Aviso de Incendio Michel Lowy
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Aviso de Incendio Michel Lowy


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redentores: a saida 
do Egito (Pessach), a revolta dos Macabeus (Hanuka), a salvacao dos exilados 
na Persia (Purim). 0 imperativo da lembranca - Zachor! - e mesmo urn dos 
elementos centrais do ritual da Pascoa judaica: lembre-se de seus ancestrais no 
Egito como se voce mesrno tivesse sido urn escravo naquele tempo lOB. 
Mas poderiamos citar outros feriados, profanos, como 0 14 de julho fran­
12 ces ou 0 de maio dos operarios - dias "iniciais" de Festapopular e de memo­
ria revolucionaria, consranremenre amea<;:ados pelo conformismo que tenta 
domina-los. 
108 Referindo-se aos rituais judaicos e, particularrnenre, aHaggadah de Pessach, Y. H. 
YERUSHALMI escreve: &quot;A memoria nao e mais aqui lembranca - 0 que rnanteria urn 
sentimento da disrancia - mas reatualizacao&quot; (Zakhor: histoire et memoirejuive, 
Paris, La Decouverte, 1984, p. 60) 
A tese XV continua a crftica encontrada nas duas que a precedem contra a 
concepcao hornogenea do tempo, mas ela identlfica de modo mais preciso essa 
temporalidade vazia: ados relogios. Trata-se do tempo puramente mecanico, 
autornatico, quantitative, sempre igual a si mesmo, dos pendulos: urn tempo 
reduzido ao espa<;:o. 
A civilizacao industrial/capitalista e dominada, de maneira crescente desde 
o seculo XIX, pelo tempo do relogio de bolso ou de pulso, passivel de uma 
medida exata e estritamente quantitativa. As paginas de 0 Capital sao cheias 
de exemplos terrfveis da tirania do relogio sobre a vida dos trabalhadores. Nas 
sociedades pre-capiralistas, 0 tempo era carregado de significados qualitativos, 
que foram progressivamente substitufdos, durante 0 processo de industrializa­
cao, pelo tempo unico do relogio de PUISO I 09 \u2022 
Para Benjamin, 0 tempo historico nao poderia ser confundido com 0 tem­
po dos relogios, Trata-se de uma ternatica que remonta a seus escritos de juven­
tude: no artigo de 1916, publicado em frances com 0 titulo &quot;Sur IeTrauerspiel 
et la Tragedie&quot; ele op6e 0 tempo da historia, cheio de temporalidade rnessianica, 
ao tempo mecanico e vazio dos relogios, Poucos anos depois, em sua tese 0 
conceito de criticade arte no romantismoalemdo (1919) ele contrasta &quot;0 infinite 
temporal qualitativo&quot; (qualitative zeitliche Unendlichkeitt do messianismo ro­
mantico com 0 &quot;infinite temporal vazio&quot; das ideologias do progresso'!&quot;. 
A concepcao do tempo que prop6e Benjamin tern suas fontes na tradicao 
messianica judaica: para os hebreus, 0 tempo nao era uma categoria vazia, abstra­
ta e linear, mas inseparavel de seu conteudo'!', Mas, de uma certa maneira, e0 
conjunto das culturas tradicionais, pre-capitalistas ou pre-industriais que guarda 
em seus calendarios e suas festas, os vestigios da consciencia hisrorica do tempo. 
o ato dos revolucionarios que atiraram nos relogios durante a revolucao de 
julho de 1830 representa, aos olhos de Benjamin, essa consciencia. Mas, nesse 
109 E. P. THOMPSON, &quot;Time, Work-Discipline and Industrial Capitalism&quot;, em Customs 
in Common (Londres, Penguin Books, 1991). 
IIOW BENJAMIN, &quot;Sur Ie Trauerspiel et la Tragedie&quot;, 1916, Furor, nO 2, outubro de 
1982, p. 7-8 e Der BegrifJder Kunstkritik in der deutschen Romantik, 1919, cit., 
p. 86-7. 
III S. MOWINCKEL, He that Cometh (Oxford, Basil Blackwell, 1956), p. 106. 
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--
caso, nao e 0 calendario que se confronta com 0 rel6gio: eo tempo hist6rico da 
revolucao que ataca 0 tempo mecanico do pendulo. A revolucao e a tentativa 
de interromper 0 tempo vazio, gra<;:as a irrupcao do tempo qualitative, 
rnessianico - como Josue, segundo 0 Antigo Testamento, suspendeu 0 rnovi­
mento do sol, para ganhar 0 tempo necessario asua vit6ria. 
No Baudelaire de Benjamin, tambem encontramos uma referenda a Josue e 
a essa aspiracao de deter a marcha do tempo: &quot;Interromper 0 curso do mun­
do - esse era 0 desejo mais profundo de Baudelaire. 0 desejo de [osue.&quot;!'? 
Trata-se da interrupcao ao mesmo tempo messianica e revolucionaria do curso 
catastrofico do mundo. Em julho de 1830, as classes revolucionarias - tais 
como &quot;novos josues&quot; - mais uma vez tiveram consciencia de que sua acao 
&quot;fazia explodir a continuidade hist6rica&quot; da opressao, 
Urn exemplo latino-americano recente traduz, de maneira extraordinaria, 
essa aspiracao no terreno sirnbolico - contestatorio mais do que revoluciona­
rio. Durante as rnanifestacoes populares de protesto - por iniciativa de organi­
'c&quot;'
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Jovens indios brasileiros protestam em frente ao rel6gio das comemorac;6es oficiais 
do V centenario da descoberta do Brasil, abril de 2000. 
112 W BENJAMIN, Charles Baudelaire, cir., p. 223. 
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zacoes sindicais operarias e camponesas, e de movimentos negros e indigenas ­
contra as comemora<;:6esoficlais (governamentais) do 500Q aniversario da &quot;des­
coberta&quot; do Brasil pelos navegantes portugueses em 1500, urn grupo de indios 
atirou flechas contra 0 relogio (patrodnado pela Rede Globo de Televisao) que 
marcava os dias e as horas do centenario... 
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-
TESE XVI 
o materialista historico ndo pode renunciar ao conceito de um presente que 
ndo etransicdo, mas no qual 0 tempoestanca eficou imouel (Stillstand). Pois esse 
conceito define exatamente 0 presente em que ele escreve historia para si mesmo. 
oHistoricism» arma a imagem &quot;eterna&quot; do passado, 0 materialistahistorico, uma 
experiincia com 0 passado que sefirma ai unica. Ele deixa aos outros se desgas­
tarem com a prostituta &quot;era uma uez&quot;noprostibulo do Historicismo. Eleperma­
nece senbor de suasforcas: viril 0 bastante para jazer explodir 0 continuo da 
bistoria. 
Continuando sua polernica contra 0 historicismo, Benjamin formula uma 
curiosa alegoria. Pode-se interpreta-la assim: a prostituta &quot;era uma vez&quot;, insta­
lada no bordel &quot;historicismo&quot;, recebia os vencedores urn ap6s outro. Ela nao 
tinha escrupulos para se dar a urn e, em seguida, abandona-lo em prol do 
seguinte. Sua sucessao constitui 0 continuo da hist6ria: era uma vez JUlio Cesar, 
era uma vez Carlos Magno, era uma vez 0 papa Borgia e assim por diante. 
Por outro lado, 0 adepto do materialismo hlstorico - que nao tern necessi­
dade de ser, ao contrario do que Benjamin da a entender, do sexo masculino 
(&quot;viril&quot;) ... - vive, com uma imagem do passado, uma experiencia unica. 0 
ensaio sobre Fuchs, que contern uma especie de variante da tese XVI, explica: 
trata-se de perceber - &quot;nurn lampejo&quot;, como diz a tese V - a constelacao critica 
que esse fragmento do passado forma precisamente com 0 presente em 
quesrao!&quot;. Por exernplo, entre Walter Benjamin, em urn momento de perigo 
supremo, em 1940, e Auguste Blanqui, 0 preso, 0 revolucionario esquecido. 
Ou ainda, na obra de Bloch mencionada anreriorrnente, entre as sublevacoes 
revolucionarias na Alemanha dos anos 1919-1921 - aquele momento presente 
&quot;em que de pessoalmente escreve a hlstoria' - e a insurreicao camponesa in­
citada por Thomas Munzer. No entanto, para que essa constelacao possa se 
formar, e preciso que 0 presente fique imovel (Stillstand) par urn momenta: 
e 0 equivalente, no nfvel da historiografia, 11 interrupcdo revolucionaria 
da continuidade historica, 
113 W. BENJAMIN, &quot;Eduard Fuchs&quot;, cit., P: 42-3. 
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De acordo com 0 ensaio sobre Fuchs, a experiencia unica do passado libera 
as energias poderosas que jaziam atadas no &quot;era uma vei' do hlsroricisrno!&quot;. 
Em outras palavras: enquanto a abordagem conformista e pseudo-objetiva de 
Ranke e de Sybel neutraliza e esteriliza as imagens do passado, a conduta do 
materialismo historico descobre as energias explosivas ocultas que se encon­
tram em urn mornento preciso da hist6ria. Essas energias, que sao as do [etztzeit, 
sao como a fafsca que sai de urn curto-circuito, permitindo &quot;fazer explodir&quot; 
a continuidade hist6rica. 
Urn exemplo atual, no contexto latino-americano, ilustra de maneira im­
pressionante as ideias de Benjamin: a sublevacio zapatista