Aviso de Incendio Michel Lowy
83 pág.

Aviso de Incendio Michel Lowy


DisciplinaCiência Política I31.208 materiais585.277 seguidores
Pré-visualização41 páginas
classes seu verdadeiro carater messianico, dentro do proprio interesse da poli­
rica revolucionaria do proletariado"; porque sornente quando se da conta de 
seu significado messianico e que se pode evitar as armadilhas da ideologia 
"progressista"?", 
Essa sociedade comunista do futuro e, em certa medida, a volta ao comu­
nismo primitivo, a volta aprimeira forma de sociedade sem classes "na aurora 
da historia", Portanro, Scholem tern razao ao escrever que, para Benjamin, "0 
Paraiso e origem e passado ancestral (Urvergangenheit) da humanidade e, ao 
mesmo tempo, imagem ut6piea do futuro de sua redencao", mas me parece 
que de se engana ao acrescentar que se trata de uma concepcao do processo 
hist6rieo "rnais ciclico do que diaierico". Para Benjamin, a sociedade sem clas­
75 GS 1, 3, P: 1232. Benjamin se refere a uma passagem de Marx em Luttes declasses en 
France 1848-1850 led. bras.: As lutas de classes na Franca (1848-1850), Sao Paulo, 
Global, 1986]. Cf. MARX; ENGELS, werke (Bedim, Dietz, 1962), p. 85: "Die 
Revolutionen sind die Lokomotiven der Geschichte" (a palavra "rnundial" nao apa­
rece no original de Marx). 
76 G. SCHOLEM, Walter Benjamin und sein Engel, cit., p. 66, 71. 
77W. BENJAMIN, GSI, 3, p. 1231-2. 
94 
ses do futuro _ a novo Paraiso - nao e a volta pura e simples aque!a da pre­
hlsroria: e!a conrem em si, como sfntese dialetica, todo 0 passado da hurnani­
dade. A verdadeira hist6ria universal, baseada na rememoraerao universal de 
todas as vitimas sern excecao - 0 equivalente profane da ressurreicao dos rnor­
78 
ros _ somente sera. possivel na futura sociedade sem classes \u2022 
o vinculo que se estabe!ece, aqui, entre a era messiinica e 0 futuro da socie­
dade sem classes _ como 0 das outras "correspondencias" das teses de 1940 ­
nao pode ser compreendido unicamente em termos de secularizaerao. 0 reli­
gioso e 0 polltico conservam, em Benjamin, uma relacao de reversibilidade 
redproca, de traducao mutua, que escapa a qualquer reduerao unilateral: em 
um sistema de vasos comunicantes, 0 fluido esta necessariamente presente 
em rodos as ramais simultaneamente. 
~I' ' 
~ 
78 G. SCHOLEM, Walter Benjamin und sein Engel, cit., p. 65 eW. BENJAMIN, GS 1,3, p. 
1238-9. Como observa Irving Wohlfarth, em seu notavel ensaio sobre 0 messianismo 
nos ultimos textos de Benjamin, trata-se aqui de uma "espiral" dlalettca mais do que 
de urn drculo, pois 0 futuro messianico e0 Aufhebung - no sentido hegdiano - de 
toda a historia passada. Cf. 1.WOHLFARTH, "On the Messianic Structure ofWalter 
Benjamin's Last Reflexions", cit., p. 186. 
9S 
I 
TESE X 
Osobjetos que a regra monacalpropunha aosmonges para a meditacdo tinham 
a tarefa de tornd-losauessos ao mundo easua agitacdo. 0 curso depensamento que 
aqui perseguimos emergiu de uma determinaaio semelhante. Num instante em 
que ospoliticos, em quem os adversdrios dofascismo tinham colocado assuasesperan­
ras, jazem por terrae reforram sua derrota coma traicdo II propria causa, esse curso 
de pensamento sepropoe a desuencilhar os JUhos politicos deste seculo dos liames 
com que ospoliticos os tinham enredado. Partimosda consideracdo de que a crenca 
obstinada desses politicos no progresso, sua conjianca em sua "base de massa" e, 
finalmente, sua submissdo servil a um aparelho incontrolduel, foram tres aspectos 
de uma unica e mesma coisa. Essa consideraaio procuradar uma ideia do quanto 
custa a nosso pensamento habitual elaboraruma concepoio da bistoria que evite 
toda e qualquer cumplicidade com aquela a que esses interesses politicos continuam 
se apegar. 
Nessa tese, Benjamin retorna sua polemica com as concepcoes dorninantes 
no ambito da esquerda,ao se referir, implicitamente, ao acontecimento trau­
matico que foi, sem duvida, a rnotivacao irnediata para a redacao do documen­
to: 0 pacto Molotov-Ribbentrop, 
A primeira Frasee muito paradoxal: seria 0 caso de distanciar do mundo os 
leirores de teses, como os monges? De um abandono da acao em beneflcio da 
"meditacao"? Uma interpretacao como essa estaria em contradicao total com 
as outras teses, Outra leitura nos parece possfvel. 0 rnetodo das teses consisti­
ria em: a) tomar distincia do campo, recuar diante da atualidade politica, nao 
para ignora-Ia mas para encontrar suas causas profundas; b) distanciar-se das 
ilus6es e "rentacoes" do seculo, das doutrinas confortaveis e sedutoras do pro­
gresso. Benjamin parece evocar uma certa exlgencia ascetica, e uma certa 
intransigencia diante dos compromissos com 0 "mundo". Mas a analogia que 
escolheu emuita estranha e se presta a mal-entendidos. 
A expressao "os politicos, em quem os adversaries do fascismo tinham co­
locado as suas esperancas" e muito transparente: trata-se dos cornunistas 
(stalinistas), que "trafram sua causa" ao pactuarem com Hitler. Mais precisa­
mente, a Frase se refere ao KPD (partido comunista alemao) que, ao contrario 
do PC sovietico, "caiu por terra". A esperanc;:a de urn combate conseqiiente 
96 
contra 0 fascismo estava. aos olhos de Benjamin, no movimento comunisra, 
bern mais do que na socialdemocracia. Ora, 0 pacto dobrou 0 sino dessa espe­
ranca. A "rrahrao" designa nao s6 0 acordo entre Molotov e Ribbenrrop, mas 
rarnbern sua legitimac;:ao pelos partidos comunistas que adotaram a "lmha" 
sovietica79\u2022 Ela nao signinca de maneira alguma para Benjamin - como acredi­
tava Somma Morgenstern - a ruptura com 0 comunismo ou com 0 marxismo, 
mas a dlssoclacao defmitiva e irrevogavel entre a realidade sovietica e a ideia
 
comunista". De faro, Benjamin compartilha da condenac;:ao categ6rica do pacta
 
com varies outros comunistas alemaes dissidentes, exilados em Paris, como
 
seu amigo Heinrich Blucher (0 marido de Hannah Arendt), Willy Miinzenberg
 
ou Manes Sperber". 
As teses tern por objetivo libertar das politische Weltkind das armadilhas 
em que caiu. Essa expressao, um pouco bizarra. que tern sua origem em um 
poema de Goethe, edificil de traduzir. Gandillac 0 faz lireralmente - "a crian­
c;:a politica do mundo". enquanto Missac propoe, de maneira muito arbi­
traria, "os bravos cidadaos". Ea traducao do proprio Benjamin que nos da 0 
significado preciso do que ela quer dizer: "As criancas do seculo", ou seja, a 
gerac;:ao do seculo :xx - sua gerac;:ao. 
79 Urn exemplo do que Benjamin sentia como traicao do combate anrifascista: 
o Comite central do KPD adota, em julho de 1939, uma resolucao que, ao mesmo 
tempo que reafirrna sua oposic;:ao a Hitler, "sauda 0 pacta de nao-agressao entre 
a Uniao Sovietica e a Alemanha" e reivindica "0 desenvolvimento de relacoes eco­
nomicas com a URSS com 0 espfrito de uma amizade sineera e sem reservas entre 
osdoispaises"! (cf.T. PIRKER, org.) Utopie undMythos derWeltrevolution. Zur Geschichte 
derKomintern 1920-1940, Munique, Deutscher Taschenbuch, 1964, P: 286). 
80	 Cf. 1. WOHLFARTH, "Manner aus der Fremde: Walter Benjamin and the German­
Jewish Parnassus". New German Critique, nO 70, inverno de 1997. p. 55. Somma 
Morgenstern faz referencia, em uma carta (cardia, de 1972) a G. Scholem, a conver­
sascom Benjamin pouco depois da assinaturado pacta, em 1939. Cf. H. PUTTNIES; 
G. SMITH, Benjaminiana (Ciessen, Anabas, 1991), p. 196-7. 
8\	 Sem falar de Leon Trorski que, de seu exilio no Mexico, havia denunciado 0 
pacta como urna verdadeira "rraicao" que rransformara Stalin em "0 novo amigo 
de Hitler" e seu "Intendente" (fornecedor de materias-primas). Cf. seus artigos de 
2 a 4 de setembro em L. TROTSKI, Sur la Deuxieme Guerre mondiale, textoS reu­
nidos e prefaciados por Daniel Guerin (Bruxelas, Editions La Taupe, 1970), 
p.85-102. 
97 
~ 
Illi,ll 
'i,lll! Benjamin se prop6e a tentar liberta-la das redes nas quais os politicos _ suaill 
"I!I] traducao emais expllcita: a esquerda, ou seja, desta vez, os do is partidos opera­
I rios - a envolveram. Encontramos, aqui, uma imagem da Segunda considera­