Aviso de Incendio Michel Lowy
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privado, pelos capitalisras, das riquezas que e!e produz. Benja­
min se inspira ao mesmo tempo em Weber e em Marx para criticar a postura 
conformista da socialdemocracia diante da producao industriallcapitalista. 
a culto ao trabalho e aindustria e, ao mesmo tempo, 0 culto ao progresso 
tecnico - terna que ocupa Benjamin intensamente desde os anos 1920. No 
ensaio sobre Fuchs de 1937, urn texto que ja contern os principais temas da 
tese XI, ele insiste no contraste entre "0 otimismo duvidoso" da socialde­
mocracia, que ignora a energia destruidora da tecnica, em particular a rnilitar'" 
e "a inruicao fulgurante" de Marx e Engels sobre a evolucao possfvel do capita­
lismo em direcao abarbaric". 
84 W. BENJAMIN, "Eduard Fuchs collectionneur et historien", Macula, 3/4, 1978, 
p. 49. Cf. p. 45: 0 positivismo esqueceu que 0 desenvolvimento da tecnica "foi 
condicionado de maneira deterrninante pelo capiralismo". E os positivistas, entre os 
teoricos socialdemocratas "desconhecem 0 aspecto destruidor da tecnica porque se 
tornaram alheios ao aspecto destruidor da dialetica". 0 potencial desrruidor rnani­
festa-se sobretudo na tecnica rnilitar, Benjamin insistia - por exernplo, em Rua de 
milounica- nos bombardeios, na guerra quirnica e nos gases, mas rnesrno ele, 0 mais 
pessimisra de todos, nao podia preyer 0 que seria a barbaric moderna da Segunda 
Guerra Mundial. 
85 Talvez Benjamin se refira a urn texto de Marx de 1847: que comenta algumas 
das manifestac;:6es mais sinisrras do capitalismo, como as leis dos pobres ou 
as workhouses - essas "basrilhas dos operarios", nos seguintes termos: "A barbarie 
ressurge, mas desta vez e engendrada no proprio ambito da civilizac;:ao e dela e 
parte integrante. E a barbarie leprosa, a barbarie como lepra da civilizac;:ao" 
(K. MARX, "Arbeitslohn", 1847 em Kleine okonomische Schriften, Bedim, Dietz, 1955, 
p.245). 
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Na tese XI, trata do positivismo da ideologia do progresso socialdemocrata. 
No ensaio sobre Fuchs ja se referia ao positivisrno, ao darwinismo e ao 
evolucionismo da socialdemocracia europeia, e mencionava 0 italiano Enrico 
Ferri - segundo 0 qual a tecnica do partido obedecia as leis da natureza - como 
urn exernplo tipico. 
Algumas passagens da obra de Ferri ilustrarn 0 genero de discurso contra 0 
qual Benjamin se insurgia. Segundo 0 pensador socialpositivista italiano, 
"0 que 0 socialismo cientffico pode afirmar, e afirrna, com uma certeza mate­
rnatica, e que a corrente, a trajetoria da evolucao humana segue no sentido 
indicado e previsto pelo socialismo, ou seja, de uma preponderancia progressi­
va e continua dos juros e do lucro do dinheiro sobre os interesses e beneficios 
do individuo (...). 0 socialismo euma fase natural e espontanea e, conseqiien­
temente, inevitavel e irrevogavel, da evolucao humana'f". De faro, encontra­
mos forrnulacoes cornpletarnente semelhantes em Kautsky, Plekhanov, mas 
tarnbem em Friedrich Engels, que Benjamin nao menciona'". A tese XI, assim 
como 0 ensaio sobre Fuchs, criticam esse tipo de doutrina deterrninista e 
evolucionista, que da ideia de que a vitoria do partido egarantida antecipada­
mente. Da mesma maneira, em uma variante, Benjamin cita uma passagem de 
Dietzgen: "Aguardamos nosso tempo" (GS 1,3, p. 1249). 
A polernica da tese XI visa, entao, ailusao de nadar com a correnteza do 
desenvolvimento tecnico - uma correnteza que se sup6e levar necessariamente 
ao triunfo do socialismo "cientffico" (no sentido positivista do termo). Esse 
fatalismo otimista somente poderia levar 0 movimento operario apassividade 
86	 E. FERRI, Socialism and positivescience (Darwin-Spencer-Marx), 1896 (Londres, ILP, 
1906), p. 114. 
87 0 partido operario alemao "aumentou e desenvolveu suas forcas de maneira tao 
segura e irresistfvel quanro 0 cristianismo outrora, de modo que a equacao de sua 
taxa de crescimenro (Die Gleichung ihreruiachsenden Geschwindigkeit) - e, portanro, 
o mornento de sua vitoria final - pode desde ja ser calculada matematicarnente" 
(Friedrich Engels, carta a Kautsky, 8 de novembro de 1884, em MARX; ENGELS, 
\Verke, cit., v. 36, p. 230). Ver 0 cornentario esclarecedor sobre 0 positivismo e 0 
evolucionismo em alguns textos de Marx e Engels em E. BALIBAR, La crainte des 
masses: dialectique etphilosophie avant et apres Marx (Paris, Galilee, 1997), p. 273-5. 
Resta saber por que Benjamin nao se refere - ou 0 faz pouco - a Marx e a Engels em 
suas observacoes criticas: voltarei a essa questao na conclusao, 
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e ao imobilismo - quando, ao conrrario, seria preciso inrervir urgentemente, 
agir rapidamente antes que Fosse tarde dernais, antes da catastrofe que se deli­
neava no horizonte. Essa euma das raz6es da derrocada de 1933. 
Essa concepcao evolucionista/positivista da historia "so quer se aperceber 
dos progressos da dorninacao da natureza, mas nao dos retrocessos da socieda­
de". Encontramo-la, mais tarde, sob outra forma, na ideologia tecnocratica do 
fascismo. Ao contrario de tantos outros marxistas, Benjamin percebera clara­
mente 0 aspecto moderno, tecnicamente "avancado" do nazisrno, associando 
os maiores "progresses" tecnologicos - principalmente no dominio militar ­
aos mais terriveis retrocessos sociais. 0 que foi somente sugerido na tese VIII 
e, aqui, explicitamente afirmado: 0 fascismo, apesar de suas manifestacoes cultu­
rais "arcaicas", euma manifestacio patologica da modernidade industriallcapi­
88 
talisra, que se apoia nas grandes conquistas tecnicas do seculo XX \u2022 0 que, 
obviamente, nao quer dizer que, para Benjamin, a modernidade nao possa 
tornar outras formas, ou que 0 progresso tecnico seja necessariamente nefasto. 
Em seu famoso - e em muitos aspectos notavel - ensaio critico sobre 
Benjamin, Jiirgen Habermas escreveu: "Nao se pode dotar 0 materialismo 
historico - que considera 0 progresso nao so na esfera das forcas produtivas, 
mas rarnbern na da dorninacao - de uma concepcao antievolucionista da 
88 As intuicoes de Benjamin sobre a tecnocracia fascista foram confirmadas pela pes­
quisa historica recenre. Ver, por exemplo, os trabalhos de: ]. HERF, Reactionary 
Modernism: Technology, Culture and Politics in \Veimarand theThird Reich (Cambridge 
University Press, 1986); Z. BAUMAN, Modernity ofHolocaust (Cambridge, Polity Press, 
1989); e E. TRAVERSO, L'histoire dechiree: essai surAuschwitz et les intellectuels (Paris, 
Cerf, 1997).]. Herf caracteriza como "modernismo reacionarlo" a ideologia do III 
Reich e analisa nesse quadro os escriros de ideologos fascistas conhecidos e os 
documentos de associacoes de engenheiros pro-nazisras. Quanto ao soclologo 
Zygmunt Bauman, analisa 0 genoddio dos judeus e dos ciganos como urn produ­
to tipico da cultura racional burocratica e como urn dos resultados possfveis do 
processo civilizatorio enquanro racionalizacao e centralizacao da violencia e enquanro 
producao social da Indiferenca moral. "Como qualquer outra acao conduzida de rna­
neira moderna - racional, planejada, cientificamente informada, gerenciadade maneira 
eficaz e coordenada - 0 Holocausto deixou para tras... todos os seus pretenses equi­
valentes pre-modemos, revelando-os como primitivos, dissipadores e ineficazes com­
parativamente". Enfim, segundo Enzo Traverso, nos campos de exrerrnfnio nazisras. 
encontramos uma cornhinacao de diferentes instituicoes tlpicas da modernidade: 
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hist6ria, como urn capuz de monge"89. Essa aflrrnacao me parece discurfvel. 
Ela provoca muitas questoes, por exemplo: 
Etao certo que se possa falar de "progresso" na esfera das formas de domi­
nacao - Herrschaft - se compararmos 0 seculo XX - a era dos totalitarisrnos 
e genoddios - com 0 seculo XIX? 
o materialismo hist6rico e necessariamente uma doutrina evolucionistai 
Nao encontramos no proprio Marx textos evolucionistas assim como nao­
evolucionistas - como, por exernplo, seus ultirnos escritos sobre a Russia?