Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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um Blanqui, cujo som de 
bronze abalara 0 seculo anterior. Ela teve comprazer em atribuiraclasse trabalha­
dora 0 papel de redentora dasgerafoes futuras, Com isso ela lhe cortou 0 tenddo da 
melhorforra. Nessa escola a classe trabalbadora desaprendeu tanto 0 odio quanto a 
uontade de sacriftcio. Poisambos se nutrem da uisdo dos ancestrais escrauizados, e 
ndo do ideal dos descendentes libertados. 
A epigrafe remete ao texto de Nietzsche que ja mencionamos varias vezes. A 
ciracao conrern somente a parte critica, mas einteressante levar em considera­
s:aoa alternativa que de propoe na conrinuacao de seu ensaio de 1873. Segun­
do Nietzsche, a historia - no sentido de historiografia - nolo deve ser urn luxo, 
urn passeio ocioso, urn assunto de curiosidade arqueologica, mas deve servir 
para 0 presente: "A historia e uril apenas quando serve para a vida e para a 
acao". Ele designa suas consideracoes sobre a hisroria como "internpestivas", 
porque sao "contra 0 tempo, para agir sobre 0 tempo e para favorecer 0 aeon­
recirnento de urn tempo futuro"?'. Essas observacoes correspondem perfeita­
mente as intencoes de Benjamin. 
A primeira frase, sobre 0 sujeito do conhecimento, lembra uma ideia que 
perpassa os principais escritos de Rosa Luxemburgo: a consciencia de classe ­
e, portanto, a conhecimento - resulta antes de mais nada da pratica de lura, da 
94 F. NIETZSCHE, Unzeitgemdsse Betrachtunge: Ztorites Stuck, cit., p. 3-5. 
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experiencia ativa da c1asse operaria, Essa proposta se distingue claramente da­
quela - comum a Karl Kautsky e ao Lenin de Que jazer?' - que considera a 
conhecimento - ou a consciencia socialista - como algo que deve ser introdu­
zido na classe "a partir de fora", pe!os inrelecruais e pelos reoricos, Nada indica 
que Benjamin tenha lido as escritos de Rosa Luxemburgo - ele nao as cita em 
lugar algum - mas, sem duvida, tornou conhecimento de suas ideias por sua 
apresentas:ao feita por Georg Lukacs em varies capftulos de Historia e conscirn­
cia de classe (1923). 
E nessa mesma obra - cuja importancia e sabida para a "conversao" de 
Benjamin ao marxismo - que se acha uma segunda significas:ao possfvel da 
tese XII: trata-se da polernica de Lukacs contra a concepcao do materialismo 
historico enquanto conhecimento ciendfico "neutro" proposta pelos teoricos 
da socialdemocracia, Karl Kautsky e Rudolf Hilferding. Para Historia e cons­
ciincia de classe, 0 marxismo representa uma forma de conhecimento superior 
porque se coloca do ponto de vista de classe do proletariado - que ea sujeito 
da acao e, ao mesmo tempo, 0 sujeito do conhecimento. 0 texto de Benjamin 
retoma, quase literalmente, passagens de Lukacs e e passive! se perguncar se 
onde esta escrito "Marx" na tese XII nolo se deveria ler "Lukacs?", 
A ultima classe que lura contra a opressao e que e encarregada, segundo 
Marx, da "obra de libertacao" - a proletariado - nolo pode realizar esse papel, 
segundo Benjamin, se esquecer seus ancestrais martirizados: nolo ha lura pe!o 
futuro sem memoria do passado. Trata-se do terna da redencao das vitimas da 
historia, que ja encontramos nas teses II, III e IV, em seu duplo alcance, reolo­
gico e politico. 
. Cbto die/at? [ed, bras.: Quejazer?, Sao Paulo, Hucitec, 1979]. 
9S Eisalgumas passagens do livrode Lukacs, que mostram claramente que eleconstitui 
a principal referenda teorica para a tese XII: "A dialetica rnaterialista, enquanro 
conhecimento da realidade, sornente ePOSSIVe! do ponto devista de classe, do ponte 
de vista da luta do proletariado. (oo.) A lura de classes do proletariado, guerra 
emancipadora da ultima classe oprimida, encontrou, na revelacao da verdade, seu 
griro de guerra e, ao mesmo tempo, sua arma mais eficaz" (G. Luxxcs, Histoire et 
conscience declasse, cit., p. 45,258-9). Para uma discussaodas ceses de Lukacs, rerne­
to a meu livro Paysages de la verite: introduction a une sociologie critique de la 
connaissance (Paris,Anthropos, 1985). 
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Ii 
II11 
A insistencia de Benjamin sobre os ancestrais vencidos pode parecer estra­
nha. Ela e, sem duvida, unilateral, uma vez que a lura contra a opressao se 
inspira tanto em vitimas do passado quanto em esperancas para as geracoes do 
futuro - e tambern, ou sobretudo, na solidariedade com as do presente. Ela faz 
pensar no imperativo judaico: Zachar, lembre-sel Lembre-se de seus ancestrais 
que foram escravos no Egito, massacrados por Amalek, exilados na Babilonia, 
dominados por Tito, queimados vivos pelas Cruzadas e assassinados pelos 
pogroms. Encontramos 0 culto aos rnartires, de uma outra forma, no cristianis­
rno, que fez de urn profeta crucificado seu Messias e de seus discipulos tortura­
dos seus santos, Mas 0 proprio movimento operario seguiu esse paradigma, de 
uma maneira perfeitamente profana. A fidelidade a memoria dos "martires 
de Chicago" - os sindicalistas e anarquistas executados pelas autoridades arne­
ricanas em 1887, em uma parodia de justica - inspirou, ao longo de todo 0 
seculo XX, 0 ritual do 1Q de maio. Sabe-se da irnportancia, para 0 movimento 
comunista em seus primeiros anos, da lernbranca dos assassinatos de Karl 
Liebknecht e de Rosa Luxemburgo em 1919. Mas talvez a America Latina 
Os judeus escravos no Egito, agadah do seculo XVII. 
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represenre 0 exemplo mais impressionante do papel inspirador das vitimas do 
passado, se pensarmos no lugar que ocuparam no imaginario revolucionario 
dos ultirnos trinta anos as figuras de Jose Marti, Emiliano Zapata, Augusto 
Sandino, Farabundo Marti e, mais recenternente, Ernesto Che Guevara. Se 
pensarmos em todos esses exemplos - e em muitos outros que poderfamos 
citar- a afirrnacao de Benjamin, segundo a qual as lutas sao mais inspiradas na 
memoria viva e concreta dos ancestrais dominados do que naquela, ainda abs­
trata, das geras;6es futuras, parece men os paradoxal. 
A memoria coletiva dos vencidos se distingue de diversos panteoes estatais 
para a gloria dos herois da patria, nao so pela natureza dos personagens, sua 
mensagem e sua posicao no campo do confliro social, mas tam bern porque, 
aos olhos de Benjamin, ela simplesmente tern uma dirnensao subversiva ame­
dida que nao e instrumentalizada a service de qualquer poder. 
E evidente que a rernemoracao das vitirnas nao e, para ele, uma larmiria 
melancolica ou uma meditacao mistica. Ela s6 tern sentido quando se torna 
uma fonte de energia moral e espiritual para aqueles que lutarn hoje. Trata-se 
da dialetica entre 0 passado e 0 presente ja sugerida pela tese IV:Vale principal­
mente para 0 combate contra 0 fascismo, que busca sua forca na tradicao dos 
oprimidos. Em uma conversa, em 1938, com Brecht sobre os crimes hitleristas, 
Benjamin observa: "Enquanto ele falava assim, senti agir sobre mim uma forca 
suficiente para enfrentar a do fascismo, quero dizer uma forca que tern raizes 
tao profundas na hisroria quanto a forca fascista.?" 
Para evitar mal-enrendidos, e uti! voltar aos termos "odio" e "vinganca". 
Pode-se perguntar se, ao utilizar esses terrnos, Benjamin nao responde, impli­
cirarnente, a Nietzsche. Este, como se sabe, designava pelo termo depreciativo 
"ressentirnenro" a "sede de vinganca e de odio" dos oprimidos, dos esmagados, 
dos subjugados. De seu ponto de vista aristocratico, tratava-se de uma "suble­
vacao dos escravos contra a moral", baseada na inveja, no rancor e na impoten­
cia, que tern sua origem nos judeus, esse "povo sacerdotal do ressentirnento 
por excelencia"?". Para Benjamin, as ernocoes dos oprimidos, longe de serem a 
96 W. BENJAMIN, Eerits autobiographiques, cit., p. 364. 
97 F. NIETZSCHE, Lagenealogiedefamorale (Paris, Gallimard, 1972), p. 45-6,58-9,68. 
led. bras.: Genealogia da moral, Sao Paulo, Companhia das Letras, 1998, trad. Paulo 
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expressao de urn ressentimento invejoso, de urn rancor Impotente, sao fonte 
de acao, de revolta ativa, de praxis revolucionaria. 0 conceito