Direito Penal Allemão Dr. FRANZ VON LISZT TOMO I 1899 - bd000147
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um principio 
superior; o mesmo criminoso pode pertencer a diversas 
categorias. 
Foi Wahlberg quem assignalou a distincção dos criminosos 
em dois grupos, os criminosos de occasião ou por habito. Esta 
classificação já clássica é aceita por v. Liszt; mas elle a corrige, 
quer quanto ao modo de cara-cterisar os dois grupos, quer 
quanto ás denominações. 
Na primeira categoria entram os delinquentes que, no 
momento do facto, succumbem a poderosas influencias exteriores. 
As circumstancios exteriores que dão occasião ao delicio 
preponderam. A inesperada miséria económica e os males que 
delia resultam para a família, um lucro âttra-ctivo e uma occasião 
favorável (furto), a vergonha (infanti- 
3<? 
(&quot;) La sociologie crimmelle, p. 98. Ver a exposição dessas 
classificações na Nova Escola Penal do Dr. Viveiros de Castro. 
IX TftATADO DE DIREITO fENAL 
cidio), uma injuria cruel (homicídio da esposa adultera), j a 
excitação proveniente do abuso do alcool, podem levar ao crime 
indivíduos até então honestos (criminalidade aguda). 
Sem duvida, a individualidade do agente deve tornai o 
susceptível de uma influencia exterior, pois somente quando essa 
relação existe é que taes causas podem provocar o crime. Mas a 
individualidade do delinquente de occasiâo não se distingue 
essencialmente da da media dos homens. 
« O crime \u2014 e é esta a circumstancia decisiva \u2014 não se 
produz como consequência de uma tendência criminosa 
desenvolvida e arraigada. E' um episodio na vida do agente. 
Apenas commettido, affigura-se-lhe como uma cousa extranha e 
inexplicável. Eis porque o delinquente se arrepende e na maior 
parte dos casos confessa. Eis porque tambem, ás mais das vezes, 
elle dá a segurança de que o acto ficará isolado; com effeito, as 
mesmas circumstancias exteriores raramente se reproduzem. E 
ainda quando se reproduzissem, a lembrança do acto e de suas 
consequências daria ao delinquente solicitado de novo a força de 
resistir á sua tendência criminosa» (48). 
O segundo grupo compõe-se dos deliuquentes, cuja 
individualidade, pelo contrario, prepondera sobre as circum-
stancias exteriores (criminalidade chronica). Não é a occasiâo 
que faz o ladrão, é o ladrão que cria e provoca a occasiâo, as 
circumstancias exteriores, si ellas não se apresentam por si 
mesmas; e, dada uma occasiâo externa fútil, «o crime resalta, 
digamos assim, da Índole, das disposições arraigadas do 
delinquente e nos revela a sua natureza intima: rudeza brutal, 
crueldade destituída de toda sensibilidade, estúpido fanatismo, 
descuidosa leviandade, invencível repugnância ao trabalho, 
desregrada sensualidade levam o agente por numerosas phases de 
transição a situações indubitavelmente psychopathicas.» 
Por isso mesmo o delinquente nada vê de estranho no acto 
que pratica; o que nelle vê é o mais profundo do seu eu e não se 
arrepende. Eis tambem porque devemos esperar a repetição do 
acto, caso a individualidade do delinquente não soara uma 
influencia que a mude (*&quot;). 
Assim um desvio occasional da ordem jurídica e a 
(«) AciesdudeuxibmeCongtls <VAnthrõpologie Criminèlle,ps. 91-96. 
(&quot;) Actos, l. c. 
PREFACIO DO TRADUOTOR LXI 
revolta convertida em segunda natureza, uma perturbação 
passageira das representações que refreiam os máos impulsos com 
o consequente enfraquecimento da força de resistência contra 
tentações vindas de fora ou a tendência ao crime mais ou menos 
profundamente arraigada, são as duas linhas extremas entre as 
quaes se acham todas as gradações da natureza psychica do 
criminoso, tal como se manifesta no momento do facto e pelo 
facto mesmo. 
A denominação \u2014 criminosos de occasião \u2014 dada aos do 
primeiro grupo é equivoca e fora melhor evital-a. Não é criminoso 
de occasião quem furta, fere, attenta contra o pudor, insulta o 
adversário, falta ao cuidado que a profissão exige em qualquer 
occasião ou na primeira que se lhe offerece. O autor a substituiria 
pela denominação \u2014 criminosos momentâneos (Augenblicksver-
brecher). 
Quanto á denominação dada aos delinquentes do segundo 
grupo, essa é falsa e induz em erro. O penchant §au crime liga-se 
estreitamente ao habito, mas não se confunde com elle. Sem 
duvida pode originar-se de uma repetição habitual do acto, mas 
pode existir no momento do primeiro commettimento e ainda 
antes delle. Em um e outro caso o crime é a expressão fiel, a 
imagem reflectida da individualidade. Assim os criminosos de 
profissão, os que exercem o crime como um officio que os 
alimenta muitas vezes melhor do que o trabalho honesto, nem 
sempre o fazem por um habito inveterado, e sim por uma 
opposição consciente á ordem jurídica, a qual tem origem na 
própria Índole. A denominação apropriada aos delinquentes desta 
classe é a de delinquentes por natureza, por índole 
(ZvManãverbrecher). 
Os delinquentes por natureza se subdistinguem em 
corrigíveis e incorrigíveis, conforme o seu estado fôr ou não 
susceptível de cura. 
A profunda differença entre os delinquentes momentâneos e 
os delinquentes por natureza, resultado fecundo dos estudos da 
criminologia, é fundamental e deve ser utílisada pela legislação 
penal. 
«Nesta classificação dos delinquentes, diz o autor, temos 
achado a base procurada para todo o systema da Politica criminal. 
« Si a missão da Politica criminal é defender a ordem 
jurídica contra a criminalidade, a medida da pena deve ser 
determinada pela attitude do delinquente em face da ordem 
jurídica e consequentemente pelo seu caracter 
 
Lxn TBATADO DE DIREITO PENAL 
jurídico (ou mais exactamente weial), «o maior ou menor 
perigo que d'ahi resulta para o direito» (**). 
O autor se colloca pois, quanto ao critério para ai medida da 
pena, sob a bandeira da escola italiana \u2014 a tcmihiUtá do 
delinquente. 
Cumpre porém distinguir entre a temibiltiá subjectiva] e a 
temibilitá objectiva, distincçao que, comquanto o autor não tenha 
feito explicitamente, decorre de sua doutrina. 
A pena que o juiz mede foi primeiramente fixada! pelo 
legislador. Aquelle tem de fazer im concreto a operação que este 
fizera in abstracto. O legislador estabelece para cada norma ou 
grupo de normas a sua sancçfto penal ; o ju'z decreta uma pena 
qualitativa e quantitativamente determinada para cada delicto 
dado. 
A questão do critério para a medida da pena pede 
que consideremos os effeitos da pena, como coxuminação 
e como execução. 
«Advertindo e intimidando, diz o antor, a comminação da 
pena acerescenta se aos preceitos imperativos e prohibitivoR da 
ordem jurídica. Ao cidadão de intenções rectas, ella mostra, sob 
a forma mais expressiva, o valor que o Estado liga aos seus 
preceitos ; aos homens dotados de sentimentos menos apurados 
ella põe em perspectiva, como consequência do acto injuridico, 
um mal, cuja representação deve servir de contrapeso ás ten-
dências criminosas». 
C*) Diepsyc/iologischen OrutuUagen der KriminttlpolUik, Z., 4, 16. 
O autor relaciona esta classificação dos criminosos com uma clas-
sificação psychologioa dos crimes em oito grupos, tendo por base, não os 
motivos ou instinctos (base de ordinário preferida), mas as qualidades 
psychiea» doa delinquentes 
Esta ultima classificação, o autor confessa, não se presta a ser 
immediatamente utilisada pela Politica Crminal, já porque nenhuma das 
qualidades enumeradas conduz necessariamente ao crime, já por-j que cada 
grupo não é susceptível de uma única apreciação moral; pelo que não se pode 
determinar a medida da pena segundo a inclusão do facto em um cu outro dos 
grupos. Certo 6 porém que a qualidade do criminoso característica de cada 
grupo pode ser ou o resultado de circunstancias exteriores momentâneas e 
passageiras ou a expressão de um estado permanente. 
f Toca á psychologia criminal dar-nos uma descripção completa da 
criminalidade, de que a classificação