Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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de "odio" se 
refere sobretudo a indignacao diante dos sofrimentos do passado e do pre­
sente, e ahostilidade irreconciliavel aopressao, principalmente em sua ultima 
e aterrorizante rnanifesracao: 0 fascismo. Nao se pode lutar contra 0 III Reich, 
parece sugerir Benjamin, sem que se tenha uma profunda aversao pelo na­
zismo, aversao que planta suas raizes nas lutas do passado. Como Marx, em 
o capital, Benjamin nao prega 0 odic aos individuos, mas a urn sistema. Quante 
avinganca das vitimas do passado, trata-se sirnplesrnente da reparacao dos 
crimes a que foram subjugados e da condenacao moral daqueles que os infli­
giram. Segundo 0 dicionario Petit Robert, a vinganca e a "reparacao moral 
da ofensa por punicao do ofens or" . Tratando-se de uma ofens a cometida ha 
seculos ou milenios, pode se tratar apenas de urn castigo moral... Benjamin 
nao pensaria em vingar Spartacus e seus camaradas punindo os cidadaos ita­
lianos do seculo XX! Ao contrario, a derrocada do fascismo - que se apresen­
tava como herdeiro do Imperio romano - seria tambem uma "vinganca 
da historia" dos escravos crucificados e urn questionamento da vitoria do 
patriciado romano. 
o importante, aos olhos do autor das teses, e que a ultima classe subjugada, 
o proletariado, ve-se como herdeira de varies seculos ou milenios de lutas, 
de combates derrotados dos escravos, dos servos, dos camponeses e dos arte­
saos. A forca acumulada dessas tentativas torna-se a materia explosiva com 
a qual a classe emancipadora do presente podera interromper a continuidade 
da opressao. 
A tese XII se refere a dois grandes testemunhos historicos para reforcar 
seu argumento. 0 primeiro e Spartacus, ou sobretudo a Liga Spartakista 
(Spartakusbund) , fundada por Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que em 
janeiro de 1919 assume a direcao de uma insurreicao operaria esponranea 
Cesar de Souza.} Eimportante observar que 0 6dio e a vinganca, "a ernbriagues da 
doce vinganca {'mais doce que 0 mel', ja dizia Homero)", nao sao condenados por 
Nietzsche, desde que sejam voltados contra urn inimigo pessoal- Aquiles que com­
bate Heitor para vingar seu amigo Patroclo - e nao contra a "injustica" (p. 63). Para 
Benjamin, trata-se precisamente do oposto. 
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em Berlim - esmagada com derramamento de sangue por Gustav Noske, mi­
nistro do Interior socialdemocrata. 0 aspecto que Benjamin ressalra e a cons­
ciencia historica que se manifesta no nome da organizacao: 0 proletariado 
moderno como herdeiro dos escravos revoltados contra 0 Imperio romano. A 
revolta de 1919 torna-se, assim, momento de urn cornbare universal que dura 
hi milenios e nao, como se costuma apresenra-lo. urn avatar da politica inter­
na alerna do pos-guerra. 
Auguste Blanqui, pintura de Madame Blanqui (1835). 
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<, 
A outra figura e Auguste Blanqui &quot;cujo som de bronze abalara 0 seculo 
anterior&quot;. 0 personagem de Blanqui, esse grande vencido, trancado nos ca­
laboucos das monarquias, das republlcas e dos imperios durante dezenas 
de anos, sem no entanto parar de personificar a rnais irreconciliavel oposicao 
revolucionaria a ordem exisrente das coisas, fascinava Benjamin. 0 &quot;sorn de 
bronze&quot; e, sem duvida, uma referencia as badaladas no sino de bronze que fazia 
soar, no sentido figurado, esse profeta armado, para advertir os oprirnidos 
da catasrrofe irninente, 
Benjamin se interessa nao so pela figura historica, mas rambern pelo pensa­
dor, de quem de conhecia as reflex6es gra<;:as a esplendida biografia de Gustave 
Geoffroy. Ao definir os prolerarios como &quot;escravos modernos&quot;, Blanqui mani­
festava uma visao da historia anaIoga ados spartakistas. Por outro lado, era urn 
adversario resoluto do positivismo e das ideologias do progresso. Geoffroy cita 
em seu Iivro afirrnacoes de BIanqui feiras em 1862: &quot;Nao sou daqueles que 
prerendern que 0 progresso seja obvio, que a humanidade nao possa recuar... 
Nao, nao hi faralidade, caso contrario a hist6ria da humanidade que se escreve 
de hora em hora, seria toda escrita antecipadamente&quot;:&quot;. Talvez seja pensando 
em ohservacoes desse genero que Benjamin tenha saIientado, em uma passa­
gem de &quot;Parque central&quot;: &quot;A atividade de conspirador profissional como foi 
BIanqui nao supoe de maneira alguma a fe no progresso. Ela sup6e, funda­
mentalrnenre, apenas a resolucao de eliminar a injustica presente. Essa reso­
98 G. GEOFFROY, L'enfenne (Paris, Les Editions G. Cres, 1926), v. II, p. 19-20. Segundo 
Miguel Abensour, nas teses de Benjamin &quot;aparece em flligrana a sombra de Blanqui. 
Como se 0 autor, na textura de suas teses, tivesse tecido um comentario esoterico 
sobre os manuscriros de Blanqui: a{se reconhece 0 saito do tigre. Especialista em 
colagern, Benjamin age como se pegasse as arrnas forjadas por Blanqui contra 0 
positivismo a firn de dar seus pr6prios golpes naqueles que se entregam no bordel do 
historicismo&quot; (&quot;Liberer I'enferrne&quot;, posfacio a A. BLANQUI, Instructionspour uneprise 
d'armes, Paris, La Tete des Feuilles, 1972, p. 206). Cf. rambern de M. ABENSOUR, 
&quot;Walter Benjamin entre melancolie er revolution. Passages Blanqui&quot;, em H. WISMANN 
(org.), Walter Benjamin et Paris (Paris, Cerf, coil. &quot;Passages&quot;, 1986). 
99 W. BENJAMIN, &quot;Zenrralpark&quot;, 1938, cit., p. 40. Daniel Bensaid observa, em seu belo 
[ivro sobre Benjamin, que este comparrilha com Blanqui de uma cerra concepcao 
melancolica da hisroria, baseada na visao infernal da ererna volta das derrotas (Walter 
Benjamin: sentinelle messianique, cit., p. 43). 
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[ucao de, no ultimo momento, arrancar a humanidade da catastrofe que a 
ameaca permanentemente, foi fundamental para Blanqui (... ).&quot;99 
Na rraducao francesa das teses, feita por Benjamin, existe uma ultima frase, 
ausente do rexto alernao: &quot;Para nos, nossa gera<;:ao foi paga para saber disso, 
pois a unica imagem que ela vai deixar e a de uma gera<;:ao vencida. Esse sera 
seu legado para os que vierem&quot; (GS I, 3, p. 1264). Ela mostra, de maneira 
explfcita e direta, que quando ele fala dos vencidos da historia esta pensando 
tambem em si mesmo e em sua gera<;:ao. Isso esdarece a Stimmung [atmosfera] 
do conjunto das teses, como sugere uma de suas ultirnas carras, dirigida a seu 
amigo S. Lackner no dia 5 de maio de 1940: &quot;Acabo de rerrninar urn pequeno 
ensaio sobre 0 conceito de historia, urn trabalho que foi inspirado nao so pela 
nova guerra, mas por toda a experiencia de minha gera<;:ao, que deve ser uma 
das mais duramente submetidas as provacoes da hlstorla.&quot;'?&quot; Com 0 mesmo 
espirito, ele menciona em uma das notas preparatorias 0 celebre poema de 
Brecht, &quot;An die Nachgeborenen&quot; [Aos que vierem depois de nos], em que 0 
escritor pede as gera<;:6es seguintes que se lembrem dos sofrimentos da sua. 
Benjamin acrescenta esse cornentario dilacerante: &quot;Pedimos aqueles que vie­
rem depols de nos nao a gratidao por nossas vitorias, mas a remernoracao de 
nossas derrotas. Isso e urn consolo: 0 unico console dado aqueles que nao tern 
mais esperanca de serem consolados&quot; (GS I, 3, p. 1240). 
100	 Documenro citado por C. KAMBAS em seu livco Walter Benjamin im Exil. Zum 
Verhiiltnis von Literaturpolitik und A'sthetik (Ttibingen, Max Niemeyer, 1983), 
p.218. 
l1S 
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TESE XIII 
&quot;Nossa causa, com certeza, torna-se a cada 
dia mais clara e 0 povo mais inteligente&quot; 
Joseph Dierzgen, 
La philosophic social-demo crate 
[A filosofia soclaldernocrata]. 
A teoria socialdemocrata, e, mais ainda, a sua prdxis estauam determinadas 
por um conceito de progresso que ntio se orientaua pela realidade, mas que tinha 
uma pretensdo dogmdtica. 0 progresso, tal como ele se desenbaua na cabeca 
dossocialdemocratas, era, primeiro, um progresso da propria humanidade (e ndo 
somente das suas habilidades e conhecimentos). Ele era, em segundo lugar, um 
progresso interminduel (correspondente a uma perfectibilidade infinita da 
humanidade).