Aviso de Incendio Michel Lowy
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e narracdo em Walter Benjamin, 
cit., p. 14). 
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mente uma das grandes virtudes do Surrealismo, um movimento inspirado 
pelo "dese]o da apocatastase, a decisao de reunir (zusamensammeln), de uma 
outra maneira, precisamente os elementos provenientes, 'multo cedo' ou 'rnui­
to tarde', do primeiro comeco e da ultima decornposicao. na acao revoluciona­
ria e no pensamento revolucionario". Rememoracio dos combates esquecidos 
e salvamento das rentativas fora do tempo, a apocatastase dos momentos uto­
picos "perdidos" do socialismo nao e uma operacao contemplativa dos 
surrealistas: ela esta a service da reflexao e da prarica revolucionaria do presen­
te, aqui e agora - jetzt! 
Para Benjamin, nao se trata de substituir Marx pelo socialismo ut6pico: 
suas inumeras referencias ao materialismo hlstorico 0 demonstram suficiente­
mente. Mas e questao de enriquecer a cultura revolucionaria com rodos os 
aspectos do passado portadores da esperanca ut6pica. 0 marxismo nao tern 
sentido se nao for rarnbem 0 herdeiro e 0 executante testamenrario de varios 
seculos de lutas e de sonhos de emancipacao­
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TESE IV 
"Buscai, primeiro, 0 dequecomer e 
uestir. e 0 reino de Deus vos advird por si. " 
Hegel, 1807. 
A luta de classes, que um historiadorescolado em Marx tem semprediante dos 
olbos, euma lutapelas coisas brutas e materiais, semas quais ndo hd coisas finas e 
espirituais. Apesar disso, estas ultimas estdo presentes na luta de classes de outra 
maneira que ada representaca» de umapresaque toeaao vencedor. Elasestdo vivas 
nessa luta como confianra, como coragem, como humor, como astucia, como tena­
cidade, e elas retroagem ao[undo longlnquodo tempo. Elaspordo incessantemente 
em questdo cada vitoria que couberaosdominantes. Comoflo res que uoltam suas 
coralaspara 0 sol, assim 0 que/oi aspira, por um secreta beliotropismo, a uoltar-se 
para 0 solque estda se levantar no ceuda historia. Essa mudanca, a mais imper­
ceptivel de todas, 0 materialista historico tem que saber discernir. 34 
Comecemos pelo texto de Hegel - inversao ironica de uma passagem bern 
conhecida do Evangelho cristae: ilustra maravilhosamente 0 metodo benja­
miniano de citacao, que consiste em retirar do autor seu texto como urn ladrao 
que age nas estradas e se apropria das joias de urn rico viajante. A passagem e 
literalmente tirada de seu contexto, Hegel, 0 grande filosofo idealista, testernu­
nha aqui 0 materialismo mais elememar... 
Ao mesmo tempo, a epigrafe liga a tese IV as duas anteriores, ou seja, ao terna 
da redencao: nada de salvacao sem transformac;:6es revolucionarias da vida 
material. 0 conceito de Reino de Deus que aparece aqui lembra 0 de Thomas 
Munzer, tal como Friedrich Engels 0 apresenta em seu Der deutscbe Bauernkrieg 
[A guerra dos camponeses] (1850): "Para Munzer, 0 reino de Deus era sirn­
plesmente uma sociedade em que nao haveria rnais nenhuma diferenc;:a de clas­
ses, nenhuma propriedade privada, nenhum poder de Estado estrangeiro 
autonomo se opondo aos membros da sociedade."35 Sem isso, Benjamin nao 
chegaria a secularizar tao integralmenre a dimensao teologica do conceito. 
34 A ciracao de Hegel enconrra-se em uma carta de 30 de agosro de 1807 ao major Knebel. 
35 F. ENGELS, "La guerre des paysans" em La revolution democratique bourgeoise en 
Allemagne (Paris, Editions Sociales, 1951), p. 53. 
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o marerialismo hist6rico - "a escola de Marx" - que aqui, obviamente, erein­
terpretado por Benjamin, em suas pr6prias palavras, trata-se de uma versao 
hererodoxa, heretica, idiossincratica, lnclassiflcavel. De certa maneira, nesse 
caso, Benjamin esta proximo de Brecht: como de, inslste na prioridade das coisas 
"brutas e materials". "Em primeiro lugar, a cornida, depois amoral", cantarn 
os personagens de A opera dostris uintens': Todavia, ao contrario de seu amigo, 
Benjamin atribui uma lmportancia capital as forc;:as espirituais e marais na luta 
de classes: a fe - traducao benjaminiana da palavra Zuversicht - a coragem, a 
perseveranc;:a. A lista das qualidades espirituais inclui tambern duas que sao 
perfeitarnente "brechtianas": 0 humor e sobretudo a astucia dos oprimidos. 
Existe, entao, em Benjamin, uma dialetica do material e do espiritual na 
luta de classes que vai alern do modelo bern mecanicista da infra-estrurura e da 
superestrutura: 0 que esra em jogo na lura e material, mas a motivacao dos 
atores sociais e espiritual. Se nao Fosse estimulada por algumas qualidades rnorais, 
a classe dominada nao conseguiria lutar por sua libertacao, 
Tenternos circunscrever mais de perto 0 marxismo benjaminiano. 0 con­
ceito mais importance do materialismo hist6rico nao e, para ele, 0 materia­
lisrno fllosofico abstrato: ea luta de classes. Eela "que urn historiador escolado 
em Marx tern sempre diante dos olhos". E ela que permite compreender 0 
presente, 0 passado e 0 futuro, assim como sua ligacao secreta. Ela e0 lugar em 
que teoria e praxis coincidem - e sabe-se que foi essa coincidencia que arraiu 
Benjamin, pela primeira vez, para 0 marxismo, quando leu Historia e conscien­
cia de classe de Lukacs em 192436\u2022 
Embora quase todos os rnarxistas se reflrarn a lura de classes, poucos lhe 
dao uma atencao tao apaixonada, tao intensa, tao exclusiva quanto Walter 
Benjamin. 0 que the interessa, no passado, nao e0 desenvolvimento das forc;:as 
produtivas, a contradicao entre forcas e relacoes produtivas, as formas de pro­
priedade ou do Estado, a evolucao dos modos de producao - temas essenciais 
da obra de Marx - mas a luta ate a morte entre opressores e oprimidos, ex­
ploradores e explorados, dorninanres edominados. 
. "Die Dreigroscbenoper" red. bras.: "A opera dos tres vintens" em Teatro complete. 
Sao Paulo, Paz e Terra, 2004, V. 2]. 
36 Carta a G. Scholem, 16 de setembro de 1924, Correspondance, T, p. 325. 
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Assim, a historia the parece uma sucessao de vit6rias dos poderosos. 0 
poder de uma classe dominante nao resulta simplesmente de sua forca econo­
mica e polftica ou da disrribuicao da propriedade, ou das transformacoes do 
sistema produtivo: pressupoe sempre urn triunfo hist6rico no combate as clas­
ses subalternas. Contra a visao evolucionista da hist6ria como acurnulacao de 
"conquistas", como "prcgresso" para cada vez mais liberdade, racionalidade ou 
civilizacao, ele a percebe "de baixo", do lado dos vencidos, como uma serie de 
vit6rias de classes reinantes. Sua forrnulacao se distingue tambern, de maneira 
muito evidente, da celebre Frase de Marx e Engels no Manifesto comunista", 
que enfatiza a viroria das classes revolucionarias no curso da hist6ria - salvo no ~ 
caso excepcional da "rulna comum das classes em luta". I 
No enranto, cada novo cornbate dos oprimidos coloca em questao nao s6 a 
dorninacao presente, mas tambern as vitorias do passado. As coisas finas e 
espirituais da luta atual "rerroagern" ao passado longinquo - 0 "fundo longin­ I 
quo do tempo". 0 passado eiluminado pela luz dos cornbares de hoje, pelo sol 
que se levanta no ceu da historia, A metafora do sol era uma imagem tradicio­ I
nal do movimento operario alernao: "Broder, zu Sonne, zur Freiheit" (Irrnaos, 
rumo ao sol, rumo a liberdade), proclamava 0 velho hino do partido 
socialdemocrata, Mas rratava-se do sol do futuro que ilumina 0 presente. Aqui, 
gra<;:as ao sol do presente, 0 significado do passado se transforma para nos. 
Assim como, no exemplo citado acirna, Thomas Miinzer e a guerra dos cam­
poneses no seculo XVI foram relnterpretados por Friedrich Engels - e, mais 
tarde, por Ernst Bloch - aluz dos cornbates do movimento operario moderno&quot;. 
As luras atuais colocam em questao as vitorias historicas dos opressores, 
porque minam a legitimidade do poder das classes dorninantes, antigas e atuais. 
Benjamin se opoe, nesse caso, irnplicitarnente, a uma certa concepcao evo­
lucionista do marxismo - ji presente em algumas passagens de Marx