ilusdode que essa mesade todos osladosera transparente. 
Na uerdade, um ando corcunda, mestre no jogo de xadrez, estaua sentado dentro 
dela e conduzia, por fios, a mao do boneco. Pode-se imaginar na filosofia uma 
contrapartidadessa aparelhagem. 0 boneco chamado "materialismo historico" deue 
ganhar sempre. Ele pode medir-se, sem mais, com qualquer aduersdrio, desde que 
tome a seu seruico a teologia, que, hoje, sabidamente, epequena efeia e que, de 
toda maneira, ndo deve se deixar ver. 
A tese I logo anuncia urn dos temas centrais do conjunto do texto "Sobre 0 
conceito de hisroria": a associacao paradoxal entre 0 materialismo e a teologia. 
Para dar conta dessa cornbinacao, Benjamin cria uma alegoria ironlca. Tente­
mos decifrar 0 significado dos elementos que a compoern: 
~\iC Em primeiro lugar, 0 automata: eurn boneco, ou uma marionete, "chama­
do 'materialismo historico'", 0 uso das aspas e 0 estilo da Frase sugerem que 
esse automate nao e0 "verdadeiro" materialisrno historico, mas aquele que se 
costuma chamar assim. Quem "costuma"? Os principais porta-vozes do mar­
xismo de sua epoca, isto e, os ideologos da II e da III Internacional. Aos olhos 
de Benjamin, 0 materialismo historico torna-se eferivarnenre, nas maos desses 
porta-vozes, urn rnetodo que percebe a historia como urn tipo de rnaquina 
que conduz "autornaticamente" ao triunfo do socialismo. Para esse materia­
lismo mecanico, 0 desenvolvimento das forcas produtivas, 0 progresso econo­
mico e as "leis da hisroria" levam necessariamente a crise final do capitalismo e 
a vitoria do proletariado (versao cornunista) ou as reformas que transformarao 
gradualmente a sociedade (versao socialdemocrata). Ora, esse automate, esse 
manequim, esse boneco mecanico, nao ecapaz de ganhar a partida, 
"Ganhar a partida' tern aqui urn duplo sentido: 
a) interpretar corretarnente a historia, lutar contra a visao da historia dos 
opressores; 
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b) veneer 0 proprio inimigo historico, as classes dominantes - em 1940: 
o fascismo. 
Para Benjamin, os dois sentidos estao inrimarnente ligados na unidade 
indissoluvel entre a teoria e a pratica: sem uma interpretacao correta da histo­
ria, edificil, se nao irnposslvel, lutar de maneira eficaz contra 0 fascismo. A 
derrota do movimento operario rnarxista diante do fascismo - na Alemanha, 
na A.ustria, na Espanha, na Franca - demonstra a incapacidade desse boneco 
sem alma, desse automate vazio de sentido, de "ganhar a partida" - uma parri­
da em que se decide 0 futuro da humanidade. 
Para ganhar, 0 materialismo historico precisa da ajuda da teologia: e0 pe­
queno anao escondido na rnaquina. Essa alegoria foi inspirada, como se sabe, 
em urn conto de Edgar Allan Poe - traduzido por Baudelaire - que Benjamin 
conhecia muito bern: "0 jogador de xadrez de Maelzel"", Trata-se de urn auto­
mata jogador de xadrez, apresentado em 1769 acorte de Viena pelo barao 
Wolfgang von Kempelen, que vai acabar, depois de diversas perlpecias, nos 
Estados Unidos, em uma tume organizada por urn invenror-empreendedor 
vienense, Johann Nepomuk Maelzel. Poe descreve esse automate como uma 
flgura "vestida no estilo turco", cuja "mao