Direito Penal Allemão Dr. FRANZ VON LISZT TOMO I 1899 - bd000147
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Direito Penal Allemão Dr. FRANZ VON LISZT TOMO I 1899 - bd000147


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a 
influencia de um meio social deletério. E' que os neurasthenicos, 
irritadiços, apaixonados, não tendo bastante força de resistência, 
não estão tão bem apparelhados para o sbruggle for li/e quanto os 
indivíduos dotados de um systema nervoso normal. 
Neste sentido deve-se admitir que a degeneração hereditária 
ou adquirida é um dos factores biológicos do crime. 
«A me pare, diz com razão Aliniena, che la degene-
razione\u2014come causa predisponente, che ora non fa resis-tere 
ali'impulso, ora produce 1'irritabilità, ora impedisce la vita 
tranquilía e il lavoro onesto \u2014 sia il fattore piá tristamente 
fecundo dei delitti, e non solo dei delitti straordinari e terribili, 
ma anche di quei delitti piccoli, volgari e frequenti, che, per la 
società, sono come le gooce d'aqua che bucano la pietra» ("). 
A politica criminal e social, a pratica judiciaria e a sciencia 
penitenciaria não podem mais perder este facto de vista! 
Vejamos agora quaes são as idéas do autor do Tratado sobre 
este ponto de tanta magnitude. 
Segundo a opinião de v. Liszt, não pode haver um typo 
anthropologico unico do homo ãelinguens. 
O delinquente de occasião é um homem como os 
outros. Estará alguém isento de ceder a uma forte tenta 
ção ? Não se pode pois suppor que em taes delinquentes 
existam atypias. '\u2022*»* 
Nos delinquentes que o são por indole, si a, tendência ao 
crime foi adquirida, certamente as vicissitudes da vida hão de ter 
impresso vestígios no corpo como n' alma. Nestes casos é 
possível haver um typo profissional, com-quanto não o 
possamos determinar com certesa scientifica. 
Si a tendência ao crime é innata, como a causa do adicto 
existe quasi exclusivamente na individualidade do delinquente, 
esta deve distinguir-se da individualidade da media dos homens 
por indícios atypicos. Mas as investigações da antropologia 
criminal, com quanto revelassem numerosas atypias, não 
puderam encontrar o typo procurado. 
(») DeWImputabUità, 1? vol., pag. 234, 
\u2014 
PREPA.OIO DO TRADUTOR XLV1I 
Após um exame scientifico imparcial, essas numerosas 
atypias nos apparecem sob uma outra luz. 
«Não as encontramos somente nos delinquentes, senão 
tambem nos simples de espirito, nos loucos, nos epilépticos, nos 
aventureiros e até nos indivíduos intelle-ctualmente prendados, 
posto que talvez em uma só direcção. São ainda relativamente 
numerosas em mais de um dos povos que se chamam «primitivos», 
chegados na verdade ao ponto de desenvolvimento do velho que cae 
em caducidade... 
«Quem examina os factos sem opinião preconcebida não pôde 
duvidar um momento de que se trata, em todos esses casos, de 
degeneração hereditária. Ao mesmo tempo desapparece o typo do 
delinquente nato: está com-prehendido na noção do homem 
degenerado hereditária-mente e por isso mesmo affectado de atypias. 
Desapparece tambem a tendência innata ao crime : está compre-
hendida na noção de neurasthenia, de enfraquecimento da força de 
resistência do systema nervoso central, que é a essência da 
degeneração hereditária sob o ponto de vista psycho -physiologico. » 
A sua conclusão é que, entre os delinquentes por natureza, ha 
relativamente um grande numero de degenerados, sobretudo de 
individuos marcados pela hereditariedade. 
Este resultado é, ao seu ver, de uma importancia pratica 
immediata para o legislador, como adiante veremos (*\u2022). 
*** 
Completando a theoria de Lombroso que, pela natureza de 
seus. estudos, poz em relevo os factores orgânicos do crime, sem 
ligar egnal importancia aos factores sociaes, 
Ferri fez vêr que o crime é a resultante do concurso 
simultâneo e indivisivel, quer das condições biológicas do 
criminoso, quer das condições do meio, onde nasce, vive I e opera. « 
Considerando, diz-nos elle, que as acções humanas, honestas ou 
deshonestas, sociaes ou anti-sociaes, são sempre o producto do 
organismo physio-psychico e da atmosphera physica e social, que o 
envolve, distingo os factores anthropologicos ou individuaes do 
crime, os factores physicos e os factores sociaes» ("). i ú 
(M) Relatório apresentado ao Congresso de anthropologia crimi-
nal de Bruxellas, pag. 91. 
(**) La Socwtogie Grimmelle, pag. 160. 
XLVlfí TRATADO DE DÍBEITO PENAI. 
Qual destas três ordens do condições é a que prepondera ou 
tende a preponderar na producção dos crimes f 
Em sua opinião, o valor de cada uma destas três causas 
nataraes do crime é relativo, poisque cada uma delias exerce 
maior ou menor influencia na determinação de um crime dado 
em tal ou tal momento da vida individual e social ("). 
Com isto o illustre autor da Sociologia Otiminale não 
resolveu o problema nem poz a escola a que pertence a salvo da 
arguição de não ligar ás causas sociaes do crime a importancia 
que lhe deve ser dada. 
A influencia social não é somente a que se exerce em tal ou 
tal momento da vida individual e social ; é o conjuncto das 
influencias provenientes do meio que actuam não só sopre toda a 
vida do individuo desde o seu nascimento, como ainda que 
actuaram sobre os seus antepassados, em tanto quanto 
determinaram a degeneração transmittida á nova geração. 
Não se trata de uma questão concreta, isto é, relativa a um 
crime dado em um momento dado da vida social, caso em que se 
pode ligar um valor relativo aos diversos factores do delicto e 
até reconhecer a preponderância do factor biológico, como 
acontece com os criminosos por indole, quando o penchant au 
crime está inveterado. Trata se sim de uma questão abstracta, 
isto é, relativa á criminalidade em geral. Sob este ponto de vista 
a resposta não é duvidosa : são os factores sociaes que 
preponderam. 
Tomemos os criminosos por indole innata ou adquirida, os 
quaes de ordinário saem das baixas camadas populares. A 
hereditariedade de pães exgotados, alcoólicos, degenerados, a 
má alimentação que na infância é só por si causa de anomalias 
na conformação do craneo e de diversos estados de degeneração, 
a ausência da educação moral, a influencia deletéria, pelo 
contrario, do exemplo domestico, as más companhias, a miséria 
económica e tantas outras relações sociaes são próprias a 
impellir o individuo para o caminho do crime ; não só 
fortalecem as tendências criminosas como as criam. 
Os mesmos factores physicos ou cósmicos não escapam aos 
effeitos de causas sociaes. Basta considerar que nas mesmas 
regiões e sob a influencia do mesmo clima, das 
PREFACIO DO TRÀDTJOTOR XLIX 
mesmas estações, etc., os povos passam da barbaria para Ia 
civilisaçâo, e no curso do seu desenvolvimento, assim como 
variam enormemente as suas condições de existência, idéas e 
costumes, variam tambem as causas da criminalidade. As 
estatísticas accusam que nos paizes da Europa em geral a 
criminalidade diminue do sul para o norte no sentido directo da 
marcha da civilisaçâo. 
Concluamos pois com Alimena : «na evolução humana os 
factores sociaes tendem a tornar-se sempre mais predominantes, e, 
portanto, tambem nos crimes» (*). 
Um dos traços característicos da terza scuóla é justamente 
esta afnrmação do predomínio do factor social na determinação da 
criminalidade. Nesta parte a differença das intuições das duas 
escolas tem um enorme alcance social. Para uma, o crime é uma 
fatalidade orgânica ; para a outra, com modificar-se o meio social 
pode-se supprimir ou enfraquecer a influencia dos factores bioló-
gicos. «Ao fatalismo immobilisante da theoria anthro-pometrica, 
diz Lacassagne, oppomos a iniciativa social. Si o meio social é 
tudo, e si elle é tão defeituoso que favoreça a expansão das 
naturezas viciosas ou criminosas, sobre esse meio e suas 
condições de funccionamento é que devem versar as reformas. Les 
sociétés ont les crimmels qvfélles mêritent» (*'). m São estas as 
idéas de v. Liszt. 
Ao seu ver, só é possível lutar contra o delicto por uma 
acção positiva sobre os factores que