Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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lutou pela causa dos povos indigenas, confronrando-se, na cele­
bre polemica de Valladolid (1550), com 0 cronista e cortesao Sepulveda, "0 
teo rico da razao de Estado", obtendo finalmente do rei da Espanha a abolicao 
da escravidao e da encomienda - medidas que foram instauradas, mas nunca 
efetivamente aplicadas nas Americas. 
Observamos aqui, adverte Benjamin, uma dialerica historica no campo da 
moral: "em nome do caroliclsmo, urn padre se op6e as atrocidades (Greuel) 
que se cometeram em nome do catolicismo" - da mesma forma que urn outro 
padre, Sahagun, salvou em sua obra a heranca indigena destruida sob 0 prote­
torado do catolicismo'. 
Embora se trate sornente de uma pequena resenha, 0 texto de Benjamin e 
uma interessante aplicacao de seu metodo - interpretar a historia do ponto de 
W BENJAMIN, Gesammelte Schriften (Frankfurt, Suhrkarnp, 1980) v, III, p. 180-1. 
.,..-­
vista dos vencidos, utilizando 0 materialismo historico - ao passado da Ameri­
ca Latina. Esurpreendente tarnbem a observacao sobre a dialetica cultural do 
catolicismo, quase como uma intuicao da futura teologia da libertacao... 
* * * 
Ouvi falar de Walter Benjamin, pela primeira vez, gra<;as a meu amigo 
Roberto Schwarz. Mas so muitos anos mais tarde comecei a estudar seriamen­
te seus escritos. Aprendi muito com amigos brasileiros interessados pelo autor 
de Das Passagen-Werk [Livro das Passagens]: Leandro Konder, Jeanne-Marie 
Gagnebin, Olgaria Matos. 
Benjamin nao conseguiu vir ao Brasil em 1934. Mas, setenta anos mais 
tarde, sua obra suscita urn interesse crescente neste pais, e nao so entre un i­
versirarios, mas tambem entre muitos dos que observam com horror a men­
talidade (Geistesverfassung) do mundo neocolonial em que vivemos. 
Michael LOwy 
I 
Walter Benjamin, c. 1930. 
In t rod u ca o 
ROMANTISMO, MESSIANISMO E MARXISMO 
NA FILOSOFIA DA HISTORIA DE WALTER BENJAMIN 
Walter Benjamin nao e urn autor como os outros: sua obra fragmentada, 
inacabada, as vezes hermetica, freqiientemente anacronica e, no entanto, sern­
pre atual, ocupa urn lugar singular, realmente unico, no panorama intelectual 
e politico do seculo xx. 
Era ele, antes de tudo, urn critico literario, urn &quot;homem de [etras&quot; e nao urn 
filosofo, como pretendia Hannah Arendt'? Na verdade, como Gershom 
Scholern, acredito que ele era urn filosofo, mesmo quando escrevia sobre arte 
au literatura'. 0 ponto de vista de Adorno esemelhante ao de Scholem, como 
explica em uma carta (inedita) a Hannah Arendt: ''A meu ver, 0 que define 0 
~ significado de Benjamin para minha pr6pria existencia intelectual eevidente: 
!; 
~ a essencia de seu pensamento enquanto pensamento filosofico, Jamais pude 
e­
s 
~ 
encarar sua obra a partir de outra perspectiva (...). Certamente estou conscien­
« 
c: 
6 te da distancia entre seus escritos e toda a concepcao tradicional da filoso­
o 
-0 
« 
~ 
o H. W ARENDT, &quot;Walter Benjamin&quot; em \t'ies politiques (Paris, Gallimard, 1974), p. 248.-0 ,
o 
'&quot; t: 2 G. SCHOLEM, Walter Benjamin und sein Engel (Frankfurt, Suhrkamp, 1983), p. 14-5: 
I 
-.; 
&quot;Benjamin era urn filosofo. Ele 0 foi durante todas as etapas e em todas as esferas de Q 
~ sua atividade. Aparcnremente, escreveu sobretudo a respeito de temas de literatura e 15 
~ 
-C de arte, as vezes tambern sobre assuntos que se acham na fronteira entre a literatura 
U 
o e a polirica, mas muito pouco sobre quest6es convencionalmente consideradas e 3'! 
aceitas como temas de filosofia pura. No entanto, em todas essas areas sua intuicao 
vern da experiencia como ftI6sofo&quot; . 
.J Carta cirada por G. SMITH, &quot;Thinking through Benjamin: an introductory essay&quot;, 
em G. SMITH (org.), Philosophy, Aesthetics, History (Chicago, The University of 
Chicago Press, 1989), p. viii-ix. A data da carra nolo foi mencionada mas, de acordo 
com 0 conrexto, deve ser de 1967. 
A recepcao de Benjamin, principalmente na Franca, estava voltada 
prioritariamente para a vertente estetica de sua obra, com uma certa tendencia 
a considera-lo sobretudo urn historiador da cultura&quot;, Ora, sem negligenciar 
esse aspecto de sua obra, epreciso reconhecer 0 alcance muito mais amplo de 
seu pensamento, que visa nada menos do que uma nova cornpreensao da his­
toria humana. Os escritos sobre arte e literatura podem ser compreendidos 
somente em relacao a essa visao de conjunto que os ilumina a partir de dentro. 
Sua reflexao constitui urn todo no qual arte, hist6ria, cultura, politica, litera­
tura e teologia sao inseparaveis, 
Estarnos habituados a classiflcar as diferentes filosofias da historia confor­
me seu carater progressista ou conservador, revolucionario ou nosralgico do 
passado. Walter Benjamin escapa a essas classiflcacoes. Ele eurn critico revolu­
cionario da filosofia do progresso, urn adversario marxista do &quot;progressismo&quot;, 
urn nosralgico do passado que sonha com 0 futuro, urn rornantico partidario 
do materialismo. Ele e, em todas as acepcoes da palavra, &quot;inclassificavel&quot;. Adorno 
o definia, com razao, como urn pensador &quot;disranciado de todas as correnres'&quot;. 
Sua obra se apresenta, realmente, como uma especie de bloco erratico amar­
gem das gran des tendencias da filosofia conternporanea. 
Portanto, nao adianta tentar recruta-lo para urn dos dois grandes campos 
que disputam, atualrnente, a hegemonia no palco (ou seria conveniente dizer 
no mercado?) das ideias: 0 modernismo e 0 pos-modernismo. 
Jiirgen Habermas parece hesitar: depois de ter denunciado em seu artigo de 
19660 antievolucionismo de Benjamin como contradirorio com 0 materialis­
mo historico, afirma em seu Discurso filosofico da modernidade que a polemica 
de Benjamin contra &quot;0 nive!amento social-evolucionista do materialismo hisro­
rico&quot; e dirigida contra &quot;a degeneracao da consciencia moderna do tempo&quot; e 
visa, assim, &quot;reavivar&quot; essa consciencia. Mas e!e nao chega a integrar em seu 
Entre as excecoes encontram-se: D. BENsAYD, WalterBenjamin: sentinellemessianique 
It fagauche du possible (Paris, Pion, 1990); S. Mosts, L'angede l'histoire: Rosenzweig, 
Benjamin, Scbolem (Paris, Seuil, 1992); J. M. GAGNEBIN, Histoire etnarrationchezWalter 
Benjamin (Paris, LHarmattan, 1994) led. bras.: Historia e narracdo em Walter Ben­
jamin, Sao Paulo, Perspectiva, 2004]; A. MONSTER, Progres et catastrophe, Walter 
Benjamin et l'bistoire (Paris, Kime, 1996). 
j Em urn artigo publicado no Le Monde de 31 de maio de 1969. 
&quot;discurso filosoflco da modernidade&quot; os principais conceitos benjaminianos ­
como 0 &quot;tempo-de-agora&quot; Uetztzeit], esse autentico instante que interrornpe 0 
continuo da historia, que the parece visivelrnente inspirado em urn &quot;amalgams' 
entre experiencias surrealistas e temas da mfstica [udaica&quot;, 
Uma tarefa igualmente impossfvel seria transformar Benjamin em autor 
pos-moderno avant la lettre. Sua deslegitimat;:ao do Grande Relato da moder­
nidade ocidental, sua desconstrucio do discurso do progresso, sua defesa apai­
xonada da descontinuidade historica situarn-se a uma distancia incornensuravel 
do olhar desenvolto dos p6s-modernos sobre a sociedade atual, apresentada 
como urn mundo em que os grandes re!atos flnalmente acabaram e foram 
substituidos por &quot;jogos de linguagem&quot; &quot;flexlveis&quot; e &quot;agonlsticos&quot;7. 
A concepcao da historia de Benjamin nao epos-moderna, antes de tudo 
porque, longe de estar &quot;muito alern de todos os relates&quot; - supondo-se que isto 
seja POSSIVe! - e!a constitui uma forma heterodoxa do re!ato da ernancipacao: 
inspirando-se em Fontes messianicas e marxistas, e!a utiliza a nostalgia do pas­
sado como metodo revolucionario de critica do presente&quot;. Seu pensamento 
nao e, entao, nem &quot;moderno&quot; (no sentido habermasiano) nem &quot;pos-rnoderno&quot; 
(no sentido de Lyotard), mas consiste sobretudo em uma critica moderna it 
modernidade (capitalista/industrial), inspirada em referencias culturais e histo­
ricas pre-capitalistas. 
Entre as tentativas