Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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historiador eurn individuo que corre 
sempre 0 risco de nao ser compreendido em sua epoca, 
42 Cf. K. GREFFRATH, "Der historischer Materialist als dialektischer Historiker" em 
P.	 BULTHAUPT (org.), Materialien zu Benjamins Thesen, cir., p. 226.
 
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TESE VI 
Articular 0 passado bistoricamente ndo significa conheci-lo "sal como elepro­
priamentefor: Significa apoderar-se de uma lembrancatal como elalampeja num 
instante de perigo. lmporta ao materialismo historico capturar uma imagem do 
passado como ela inesperadamente se coloca para 0 sujeito bistorico no instante do 
perigo. 0 perigoameaca tanto 0 conteudo dadoda tradicdo quanto osseusdestina­
tdrios. Para ambos 0 perigo i unico e 0 mesmo: deixar-se transformar em instru­
mento da classe dominante. Em cada epoca i preciso tentar arrancara transmissdo 
da tradiaio ao conformismo que estd na iminencia de subjugd-Ia. Pois 0 Messias 
ndo vem somente como redentor; ele uem como vencedor do Anticristo. 0 dom de 
atear ao passado a centelha da esperanca pertence somente aquele historiador 
que estdperpassado pela conuiccdo de que tambem os mortos ndo estardo seguros 
diante do inimigo, se elefor vitorioso. E esse inimigo ndo tem cessado de uencer. 
A tese corneca rejeitando a concepcao historicista/positivista da historia, 
representada pela celebre frase de Ranke, historiador prussiano conformista e 
conservadar: a tarefa do historiador seria, sirnplesmente, de representar 0 pas­
sado "tal como ele propriamente foi". 0 pretenso historiador neutro, que ace­
de diretamente aos fatos "reais", na verdade apenas confirrna a visao dos 
vencedores, dos reis, dos papas, dos imperadores - tema privilegiado na 
historiografla de Ranke - de todas as epocas, 
o momenta de perigo para 0 sujeito hist6rico - ou seja, para as classes 
oprimidas (e para 0 historiador que optou por este campo) - eaquele em que 
surge a imagem autentica do passado. Par que? Provavelmente porque nesse 
momenta se dissolve a visao confortavel e preguicosa da historia como "pro­
gresso&quot; ininterrupto. 0 perigo de uma derrota atual agu<;:a a sensibilidade pelas 
anreriores, suscita 0 interesse dos vencidos pelo cornbate, estimula urn olhar 
critico voltado para a historia. Benjamin talvez pense tambern em sua propria 
siruacao: nao foi 0 perigo iminente em que ele se encontrava em 1939-1940­
prisao, internacao nos campos de concentracao, entrega pelas autoridades 
vichystas aGestapo - que provocou a visao singular, unica mesrno, do passado 
que emana das teses &quot;Sobre 0 conceito de historia&quot;? 
No rnornento do perigo, quando a imagem dialetica &quot;larnpeja&quot;, 0 hisroria­
dor - ou 0 revo lucionario - deve dar prova de presen<;:a de espirito 
6S 
(Geistesgegenwart) para captar esse mornento unico, essa ocasiao fugaz e preca­
ria de salvacao (Rettung) , antes que seja demasiadamente tarde (GS I, 3, 
p. 1242). Porque, como enfatiza a versao francesa de Benjamin, essa lembran­
ca, que se apresenta num instante de urn perigo, pode ser precisamente 0 que 
&quot;0 salva&quot; (GS I, 2, p. 1263). 
o perigo e duplo: transformar tanto a historia do passado - a tradicao dos 
oprimidos - quanto 0 sujeito historico atual - as classes dominadas, &quot;novos 
destinatarlos&quot; dessa tradicao - em instrurnento nas maos das classes dorninan­
res. Extirpar a tradicao ao conformismo que se quer dominar e restituir ahis­
toria - por exemplo ada Revolucao Francesa ou a de 1848 - sua dimensao de 
subversao da ordem estabelecida, edulcorada, obliterada ou negada pelos his­
toriadores &quot;oficiais&quot;. Somente assim 0 adepto do materialismo historico pode 
&quot;atear ao passado a centelha da esperanca&quot; - uma centelha que pode incendiar 
a polvora no presente. 
o historiador revolucionario sabe que a vitoria do inimigo atual ameaca 
ate os mortos - nao necessariamente da forma primitiva e grosseira como a 
restauracao monarquica dos Stuarts maltratou as ossadas de Cromwell, mas 
pela Falsiflcacao ou pelo esquecimento de seus combates. Ora, &quot;esse inimigo 
nao tern cessado de veneer&quot;: do ponto de vista dos oprimidos, 0 passado nao e 
uma acumulacao gradual de conquistas, como na historiografla &quot;progressista&quot;, 
mas sobretudo uma serie interrninavel de derrotas catastroficas: esmagamento 
da sublevacao dos escravos contra Roma, da revolta dos camponeses anabatistas 
no seculo XVI, de junho de 1848, da Comuna de Paris e da insurreicao 
spartakista em Berlim em 1919. 
Mas nao se trata apenas do passado: em sua propria traducao francesa, 
Benjamin escreve: &quot;Nessa hora, 0 inimigo ainda nao acabou de triunfar,' A 
hora era, em 1940, a &quot;rneia-noite no seculo&quot; - para retomar a bela expressao de 
Victor Serge. As vitorias do inimigo foram monumentais: derrota da Espanha 
republicana, pacta alernao-sovietico, ocupacao da Europa pelo III Reich. 
Aquele inimigo, Benjamin conhecia bern: 0 fascismo. Ele representa, para 
os oprimidos, 0 perigo supremo, 0 maior a que ja foram expostos na hist6ria: 
a segunda morte das vitimas do passado e 0 massacre de todos os adversaries 
do regime. A falsificacao, em escala sem precedentes, do passado, e a transfer­
rnacao das massas populares em instrumento das classes dominantes. Obvia­
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1: 
~ 
Meissonnier, La barricade. 
mente, apesar de sua vocacao de Cassandra e seu pessimismo radical, Benja­
min nao podia preyer Auschwitz... 
Em uma nota redigida para a conferencia de Pontigny sobre Baudelaire 
(1939), Benjamin observou que as multidoes hoje sao &quot;manipuladas pelas rnaos 
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dos ditadores&quot;. Mas nao se desespera ao &quot;ver, nessas rnultidoes dominadas, 
micleos de resistencia - rnicleos que formaram as massas revolucionarias de 
1848 e os partidarios da Comuna'Y, Ern outras palavras: ern urn momenta de 
perigo supremo apresenta-se uma constelacao salvadora que liga 0 presente ao 
passado. Urn passado ern que brilha, apesar de rudo, na sombra da noite do 
fascismo rriunfanre, a estrela da esperanca, a esrrela messianica da redencao ­
Der Stern der ErlOsung de Franz Rosenzweig - a cenrelha da sublevacao revo­
lucionaria. 
Ora, escreve Benjamin, &quot;0 Messias nao vern somente como redentor; ele 
vern como 0 vencedor do Anticristo&quot;, Comentando essa passagem, Tiedemann 
constata urn paradoxo surpreendente: &quot;Ern nenhum outro lugar Benjamin fala 
de modo tao diretarnente teol6gico quanto aqui, mas ern nenhum outro lugar 
de tern uma intencao tao materialista.&quot; E preciso reconhecer, no Messias, a 
classe proletaria e no Anticrisro as classes dominantes&quot;. 
A observacao epertinente, mas poderlamos acrescentar, para uma maior 
precisao: 0 equivalente - 0 &quot;correspondente&quot; - profano do Messias sao os nu­
cleos de resisrencia antifascisra, as futuras massas revolucionarias herdeiras da 
tradicao de junho de 1848 e de abril-maio de 1871. Quante ao Anticrisro ­
urn reologumeno cristae que Benjamin nao hesita ern integrar a seu argumen­
to messianico de inspiracio explicitamente judaica - seu hornologo secular 
e, sem duvida alguma, 0 III Reich hitlerista. 
Ern uma analise de 1938 do romance de Anna Seghers, Die Rettung 
[A salvacao] - que conta a hist6ria de urn dos nucleos de resistentes comu­
nisras na Alemanha nazista - Benjamin escreve: &quot;0 III Reich parodia 0 socia­
lismo como 0 Anticristo parodia a promessa messianica?&quot;. Para esbocar esse 
paralelo surpreendenre, de se inspirou ern escritos de seu amigo, 0 teologo 
protestante e socialista revolucionario suico Fritz Lieb, que havia definido 
43 W BENJAMIN, &quot;Notes sur les Tableaux parisiens de Baudelaire&quot;, 1939, GS I, 2, 
p.748. 
44 R. TIEDEMANN, &quot;Historischer Materialismusoder politischerMessianismus? Politische 
Gehalte in der Geschichtsphilosophie Walter Benjamins&quot;, em P. BULTHAUP (org.), 
Materialien zu Benjamins Tbesen, cit., p. 93-4. 
45 W BENJAMIN, &quot;Eine Chronik der deutschen Arbeitslosen&quot;, GS 1II, p. 539. 
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o nazisrno, desde 1934, como Anticristo moderno. Ern uma conferencia 
de 1938, Lieb expressara