Aviso de Incendio Michel Lowy
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Em terceiro lugar, ele era tido como um progresso essencialmente 
irresistiuel (como percorrendo, por mota proprio, uma trajetoria reta ou em espi­
ral). Cada um desses predicados econtrouerso, e cada um deles oferecia flanco 
acritica. Mas essa, se elafor implacdvel, tem de remontar muito alem de todos 
esses predicados e dirigir-se aquila que lhes ecomum. A representacdo de um 
progresso do genero humane na bistoria e insepardvel da representacdo do 
avanfo dessa historia percorrendo um tempo homogineo e oazio. A crltica a 
representaaio desse auanco tem de sera basecritica da representacdo do progres­
so em geral. 
A epigrafe de Dietzgen - escolhido mais uma vez como exemplo tipico do 
"progressismo" socialdemocrata mediocre e limitado - ilustra uma visao oti­
mista linear da historia, alimentada por uma leitura superficial do Aufkliiruny;. 
desenvolvimento irresistfvel e ininterrupto da "clareza" e da "inteligencia". A 
realidade td.gica do fascismo esta ai para desmentir esse tipo de automistificacao, 
de coloracao populista. 
Examinemos as tres criticas que a tese nao desenvolve, mas que sao basea­
das em uma visao alternativa da historia: 
1. Epreciso distinguir entre 0 progresso dos conhecimentos e das habili­
dades (Fahigkeiten) e 0 progresso da pr6pria humanidade: este implica uma 
dirnensao moral, social e politica que nao eredutfvel ao progresso clentfflco e 
tecnico. 0 movirnento da historia enecessariamente heterogeneo - desigual 
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e combinado, diria Trotski no livro A historia cia Reoolucdo Russd, que Benja­
min conhecia bern - e os avances em uma dirnensao da civilizacao podem ser 
acompanhados de regressoes na outra (como ja constatara a tese XI); 
2. Quando se quer urn "progresso da pr6pria humanidade" nao se pode 
confiar em urn processo de aperfeicoamento gradual e infinite, mas epreciso 
lutar por uma ruptura radical: 0 fim da hist6ria milenar da opressao - 0 flm 
da pre-historia na linguagem de Marx. Cabe acrescentar que 0 pr6prio Benja­
min nao utiliza a expressao "fim da pre-historia". mas se refere - de maneira 
bern eliptica, e preciso dizer - ao possivel surgimento do "verdadeiro estado 
de excecao". Essa problematica escapa do evolucionismo e da teologia, uma 
vez que se trata de urn objetivo pelo qual se luta e de uma possibilidade 
objetiva, mas nunca do lnevitavel resultado das "leis da historia". Como escre­
ve Benjamin, em uma das formula<;:6es mais marcantes de Das Passagen- \\7erk: 
''A experiencia de nossa gera<;:ao: que 0 capitalismo nao rnorrera de morte 
natural.&quot;lol; 
3. Nao hi, portanto, progresso &quot;automatlco&quot; ou &quot;continuo&quot;; a unica conti­
nuidade ea da dorninacao e 0 automatisrno da hist6ria simplesmente reproduz 
esta (&quot;a regra&quot;). Os unicos momentos de liberdade sao lnterrupcoes, descon­
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tinuidades, quando os oprimidos se sublevam e tentam se autoemancipar \u2022 
Para ser eficaz, essa critica as doutrinas progressistas deve atacar seu funda­
mento comum, sua raiz mais profunda, sua quintessencia oculta: 0 dogma de 
uma temporalidade hornogenea e vazia. Veremos nas pr6ximas teses 0 signifi­
cado desse conceito e a alternativa que ele propoe: 0 tempo qualitativo, hetero­
geneo e pie no. 
. Ed. bras.: Sao Paulo, Paz e Terra, 1980. 
101 Das Passagen-Werk, cit., p. 819. 
102 Uma nota preparatoria revela 0 projeto de uma crftica ao conjunto das teorias do 
progresso, inclusive ade Marx: &quot;Crltica 11 teoria do progressode Marx. 0 progresso 
e, aqui, definido pelo desenvolvimento das forcas produtivas. Mas a essaspertence 
o ser humano e, portanto, 0 proletariado. Conseqiientemente, a quesrao dos crite­
rios eapenas deslocada&quot; (GS 1, 3, p. 1239). Infellzmenre, Benjamin nao pOde de­
senvolver essa critica a urn conceito - 0 de &quot;forcas produtivas&quot; - que ocupa urn 
lugar central em rodas as variances produtivistas, economicistas e evolucionistas da 
teoria marxista do progresso. 
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o que esra em jogo no debate esta longe de ser purarnenre teo rico e flIoso­
fico. Trata-se, salienta Benjamin, de uma certa atitude pratica, que combina 0 
otirnisrno do progresso com a ausencia de iniciativa, a passividade, 0 imobilismo. 
Vma atitude que, como vimos a proposito da tese XI, encontra seu 
desvendamenro tragico na capirulacao sem cornbare da esquerda alerna diante 
de Hitler em 1933, ou - para dar urn exemplo que Benjamin nao menciona, 
mas que rarnbern estava presente em sua mente no rnornenro em que redigiu as 
teses - da (maior parte da) esquerda francesa dianre de Petain em 1940. 
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TESE XIV 
Origem e0 fim.
 
Karl Kraus, Paroles en uers, I
 
[Palavras em versos].
 
A historia e objeto de uma construcdo, cujo lugar ndo e formado pelo tempo 
bomogsneo e uazio, mas por aquele saturado pelo tempo-de-agora Getztzeit). As­
sim, a antiga Roma era, para Robespierre, um passado carregado de tempo-de­
agora,passado que elefazia explodir do continuo da historia. A Revolurao Francesa 
compreendia-se como uma Roma retornada. Ela citaua a antiga Roma exatamente 
como a moda cita um traje do passado. A moda tem faro para 0 atual, onde quer 
que este se mova no emaranhado do outrora. Ela e 0 salta do tigre em direrao ao 
passado. 56 que ele ocorre numa arena em que a classe dominants comanda. 0 
mesmo salto sob 0 ceu livre da histdria eo salta dialetico, que Marx compreendeu 
como sendo a reuolucdo. 
Em uma carta a Horkheimer, pouco depois de ter recebido (1941) um 
exemplar das teses, Adorno comparou a concepcao do tempo da tese XIV com 
o kairos de Paul Tilllchl'&quot;, Na verdade, 0 socialista cristae, colaborador do 
Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt nos anos 1920 e 1930, opunha ao 
chronos, tempo formal, 0 kairos, tempo historico &quot;pleno&quot;, em que cada instante 
conrern uma chance unica, uma constelacao singular entre 0 relative e 0 
absolurol'&quot;. 
A epfgrafe de Karl Kraus - Ursprung ist der Ziel- tern duplo significado: do 
ponto de vista reologico, a redencao leva - como vimos anteriorrnente - a 
volta ao parafso perdido: 0 tikhun, a apocatdstase, a restitutio ominium. Alias, 
foi 0 que 0 proprio Benjamin escreveu em seu artigo sobre Karl Kraus (1934), 
em que eIe comenta essa expressao do escritor vienense nos seguintes terrnos: 
o mundo econcebido como &quot;urna deriva, um desvio, uma guinada de volta ao 
103 Carta de 12 de junho de 1941em W. BENJAMIN, GS VII, 2 (Nachtriige) , p. 774. 
Deve-se notar que, segundo Adorno, &quot;nenhum outro trabalho de Benjamin e tao 
proximo de nossas inrencoes&quot;. 
104 C( R. KONERSMANN, Erstarrte Unruhe. Walter Benjamin. Begriff'der Geschichte (Frank­
furt, Fischer, 1991), p. 44-5. 
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Parafso&quot; (lrrweg, Abweg, Umweg zum Paradies zuruck)105. Do ponto de vista 
politico, a revolucao e tambern - ver a tese IX - uma volta ao parafso origina­
rio. Mas, na tese XIV, Benjamin se interessa por urn outro tipo de relacao com 
o passado: que poderia ser chamada &quot;a citacao revolucionaria&quot;. 
Como interpretar, nesse contexro, a surpreendente comparacao entre a rnoda 
e a revolucao? Uma observacao em Das Passagen- werk nos ajuda a compreen­
der 0 paralelo. Aparentemente, e!as tern a mesma conduta: enquanto a Revolu­
<;:ao Francesa cita a Antiguidade rornana, a moda do final do seculo XVIII cita 
a Antiguidade grega. Mas a temporalidade da moda e a do inferno: ao mesmo 
tempo que cultiva &quot;a absurda supersticao do novo&quot; (Paul Valery), e!a e a eterna 
repeticao do rnesmo, sem flrn, nem ruptura. Serve, entao, as classes dorninan­
tes, de camuflagem para ocultar seu horror a qualquer mudanca radical 
(Brecht}'?&quot;. Ao contrario, a revolucao e a interrupcao da eterna volta e 0 
surgimento da mudanca rnais profunda. Ela e urn saito dialetico, fora do con­
tinuo, inicialmente rumo ao passado e, em seguida, ao futuro. 0 &quot;salto do 
tigre em direcao ao passado&quot; consiste em salvar a heranca dos oprirnidos e ne!a 
se inspirar para interromper a catastrofe presente. 
o passado contern