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Direito e Psicologia nas Varas de Família

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Faculdade de Direito de Varginha – FADIVA
Disciplina: Psicologia
Prof. Sílvio Memento Machado 
A INTERLOCUÇÃO COM O DIREITO À LUZ DAS PRÁTICAS PSICOLÓGICAS EM VARAS DE FAMÍLIA
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INTRODUÇÃO
A prática da Psicologia nas Varas de Família exige o conhecimento básico dos códigos jurídicos que regulam a família no Brasil.
Os arranjos familiares e amorosos com que os operadores do direito se surpreendem hoje em dia levam a uma interlocução do Direito com outros saberes. 
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INTRODUÇÃO
Em contrapartida, de nada adianta o psicólogo se restringir à especificidade do seu campo, se ele desconhece, por exemplo, os critérios jurídicos que norteiam a decisão de uma guarda ou os deveres e direitos parentais.
Da mesma forma, é comum que no seu atendimento o psicólogo se depare com argumentos cujos valores já foram revistos e substituídos em lei. 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
No Brasil do Império, a legislação sobre a família era regulada pelo Código Civil Português, que, por sua vez, era inspirado no Código das Ordenações Filipinas (1603). Essa legislação permaneceu em vigor até 1916.
Essa legislação só se aplicava ao casamento dos católicos. Protestantes e Judeus não poderiam ter seus casamentos reconhecidos pelo Estado, tão pouco as uniões extraconjugais. 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
Apenas em 1890, através do decreto 181, aboliu-se a jurisdição eclesiática, julgando-se como único casamento válido o realizado perante as autoridades civis. 
Com o Código Civil Brasileiro de 1916, consolida-se a definição de família como sendo a união legalmente constituída pela via do casamento civil. 
Repúdio ao concubinato. 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
No Código de 1916, a família é vista como núcleo fundamental da sociedade, legalizada através da ação do Estado, composta por pai, mãe e filhos (família nuclear) e, secundariamente, por outros membros ligados por laços consanguíneos ou de dependência (família extensa). Ao mesmo tempo, ela se organiza num modelo hierárquico que tem o homem como o seu chefe (família patriarcal). 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
A mulher casada era considerada relativamente incapaz, em oposição à situação jurídica da mulher solteira maior de idade. Essa incapacidade retira da mulher o poder de decisão sobre a prole e o patrimônio, cuja competência pertence ao homem. A mulher casada precisava de autorização do seu marido para exercer profissão, para comerciar, além de estar fixada ao domicílio decidido por ele. Os compromissos que assumia sem autorização marital não tinha eficácia jurídica.
Somente na falta ou no impedimento do pai que caberia à mulher a função de exercer o pátrio poder. 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
No que tange à separação do casal, o Código de 1916 prevê apenas a separação de corpos por justa causa, conhecido por desquite, preservando assim a indissolubilidade do casamento. A separação não desfaz o vínculo matrimonial.
Com o desquite, delega-se ao inocente no processo de separação o direito de ter os filhos consigo e ao cônjuge culpado, o direito de visita. 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
Durante muito tempo, as regulamentações visavam reforçar os padrões de moralidade já previstos no Código Civil, tais como: a valorização do casamento legal e monogâmico, o incentivo ao trabalho masculino e a dedicação da mulher ao lar, o temor higienista dos casamentos consanguíneos e do uso da sexualidade feminina e, em suma, a defesa da harmonia e dos costumes da família. 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
No período de 1946 a 1964, caracterizado politicamente como democrático, destacam-se a lei de reconhecimento de filhos ilegítimos e o “Estatuto da mulher casada” de 1962, que outorga capacidade jurídica plena à mulher.
 Com o “Estatuto”, a decisão sobre a prole e o patrimônio deixa de ser exclusividade do homem. Ele também revoga a incapacidade da mulher casada. 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
Um exemplo dos efeitos jurídicos do “Estatuto”: na hipótese de desquite judicial, em que ambos os cônjuges são considerados culpados, os filhos menores ficam com a mãe, diversamente do que ocorria no regime anterior, em que os filhos varões, acima de seis anos, ficavam com o pai.
 A despeito de uma certa liberalização em relação ao casamento e ao regime de bens, o “Estatuto” não rompe algumas premissas básicas. 
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DO CÓDIGO CIVIL DE 1916 AO ESTATUTO DA MULHER CASADA
Se o modelo jurídico da família nuclear, com laços extensos, patriarcal, fundada na assimetria sexual e geracional permanece inalterado do período autoritário ao democrático, as práticas sociais se afastam cada vez mais do tipo ideal da doutrina jurídica. 
O final dos anos 60 e a década de 70 foram fecundos nesse sentido. 
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NOVOS ARRANJOS E A DIFUSÃO DAS PRÁTICAS PSICOLÓGICAS
Fatores que colocaram em xeque o modelo familiar preconizado pelas legislações:
O movimento feminista, a introdução da mulher no mercado de trabalho, a pílula anticoncepcional, a liberação sexual, o “milagre econômico”, o desenvolvimento industrial urbano e a abertura para o consumo. 
Esses fatores irão se refletir nas decisões jurisprudenciais e nas
propostas de reformulação do Código Civil. 
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NOVOS ARRANJOS E A DIFUSÃO DAS PRÁTICAS PSICOLÓGICAS
“Nesta nova família, cabe à dona de casa buscar uma certa independência do marido, ter sua renda própria, seu próprio carro, além de procurar abandonar o ar de matrona ao qual os filhos e o casamento a condenavam” (Russo, 1987:195)
O homem desvincula-se, ao menos idealmente, do papel tradicional de “machista”, cuja relação privilegiada com o trabalho fora de casa e com os próprios interesses sexuais deixa de ser exclusividade de seu gênero. 
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NOVOS ARRANJOS E A DIFUSÃO DAS PRÁTICAS PSICOLÓGICAS
A tradição e a rede familiar cedem lugar às individualidades e seus prazeres correlatos, de modo que se torna necessário o exame de si mesmo para que as relações entre homens e mulheres, maridos e esposas, pais e filhos possam ser negociadas a todo e qualquer momento.
É nesse contexto que explode o sucesso das práticas terapêuticas. 
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NOVOS ARRANJOS E A DIFUSÃO DAS PRÁTICAS PSICOLÓGICAS
Todo esse panorama de mudança nos anos 70 torna extremamente frágil não apenas os deveres correlatos entre os sexos, mas também o ideal de indissolubilidade do casamento. 
Sobre o fim do casamento: pressão política dos militares (pag. 60). 
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DA LEI DO DIVÓRCIO À CONSTITUIÇÃO
Lei do divórcio: 26 de dezembro de 1977. Regulamenta a dissolução da sociedade conjugal e do casamento.
Essa lei abole o termo “desquite” e estabelece a possibilidade de somente um divórcio por cidadão, para aplacar a oposição da Igreja Católica. 
Quanto à guarda dos filhos no caso de divórcio, ela é conferida a apenas um dos genitores, cabendo ao outro o direito à visitação e ter os filhos em sua companhia. 
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DA LEI DO DIVÓRCIO À CONSTITUIÇÃO
A guarda dos filhos menores fica com o cônjuge “inocente” na separação, mantendo o sistema vigente de definição de guarda a partir da “falta conjugal”.
Se pela separação forem responsáveis ambos os cônjuges, os filhos menores ficam em poder da mãe, a não ser que ela tenha comportamento reprovável do ponto de vista moral.
O privilégio da maternidade, acabava gerando dificuldades para o exercício da paternidade, ou afastando o homem da esfera de influência sobre os filhos. 
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DA LEI DO DIVÓRCIO À CONSTITUIÇÃO
Com a Constituição Federal de 1988, o concubinato passa a adquirir proteção do Estado, na condição de união estável.
O conceito de família se amplia na medida em que passa