Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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E, se everdade que as tendencias evolucionistas e positlvistas predomina­
ram no marxismo desde 0 final do seculo XIX, nao encontramos tambem 
erninentes representantes do materialisrno hist6rico nao-evolucionista, desde 
Antonio Labriola e Rosa Luxemburgo ate a pr6pria Escola de Frankfurt, 
de que Habermas se pretende herdeiro? 
A crltica ao evolucionismo hist6rico e asua fe no progresso irresistivel das 
formas de dorninacao enecessariamente uma regressao obscurantista rumo 
ao passado - urn "capuz de monge" - ou sobretudo, aluz das catastrofes do 
seculo XX, uma versao lucida dos perigos que traz consigo a civilizacao 
moderna? 
Para 0 materialismo historico, a grande disputa das lutas emancipadoras e 
uma melhora, urn "progresso" nas formas de dominacao ou sobretudo a 
abolicao de qualquer Herrschaft de urn ser humano sobre outro, de uma 
classe sobre outra - a verdadeira estado de excecao, segundo Benjamin? 0 
conceito de Herrschaft nao designa, para ele, como para Max Weber, a pos­
sibilidade abstrata de se fazer obedecer?", mas algo mais concreto e mais 
radical (como, por exernplo, em Maquiavel): 0 exerdcio autoritario do po­
ao mesmo tempo, 0 presidio descrito por Foucault, a fabricacapitalista de que falava 
Marx, a "organizacao cientifica do trabalho" de Taylor, a adrninistracao racional! 
burocratica segundo Max Weber. 
89 ]. HABERMAS, "Lactualite de Walter Benjamin", cit., p. 12 (traducao francesa Iigeira­
mente modificada por mim). 
90 Segundo Weber, "Dorninacao (Herrschaft) significa a chance de enconrrar pessoas 
determinadas prontas para obedecer a uma ordem de conteudo dererminado". 
M. WEBER, Economie et societe (Paris, Plan, 1972), p. 56 red. bras.: Economia e 
sociedade, Brasilia, UNB, 1994]. 
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der por meio de uma associacao sempre espedfica da rnanipulacao e da 
violencia. Alias, de uriliza freqiientemente 0 terrno mais explicito 
Unterdruckung, opressao: nas "teses" e nas notas preparat6rias, as classes 
reinantes sao designadas tanto como die Herrchenden, as dorninantes, quanto 
como die Unterdriaker, as opressoras. A critica da dominacao da Escola de 
Frankfurt foi, sem duvida, influenciada por Benjamin, mas Adorno e 
Horkheimer insistern menos no poder de classe - a associacao entre dornl­
nacao e exploracao - do que no autoritarismo estatal, a "administracao 
total". No entanto, todos compartilham da preocupacao de Marx com 
a dorninacao exercida par estruturas impessoais alienadas, como 0 capital 
ou a mercadoria. 
A ultima parte da tese XI e de uma extraordinaria atualidade: trata-se de 
uma critica radical aexploracao capitalista da natureza, e asua glorifica<;:ao 
pelo marxismo vulgar, de inspiracio positivista e tecnocratica, Tambern nessa 
area, Benjamin ocupa uma posicao singular no panorama do pensamento mar­
xista da primeira metade do seculo. Antecipando as preocupacoes ecol6gicas 
do final do seculo XX, ele sonha com urn novo pacto entre os humanos e seu 
meio ambiente, 
Benjamin se opoe aideologia &quot;progressista&quot; de urn certo socialismo &quot;cienti­
fico&quot; - representado aqui pelo socialpositivista alemao Joseph Dietzgen, muito 
esquecido hoje, mas muito popular na socialdemocracia alerna da virada do 
seculo (e citado muitas vezes par Lenin em Materialismo e empiriocriticismo&quot;, 
sua obra mais &quot;ortodoxa&quot;) - que reduz a natureza a uma materia-prima da 
industria, a uma mercadoria &quot;gratuita&quot;, a urn objeto de dorninacao e de explo­
racao ilimitada. Contra essa conduta, Benjamin nao hesita em apelar para as 
utopias dos primeiros socialistas - vormarz, do Pre-Marco de 1848 - e, par­
ticularrnente, para as sonhos fantasticos de Fourier (que serao saudados 
com fervor por Andre Breton, dez anos depois). Sensivel apoesia e ao encan­
tamento desses sonhos, Benjamin as interpreta como uma intuicao de outra 
relacao, nao-destruidora, com a natureza, levando a novas descobertas cienti­
ficas - a eletricidade poderia ser urn exemplo de forca virtual &quot;que dorme 
Materialisme et empiriocritisme [ed. bras.:Materialismo eempiriocriticismo, em Obras 
escolbidas, Sao Paulo, Alfa-Omega, 1982]. 
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na natureza&quot; - e, ao mesmo tempo, ao restabelecimento da harmonia perdida 
entre a sociedade e 0 ambiente natural... 
a interesse e a adrniracao de Benjamin par Fourier nao parou de crescer 
durante os anos 1930. Das Passagen-Werk esclarece as observacoes da tese XI: 
Benjamin nao opoe Fourier a Marx - ele observa com cuidado todos os elogios 
de Marx e de Engels a&quot;colossal concepcao do ser humano&quot; e as geniais &quot;intui­
coes de urn mundo novo&quot; do inventor dos falansterios - mas ao marxismo 
! 
Grandville, &quot;Le systems de Fourier&quot;, Un autre monde, 1844. 
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vulgar comum nas principais correntes da esquerda'&quot;. Associando estreitamen­
te a abolic;:ao da exploracao do trabalho humano e a da natureza, Benjamin 
encontra no &quot;trabalho apaixonado&quot; dos harmonienses, inspirado na &quot;brinca­
deira de criancas&quot;, 0 modelo uropico de uma atividade emancipada. E escreve: 
&quot;Fazer da brincadeira 0 canon de urn trabalho, que nao emais explorado, eurn 
dos maiores meritos de Fourier. Urn trabalho cujo espirito, constituido assim 
pela brincadeira, nao e mais orientado para a producao de valores, mas para 
uma natureza aperfeicoada. Eacusta disso que se assistira ao nascimento de 
urn mundo novo em que a acao eirma do sonho.&quot;92 
Em Das Passagen-Werk, 0 nome de Fourier eassociado ao de Bachofen, que 
havia descoberto na sociedade matriarcal a imagem ancestral dessa reconcilia­
cao, sob a forma de culto anatureza como mae generosa - em oposicao radical a 
concepcao assassina (morderische) da exploracao da natureza, dominante desde 0 
seculo XIX. Na harmonia ideal entre a sociedade e a natureza com a qual sonhava 
o socialista utopico, Benjamin percebe rerniniscencias de urn paraiso pre-histori­
co perdido. Ea razao pela qual, no ensaio &quot;Paris, capital do seculo XIX&quot; (1939), 
ele se refere a Fourier como exemplo da conjuncao entre 0 antigo e 0 novo em 
uma utopia que da vida nova aos simbolos primitivos (Uralte) do desejo'&quot;, 
91 W BENJAMIN, &quot;Paris, die Hauptstadt des XIX. Jahrhunderts&quot; cit., p. 64: &quot;Marx to­
mou posicao diante de Carl Griin para defender Fourier e valorizar sua concepcao 
colossal do homem. Ele considerava Fourier 0 unico homem ao lado de Hegel que 
descobriu a mediocridade do principio do pequeno-burgues, Coo) Uma das caracte­
risticas mais marcantes da utopia fourierisra eque a ideia de exploracao da natureza 
pelo homem, tao espalhada na epoca posterior, the e estranha&quot;, Como observou, 
com pertinencia, Philippe Ivernel, Benjamin vai &quot;cruzar&quot;os pensamentos de Marx e 
de Fourier, &quot;de tal forma que des se corrigem, se redirecionam e se dinamizam rnu­
tuarnente&quot; (&quot;Paris capitale du Front populaire ou la vie posthurne du XIX' siecle&quot;em 
H. WISMANN (org.) Walter Benjamin et Paris, p. 266). 
92 W BENJAMIN, Das Passagen-Werk, cit., p. 456. 
93 Ibidem, p. 47: A maquinaria das paix6es de Fourier &quot;produz 0 pais lrnaginario que 
tern tudo em abundancia, 0 simbolo primitivo, que a utopia de Fourier encheu de 
vida nova. Cf. p. 456, em que Benjamin passade Fourier a Bachofen.Ver tambern 0 
artigo sobre Bachofen de 1935, mencionado em nossa introducao, 
107 III 
TESE XII 
&quot;Precisamos da bistoria, masprecisamos dela 
de outra maneira que 0 mimado caminhante 
ocioso nojardim dosaber. &quot; 
Nietzsche, Segunda consideraoio 
intempestiua: da utilidade e 
desvantagem cia histdria paraa vida. 
o sujeito do conhecimentobistorico eapropria classe oprimida, a classe comba­
tente. Em Marx ela seapresenta comoa ultima classe escrauizada, a classe vingado­
ra que, em nome de gerafoes de derrotados, leva a termo a obra de libertacdo. Essa 
consciencia que, porpouco tempo, sefez valerainda uma vez no &quot;Spartacus&quot;, desde 
sempre escandaiizou a socialdemocracia. No decurso de tris decinios, a 
socialdemocracia quase conseguiu apagar 0 nome de