Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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HABERMAS, "L'actualire de W. Benjamin", cit., 1, p. 112. 
2? Cito 0 belo texto de ].-M. GAGNEBIN, Historia e narracdo em Walter Benjamin (Sao 
Paulo, Perspectiva, 2004), p. 105 e sua nota 45, na mesma pagina: " 'Deveriam 
critica e profecia ser as categorias que se juntam na "salvacao" do passado?' pergunta 
Benjamin nas anotacoes as 'teses', GS, 1-3, p. 1245". 
28 T. ADORNO, "Le progres", Modeles critiques (Paris, Payot, 1964), p. 156 led. alerna: 
"Fortschritt", Stichworte. Kritische Modelle 11, Frankfurt, Suhrkarnp, 1969]. 
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~.
 
TESE III 
o cronistaque narraprofusamente osacontecimentos, sem distinguir grandes e 
pequenos, leva com isso a uerdade de que nada do que alguma vez aconteceu pode 
serdadopor perdido para a histdria. Certamente, s6ahumanidade redimida cabe0 
passadoem sua inteireza. Isso quer dizer: s6abumanidaderedimida 0 seupassado 
tornou-se citduelem cadaum dos seus instantes. Cada um dos instantes oiuidospor ela 
torna-se uma citation al'ordre du jour' - dia que ejustamente, 0 do julzo Final. 
Existe uma ligac;ao direta entre essa tese e a anterior: ela e uma inversao 
simetrica e cornplementar da outra. 0 passado espera de nos sua redencao, e 
sornente a uma humanidade redimida "cabe 0 passado em sua inteireza". Mais 
uma vez, a rememoracao esta no cerne da relacao teologica com 0 passado e da 
propria definicao de Erlosung. A redencao exige a rernernoracao integral do 
passado, sem fazer distincao entre os acontecimentos ou os individuos "gran­
des" e "pequenos", Enquanto os sofrimentos de urn unico ser humano forem 
esquecidos, nao podera haver libertacao. Trata-se, sem duvida, do que as notas 
preparatorias designam como a historia universal do mundo messianico, do 
mundo da atualidade integral (CSI, 3, p. 1234-1235). 
o exemplo do cronista para ilustrar essa exigencia pode parecer mal esco­
lhido: nao eele a figura paradigrnatica daquele que escreve a historia do ponto 
de vista dos vencedores, dos reis, dos pdncipes, dos imperadores? Mas Benja­
min parece querer ignorar deliberadamente esse aspecto: escolheu 0 cronista 
porque ele representa essa historia "integral" que ele afirrna ser seu desejo: uma 
historia que nao exclui detalhe algum, aconrecirnento algum, mesmo que seja 
insignificante, e para a qual nada esta "perdido". 0 escritor russo Lesskov, 
Franz Kafka e Anna Seghers sao, a seus olhos, figuras modernas do cronista 
assim compreendido. 
Irving Wohlfarth - urn dos leitores mais perspicazes da obra de Benjamin ­
salienta, com toda a razao, que 0 cronista antecipa 0 Juizo Final, que recusa, 
como de, toda dlscriminacao - uma visao que lembra a doutrina, mencionada 
por Benjamin em seu ensaio sobre Lesskov, de certas correntes da Igreja or-
Em frances no texto: "citacao na ordem do dia". 
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radoxa para as quais todas as almas irao para 0 parais0 
29 
\u2022 De fato, em "0 
narrador'&quot; (1936), Benjamin evoca a simpatia de Lesskov pelas especula<;6es 
origenistas relativas aapocatdstase, ou seja, asalvac;ao final de todas as almas, 
sern excec;ao. A redencao. 0 Juizo Final da tese III, eentao uma apocatastase no 
sentido de que cada vitima do passado, cada renrativa de ernancipacao, por 
mais humilde e &quot;pequena&quot; que seja, sera salva do esquecimento e &quot;citada na 
ordem do dia&quot;, ou seja, reconhecida, honrada, rememorada. 
Mas a apocatastase significa rarnbern, literalmente, a volta de rodas as coi­
sas a seu estado originario - no Evangelho, 0 restabelecimento do Paraiso pelo 
Messias. Trata-se da ideia da Wiederbringung aller Dinge (volta de rodas as 
coisas) ou da Versohnende Ruckkehr am Ende der Dinge (volta reconciliada no 
fmal de rodas as coisas) com que sonhava Lotze em Mikrokosmos&quot;: a forma 
secreta ou misteriosa pela qual 0 progresso poderia integrar os espiritos dos an­
cestrais, Em outras palavras, trata-se da restitutio ad integrum [restituicao inte­
gral] ou restitutio ominium [resrtrulcao do rodo], de que ja falava 0 
Theologisch-politisches Fragment de Benjamin (1921). 0 equivalente judaico, 
rnessianico e caballstico da apocatistase crista e, segundo Scholem em seu ani­
go &quot;Cabala&quot;&quot; na Eneyclopaediajudaica (1932),0 tikkun, a redencao como volta 
de todas as coisas a seu estado inicial&quot;, Benjamin ficou profundamente im­
29	 I. WOHLFARTH, &quot;On the messianic structure of Walter Benjamin's last reflections&quot;, 
Glyph, ng 3, Baltimor, 1978, p. 152. 
[Ed. bras.: &quot;as Pensadores&quot;. v. XLVIII, Sao Paulo, Abril Cultural, 1975, trad, do 
original alernao &quot;Der Erzahler. Betrachtungen zum Werk Michail Lesskows&quot; 
em Uber Literatur (Frankfurt, Suhrkamp, 1969), p. 33-61, por Erwin Theodor 
Rosental]. 
30 H. LOTZE, Mikrokosmos. Ideen zur Naturgeschichte und Geschichte der Menschheit. 
Versuch einer Anthropologie. 1923 (Leipzig, Verlag von S. Hirzel, 1864), v. 3, 
p. 51-2 e 56. 
.. &quot;Kabbala&quot; em G. SCHOLEM, Walter Benjamin undsein Engel, cit., p. 66-71 led. bras.: 
Cabala, Rio de Janeiro, A. Koogan, 1989]. 
31 Segundo Scholem, 0 tikkum designa, na linguagem cabalfstica, a restituic;ao, 0 
restabelecimento da ordem cosmica prevista pela providencia divina, grac;as a re­
dencao messianica. A destruicao da forca do mal e 0 fim catastrofico da ordem histo­
rica, que sao simplesmente 0 outro /ado da redenrtio. a pecado original de Adao 
somente pode ser abolido pelo advento do Reino messianlco, graps ao qual as 
ss 
pressionado com esse texto de Scholern, que mencionou em uma carta de 15 
de janeiro de 1933 a seu amigo: &quot;Os raios desses estudos&quot; desceram ate as 
profundezas de seu &quot;abismo do nao-saber&quot; 32. Na versao francesa da tese III, 
redigida pelo proprio Benjamin, trata-se da &quot;humanidade resti tufda, salva, 
resrabelecida&quot; - rres termos,que remetem aapocatastase e ao tikkun. 
o conceito de apocatastase, de Origenes a Schleiermacher, passando por 
Gregoire de Nysse, Scot Erigene e pelos anabatistas, tern urn duplo alcance: a 
restitutio do passado e ao mesmo tempo um novum [algo novo]. Eexatamente 
o que escreve Scholem sobre a tradicao rnessianica judaica: ela e avivada pelo 
desejo de restabelecimento do estado origlnario das coisas e, ao mesmo tempo, 
por uma visao ut6pica do futuro, em uma especie de iluminacao mutua&quot;. 
A dirnensao utopica-revolucionaria da apocatastase nao esta explicitarnen­
te presente na tese III, mas e sugerida em urn paragrafo de Das Passagen-wt>rk. 
Benjamin cita uma crfrica de Emmanuel Berl aos surrealistas: &quot;Em vez de pe­
gar 0 trem do mundo moderno&quot;, eles teriam tentado se recolocar &quot;em um 
arnbienre anterior ao marxismo, na epoca dos anos 1820, 1830 e 1840&quot; do 
seculo XIX- uma referencia evidenre aos socialistas utoplcos e/ou a Blanqui. 
Ora, para 0 autor de DasPassagen-wt>rk, essa recusa em &quot;pegar 0 trem do rnun­
do moderno&quot; - uma expressao que s6 podia Ihe suscitar 0 desprezo - e precisa­
coisas volrarao a seu lugar inicial: Ha-Shavat Kol ba-Deuarim le-Hauaiatam - cujo 
equivalente cristae seria 0 conceito da apocatasrase(Encyclopaedia[udaica, v.9, 1932, 
p. 659-663, 697-698, 703). 
32 Correspondence, II, p. 76. 
33 G. SCHOLEM, Le messianismejuif(Paris, Calmann-Levy, 1974), p. 25-7: &quot;Nessa uto­
pia orientada para a restauracao, podem-se inrroduzir perspectivas... orientadas de 
fato para a ideia de urn mundo messianico inteiramenre novo. Esse rnundo inteira­
mente novo cornporta ainda aspectos que derivam niridarnente do mundo antigo, 
mas esseproprio mundo antigo nao e rnais identico ao passado do mundo, e sobre­
rudo urn passado transformado e transfigurado pelo sonho brilhanre da utopia.&quot; 
No que diz respeito a Benjamin, J.-M. Gagnebin observa, com toda a razao, que 0 
terna da restitutio ou da apokatastasis nao e urn simples projeto de restauracao: e 
realmente uma rerornada do passado &quot;mas ao mesmo tempo - e porque 0 passado 
enquanro passado so pode voltar numa nao-identidade consigo mesmo - abertura 
para 0 futuro, inacabarnenro constiturivo&quot; (Hist6ria