Aviso de Incendio Michel Lowy
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a Gretel Adorno, em que anuncia a redacao das teses, Benjamin 
chama sua atencao particularmente para a XVII, uma vez que ela revela a liga­
c;:ao entre esse documento eo metodo de suas pesquisas anteriores!". Os traba­
lhos de W. Benjamin sobre Baudelaire sao urn born exemplo da metodologia 
proposta nessa tese: trata-se de descobrir em Asflores do mal uma m6nada, urn 
conjunto cristalizado de tensoes que contern uma totalidade historica, Nesses 
Zur Geschichtsphilosophie Walter Benjamins" em P. BULTHAUPT, Materialien zu 
Benjamins Thesen, cit., p. 25-6). 
122	 Eis como Scholem interpreta a metamorfose rnarxista do messianismo judaico: 
''A diferenca entre a moderna "teologia da revolucao"... e a ideia messianica do 
judaisrno consiste, em grande medida, em uma transposicao dos terrnos. Sob sua 
nova forma, a historia torna-se uma pre-historia... Essa e a atitude subjacente 
aos escritos dos ideologos mais irnportantes do messianismo revolucionario, como 
Ernst Bloch, Walter Benjamin, Theodor Adorno e Herbert Marcuse..." (Fidelite et 
utopie: essais sur lejudaisme contemporain, Paris, Calrnann-Levy, 1978, p. 255-6). 
o proprio I. Wohlfarth observa tambern que, no messianismo secularizadode Ben­
jamin, 0 final dos tempos nao e0 final de toda a historia, como no messianismo 
ortodoxo, mas 0 firn do que Marx denominava a "pre-hisroria" (I. WOHLFARTH, 
"The Measure of the Possible" em L. MARCUS, L. NEAD. (org.), The Actuality of 
W Benjamin, Londres, Lawrence and Wishart, 1998, p. 36). Essas interpretacoes 
sao interessantes, mas lembremos que Benjamin nao utiliza a expressao "fim da 
pre-historia". 
123 Carta citada em GS I, 3, p. 1226. 
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escritos, desarraigados do curso hornogeneo da hisroria, encontra-se conserva­
da e reunida toda a obra do poeta, nesta, 0 seculo XIX frances, e, nesse ultimo, 
"to do 0 curso da historia". A obra "maldita" de Baudelaire guarda 0 tempo 
como uma semente preciosa. Deve essa semente frutificar no terreno da lura de 
classes atual, para adquirir todo seu sabor? 
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--TESE XVII a 
Marx secularizou a representardo do tempo messidnico na representacdo da 
sociedade sem classes. E estaua bem assim. 0 injortunio comecou quando a 
socialdemocracia alcou essa represenraoio a um ideal. 0 ideal foi definido, na 
doutrina neokantiana, como uma tareft infinita. E essa doutrina era a filosofia 
elementardopartido socialdemocrata - de Schmidt e Stadler a Natorp e Vorlander. 
Uma vez definida a sociedade sem classes comotareja infinite; 0 tempo homogeneo 
e uazio transjormaua-se, por assim dizer, em uma ante-sala, em que sepodia espe­
rar com mais ou menosserenidade a chegada de uma situacdo revoluciondria. Na 
realidade, ndo hd um so instante que ndo carregue consigo a sua chancereuolucio­
ndria - elaprecisa apenas serdefinida comouma chance especifica, ou seja, como 
chance de uma solucdo inteiramente nova em face de uma tareja inteiramente 
nova. Para 0 pensador reuoluciondrio, a chance revoluciondria propria de cada 
instante historico seconfirma a partir ria situacdo politica. Mas elase lhe confirma 
ndo menospelo poder-cbaue desse instante sobre um compartimento inteiramente 
determinado, ate entaofecbado, dopassado. A entrada nesse compartimento coin­
cide estritamente coma araopolitica; e epor essa entrada que a araopolitica, por 
mais aniquiladora que seja, pode ser reconhecida como messidnica. (A sociedade 
sem classes ndo e a meta final do progresso na historia, mas, sim, sua interrupciio, 
tantas uezes malograda, finalmente efetuada.) 
o conceito de secularizacao utilizado por Benjamin nessa tese e, prova­
velmente, uma referenda aPolitiscb Theologie (1922) de Carl Schmitt, segun­
do a qual "todos os conceitos pregnantes da teoria moderna do Estado sao 
conceitos teol6gicos secularizados't'>'. Sem duvida, Schmitt se interessa sobre­
tudo pelas fllosofias contra-revolucionarias do Estado, mas formula tarnbern 
hip6teses mais genericas que poderiam interessar a Benjamin, como por exern­
plo: "A situacao excepcional tern para a jurisprudencia 0 mesmo significado 
124 Everdade que 0 conceito aparece tambern, com urn alcance mais geral, na socio­
logia das religi6es de Max Weber, principalrnenre em A etica protestante e 0 
espirito do capitalismo, obra que Benjamin conhecia bern. [Ed. bras.: M. WEBER, 
A etica protestante e 0 espirito do capitalism», Sao Paulo, Companhia das Letras, 
2004.] 
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que 0 milagre para a teologia."125 No entanto, como foi muito bern demons­
trado por Jacob Taubes, a secularizacao nao epara Schmitt urn conceito posi­
tivo; ao contrario, "para ele, ela representa 0 diabo". 0 objetivo de Schmitt e 
demonstrar que a secularizacao leva a teo ria juridica do Estado a urn impasse, 
porque ignora 0 fundamento, a raiz de seus pr6prios conceiros!". 
Nao e esse 0 ponto de vista de Benjamin. Para ele, a secularizacao e ao 
mesmo tempo legitima e necessaria - desde que a energia subversiva do 
messianico continue presente, mesmo que seja no estado de forca oculta (como 
a teologia no jogador de xadrez materialista). 0 que epreciso criticar, insiste 
Benjamin, nao ea secularizacao enquanto tal, mas uma forma especifica, a do 
neokantismo socialdemocrata, que fez da ideia rnessianica urn ideal, uma "ta­
refa infinira". Trata-se principalmente do grupo de filosofos da Universidade 
de Marburg, aqual pertencem tanto Alfred Stadler quanto Paul Natorp, dois 
dos auto res mencionados na tese, assim como Hermann Cohen. 
Encontra-se aqui uma analogia impressionante com algumas ideias desen­
volvidas pelo jovem G. Scholem, em cadernos ineditos dos anos 1918-1919. 
Ele coloca em questao, com uma incrivel virulencia, a miseravel falsificacao da 
tradicao rnessianica judaica, pela qual e responsavel, a seus olhos, a Escola 
neokantiana de Marburg: 
o reino messianico e 0 tempo rnecanico produziram, na cabeca dos homens 
do Iluminismo (Aufklarer), a ideia - bastarda e digna de maldicao - do Pro­
gresso. Porque, quando se e urn Aufklarer [...J, a perspectiva dos tempos 
messianicos deve necessariamente se deformar em Progresso. [...] Aqui se en­
contram os erros mais fundamentais da Escola de Marburg: a distorcao [...] de 
todas as coisas em uma tarefa infinita no sentido do Progresso. Essa ea mais 
deploravel interpretacao que 0 profetismo ja teve de suportar.!" 
125 C. SCHMID, Thtologie politique (1922) cit., p. 46. 
126 J. TAUBES, Die politiscbe Theologie des Paulus (Munique, Wilhelm Fink, 1993), 
p. 89-92. 
127 Essa passagem encontra-se em urn caderno inedito de G. Scholem, intitulado 
Ttzgehuchaufteichnungen. 1. August 1918-1. August 1919 (Adelboden - Bern) Esse 
marerial- que se acha no arquivo Scholem na biblioteca da Universidade Hebraica 
de Jerusalem - em breve sera publicado pela editora jiidischer (associada it editora 
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Pode-se perguntar se Benjamin nao tinha essasideias em sua memoria quan­
do escreveu as "teses" de 1940 - a nao ser que Scholem e que tenha sido in­
fluenciado pelas discussoes com seu amigo em 1916-1919. 
o que Benjamin critica na socialdemocracia de inspiracao neokantiana e, 
antes de mais nada, seu imobilismo, a calma olimpiana com a qual ela espera, 
confortavelmente instalada no tempo vazio e homogeneo, como urn cortesao 
no vestibulo, a chegada inevitavel da "situacao revolucionaria' - que, e claro, 
jamais vira.. 
A alternativa que ele propoe e, ao mesmo tempo e inseparavelmente, his­
to rica e politica. Ela parte da hipotese de que cada momenta historico tern 
suas potencialidades revolucionarias. Trata-se de opor uma concepcao aberta 
da historia como praxis humana - rica em possibilidades inesperadas, que 
podem produzir 0 novo - a toda doutrina teleologica, confiante nas "leis da 
historia' ou na acumulacao gradual de reformas na via certa e garantida do 
Progresso infinite. 
Essa acao politica - que, como toda praxis revolucionaria, comporta uma