Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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de tart: fapbilosopbie de Walter Benjamin, Paris, Gallimard, 1992, 
p. 271). Benjamin aspira precisamenre, com radas as suas for<;:as, a verdadeira exce­
<;:ao, ao fim dos poderes auroritirios, aos antfpodas de todos os &quot;estados de exce<;:ao&quot; 
no senrido de Carl Schmitt. 
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passar], de escreve: &quot;0 carnaval e um esrado de excecao, Um derivado dos 
antigos sarurnais durante os quais 0 superior e 0 inferior trocavam de lugar e 
em que os escravos eram servidos por seus senhores. Ora, um estado de exce­
cao nao pode ser definido precisamente, senao em oposi<;:ao total a urn esrado 
ordinario.&quot;63 
A diferen<;:a e que 0 parentese carnavalesco era apenas urn derivativo e os 
rnestres retomavam seu lugar - &quot;no alto&quot; - quando a festa terminava. Eviden­
temente, 0 objetivo do &quot;verdadeiro esrado de exce<;:ao&quot; eOutro, neIe nao exisri­
ria mais nem &quot;superior&quot; nern &quot;inferior&quot;, nem senhores nern escravos. 
63 W BENJAMIN, Rastelli raconte... et autres recits, cit. 
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TESE IX 
&quot;Minba asa estd pronta para 0 voo 
De bom grado uoltariaatrds 
Poispermanecesse eu tambrm tempo vivo 
Teria pouea sorte. &quot; 
Gerhard Scholern, Salutde l'ange 
[Saudacao do Anjo]. 
Existe um quadro de Klee intitulado ':Angelus Nouus&quot;. Nele estd representado 
um anjo, que parece estara ponto de afastar-se de algo em que craua 0 seu olhar. 
Seusolhos estdoarregalados, sua boca estdabertae suas asas estdo estiradas. 0 anjo 
da historia tem de parecer assim. Ele tem seu rosto ooltado para °passado. Onde 
uma cadeia de eventos aparece diante de nos, ele enxerga uma unica catdstroje, 
que sem cessar amontoa escombros sobre escombros e os arremessa a seus pes. Ele 
bem que gostaria de demorar-se, de despertar osmortose[untar os destrocos. Mas 
doparaisosopra uma tempestade que seemaranhouem suasasas e etdoforte que 0 
anjo ndo pode mais ftchd-Ias. Essa tempestade 0 impele irresistiuelmente para 
ofuturo, para 0 qual dd as costas, enquanto 0 amontoado de escombros diante dele 
cresce ate 0 ceu. 0 que noschamamos deprogresso eessa tempestade. 
Trata-se do texto de Benjamin rna is conhecido, citado, interpretado e utili­
zado inumeras vezes nos mais variados contextos. Certamente marcou a ima­
gina<;:ao de nossa epoca - sem duvida porque toea de maneira urn tanto profunda 
na crise da cultura moderna. Mas rambem porque tern uma dirnensao proferi­
ca: seu preruincio tragico parece anunciar Auschwitz e Hiroshima, as duas 
grandes catastrofes da historia humana, as duas destruicoes mais monstruosas 
que vieram coroar 0 amontoado que &quot;cresce ate 0 ceu&quot;. 
Essa tese resume &quot;como em urn foco&quot; 0 conjunto do documento, Trara-se 
de uma alegoria, no sentido de que seus elementos nao tern, fora do papel, 0 
significado que Ihes e intencionalmente atribuido peIo autor. Benjamin havia 
flcado fascinado peIas alegorias religiosas, particularmente por aquelas do 
Trauerspiel, 0 drama barroco alernao, em que a alegoria e&quot;a facies hippocratica 
da historia que se apresenta para 0 espectador como uma paisagem prirnitiva 
petrificada'f&quot;. A tese IX e exatamcnte isso. 
64 W BENJAMIN, Les origines du drame baroque allemand, cit., P: 178. 
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A tese se apresenra como 0 comentario de urn quadro de Paul KIee, que 
Benjamin adquirira quando jovern. Na realidade, 0 que ele des creve tern 
muito pouca relalfao com 0 quadro: trata-se fundamentaImente da projecao 
de seus pr6prios sentimentos e ideias sobre a imagem sutil e despojada do 
artista alernao. 
Paul Klee, Angelus Nevus, 1920. Museu de Jerusalem. 
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I 
l 
Na corisrrucao desse texto, provavelmente Benjamin se insplrou em 
algumas passagens poericas de As flores do mal'. Por exernplo, esses versos do 
poema LXXI (&quot;Une gravure fantasrique&quot;) parecem descrever a visao do passa­
do da humanidade do anjo de Benjamin: 
o imenso e frio cemiterio sem limite,
 
Onde repousa, aluz de urn sol palido e terno,
 
Quando povo exisriu, desde 0 antigo ao moderno'&quot;
 
Mas a relacao da tese IX com Baudelaire e mais profunda. A estrutura 
significativa da alegoria e baseada em uma correspondincia - no sentido 
baudelairiano - entre 0 sagrado e 0 profano, a teologia e a politica, que atraves­
sa cada uma das imagens. Para uma das figuras da alegoria, os dois sentidos nos 
sao dados pelo proprio texto: 0 correspondente profano da tempestade que 
sopra do Paraiso e 0 Progresso, responsavel por uma &quot;catastrofe sem tregua' e 
por urn &quot;arnonroado de escombros que cresce ate 0 ceu&quot;, Mas, para outros, 
e preciso encontrar seu significado social e politico, referindo-se a outros escri­
tos de Benjamin. 
A ternpestade que sopra do paraiso, sem diivida, evoca a queda e a expulsao 
do jardim do Eden. Foi nesses termos que Adorno e Horkheimer a interprera­
ram, na passagem da Dialetica do esclarecimento que retoma a imagem de Ben­
jamin - mas sem a citar!: &quot;0 anjo com a espada em chamas, que expulsou os 
seres humanos do paralso em direcao ao caminho do progresso tecnico, e e1e 
mesmo a imagem sensivel desse progresso'T&quot;. Qual e 0 equivalente profane 
desse paraiso perdido do qual 0 progresso nos distancia cada vez mais? Varies 
,	 C. BAUDELAIRE, LesFleurs du mal led. bras.: Asflores do mal, edicao bilingiie, Rio de 
Janeiro, Nova Fronteira, 1985, trad., intr, e noras Ivan [unqueira]. 
65 Ou esses outros do poema CXXXlli (&quot;Femmesdarnnees&quot;) [na edicao bilingiie cita­
da acima, poema &quot;Mulheres malditas (Delfina e Hipolira)&quot;], que talvez tenham ins­
pirado a imagem da tempestade que sopra do Paralso: 
- Descei, descei, 6 tristes vitirnassublimes,
 
Descei por onde 0 fogo arde em clar6es eternos!
 
Mergulhai neste abismo em que todos os crimes,
 
Tangidos por urn vento oriundo dos infernos,
 
Fervilham de mistura aos asperos trov6es.
 
66 M. HORKHEIMER; T. W ADORNO, DialektikderAujkliirung(Frankfurt, Fischer, 1971), 
p. 162 led. bras.: Dialetica do esclarecimento, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985]. 
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indfcios sugerem que, para Benjamin, trata-se da sociedade primitiva sem clas­
ses. No arrigo sobre Bachofen (1935), mencionado em nossa introducao, ele 
evoca, a proposiro das comunidades matriarcais antigas, &quot;uma sociedade co­
munista na aurora da historia&quot;, profundamente democratica e igualitaria. E, 
no ensaio &quot;Paris, capital do seculo XIX&quot;, ele retoma essa ideia: as experlencias 
da sociedade sem classes da pre-hisroria, regisrradas no inconsciente coletivo, 
&quot;em relacao reciproca com 0 novo, dao nascimento a uropia&quot;:&quot;. 
Aos andpodas do parafso, 0 inferno. Ele nao trata disso na rese IX, mas 
varies textos de Benjamin sugerem uma correspondencia entre a moderni­
dade - ou progresso - e a condenacao ao inferno. Por exernplo, nessa passagem 
de &quot;Parque central&quot;. (1938), que tern Iigacoes evidentes com a tese IX: &quot;E 
preciso basear 0 conceito de progresso na ideia de carasrrofe. Se as coisas con­
tinuarem a 'carninhar assim, sera a carastrofe' C..). 0 pensamento de Strindberg: 
o inferno noloe0 que nos espera - mas esta vida aqui&quot;68 Em que sentido? Para 
Benjamin, em DasPassagen-wt-rk, a quinressencia do inferno ea eterna repeti­
~ao do mesmo, cujo paradigma mais terrivel nao se encontra na teologia crista, 
mas na mitologia grega: Sislfo e Tantalo, condenados a eterna volta da mesma 
punicao. Nesse contexto, Benjamin cita uma passagem de Engels, que compa­
ra a interrninavel tortura do operario, forcado a repetir sem parar 0 mesmo 
movimento rnecanico, com a condenacao de Slslfo ao inferno. Mas nao se 
trata apenas do operario: toda a sociedade rnoderna, dominada pela mercado­
ria, esubmetida arepeticao, ao &quot;sempre igual&quot; (Immergleichen) disfarcado em 
novidade e moda: no reino mercantil, &quot;a humanidade parece condenada as 
penas do inferno&quot;?&quot;, 
o Anjo da Hist6ria gostaria de parar, cuidar das feridas das vitimas esmagadas 
sob os escombros amontoados, mas a ternpestade 0 leva inexoravelmente a 
repericao do passado: novas catastrofes, novas hecatornbes,