Direito Penal Allemão Dr. FRANZ VON LISZT TOMO I 1899 - bd000147
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Direito Penal Allemão Dr. FRANZ VON LISZT TOMO I 1899 - bd000147


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da 
escola positiva do direito penal. 
A these determinística está comprehendida nesta fórmula 
dada por Hobbes : libertas rum est volenãi, sed quce vólumus 
facienãi. Não temos a liberdade de querer, mas temos a liberdade 
de fazer o que queremos. 
O indeterminismo, pelo contrario, affirma que o homem tem 
a faculdade de determinar-se sem motivo ou de escolher 
indifferentemente entre os motivos que o im-pellem a agir. A sua 
concepção não é psychologica, mas methaphysica: a vontade, isto 
é, uma idéa abstracta realisada como poder independente, vem a 
ser um ens a se, nma causa inicial sem causa, e portanto uma 
força que se desenvolve fora de todo nexo causal e de toda rela-
tividade humana, o absoluto no infinitamente pequeno e no 
infinitamente condicionado! 
A these determinística é antes de tudo uma applicação aos 
actos voluntários da lei da causalidade, a qual tem sido 
reconhecida valida em todo o universo até onde alcança a nossa 
experiência. Si a regra na natureza é a uniformidade, delia não se 
podem exceptuar as acções 
________ 
(w) La theoria deWimputabilità e la negazione dei libero arbitrio. 
LXX TRATADO DE DIBEITO PENAL 
humanas, sem a prova experimental de que toes acções não têm 
causas. 
Ora, até o presente o exame psychologioo doa actos 
voluntários, longe de restringir, confirma a applicação da regra ao 
mundo moral. A analyse do phenomeno da volição feita pelos 
cultores da psychologia experimental, osj Bains, as Wundts, as 
Bibots, mostra que a nossa vontade é a nossa actividade dirigida 
conscientemente para uma certa direcção, sob a influencia que os 
motivos exercem em um momento dado sobre o nosso eu. Si nm 
só motivo] nos solicita a agir na ausência de todo motivo em con-
trario, a volição segue-se immediatamente; si concorrem diversos 
motivos que se contrabalançam, o conflicto cessa pelo 
predomínio de nm dellese esse determina a volição. «A hesitação 
que precede a volição, diz Wnndt, mostra somente que em casos 
numerosos a vontade se acha sob a acção simultânea de muitas 
cansas psychologicas que se esforçam por attrahil-a para diversas 
direcções; si essas cansas não actuassem sobre a vontade, ama 
hesitação não se poderia produzir; e si a vontade cede finalmente 
a uma cansa, isto prova que essa causa exerceu o effeito o mais 
enérgico» (\u2022). «Vários motivos, confirma Bain \u2014 sejam prazeres 
ou dores presentes* ou em perspectiva\u2014concorrera para impellir-
nos a agir; o resultado do conflicto mostra que um grupo de 
motivos é mais forte do que o outro, e eis ahi todo o facto da 
escolha» ("). 
Donde se conclne com Stnart Mill que as nossas volições 
são effeitos moraes que seguem as suas causas moraes de um 
modo tão certo e invariável quanto os effeitos psychicos seguem 
as suas causas physicas ("). 
Sem essa lei da uniformidade o caracter individual seria 
inexplicável; pois o caracter suppõe disposições, tendências 
innatas ou adquiridas, um certo modo de pensar e de sentir e por 
consequência a persistência e a regularidade da influencia que os 
motivos exercem sobre esse conjuncto de causas psychologicas. 
O caracter é, j como se tem dito, a personalidade psychica e 
moral do individuo. Cada qual pode predizer as suas acções, 
quando 
(*°) Grundzúge der physiol. Paychologie, vol. 2?, cap. 20, v. (\u2022') 
Emotions and Will, p. 488. 
(*) _0 indeterminismo funda-se egualmente sobre a bypothese de uma 
creação ou destruição de força, e portanto tambem vae de encontro a uma 
outra lei universal, a da conservação e transformação das] forças. 
i 
 
 
PREFACIO DO TRADUTOR LXXI 
conhece o sen caracter, e nas relações sociaes é somente pelo 
conhecimento que temos do passado dos outros que podemos 
predizer a conducta alheia no futuro ou em um momento dado. «In 
pratice human conduot is assumed as uni forni: free will a 
metaphysical puzzle» (Bain). 
Não pareça fora de propósito lembrar aqui como esse 
metaphysical puzzle se introduzio na philosophia. Foi isto devido a 
preocupações religiosas: o livre arbítrio veio como solução de um 
problema theologico. 
Dois pontos eram dados na theologia christã. Deus creou o 
homem e por isso o homem devia ser originariamente bom. For 
outro lado não é menos certo \u2014 a redempção o suppõe'\u2014que o 
homem é por sua natureza máo. Ora, o mal não podia vir ao 
mundo por Deus seu creador. Não veio de fora, porque fora de 
Deus e do mundo nada ha. Logo só podia ter vindo pela creatura 
mesma. Mas como pôde a creatura ser diversa do que foi feita pelo 
seu creador ? E aqui está o ponto em que a liberdade metaphysica 
da vontade se apresenta como solução. Deus deu ao homem 
vontade livre, para que elle por si mesmo se decidisse pelo bem, 
pois não ha moralidade sem livre resolução, e o homem se decidio 
pelo mal; Adão peccou. Assim o mal veio ao inundo, não por 
Deus, mas pelo homem, postoque com o consentimento de Deus 
(°3)- 
Não apuraremos si mesmo no ponto de vista theologico esta 
solução é satisfactoria e resolve a difficuldade; p. Agostinho, 
Luthero e tantos outros doutores em theologia entenderam que não 
pelo facto de seguirem o determinismo. Certo é porém que a 
difficuldade surge de outro lado. Gomo conciliaes o livre arbítrio 
com a presciência divina 1 A conciliação é impossível! « Tenons 
donc, recom-menda Bossuét, ces déux vérités ( a presciência 
divina e o livre arbítrio) pour indubitables, sans en pouvoir jamais 
être determines par la peine que nous aurons à lesconcilier 
ensemble...» (M) 
O indeterminismo apresenta-se sob duas formas. O 
indeterminismo absoluto é a liberdade de querer inde-
pendentemente de todas as condições internas e externas, tendo o 
seu unico fundamento no poder da vontade. E' o 
9< 
(\u2022») &quot;Ver Paulsen, System der Ethik, 1.° vol., pag. 413. (\u2022*) 
TraiU du libre arbitre. 
4 
tXXII TRATADO DE DIREITO PENAL 
liberum arbttrium inãiferentite dos cartesianos, que Fénélon tão 
bem expressa neste trecho frisante: 
«Quand je veux une chose, je suis maitre de ne la vouloir 
pas. Je sais que j'ai uu vouloir à deus tranchants qui peut se 
tourner à son choix vers le oui ou le non. Je ne connais point 
d'autre raison de mon vouloir que mon vouloir même. Eien n'est 
tant en ma puissance que de vouloir ou de ne pas vouloir. Les 
objecte peuveut me solliciter à les vouloir ; les raisons de vouloir 
peuvent se présenter à moi avec ce qu'elles ont de plus vif et de 
plus touchant. Le premier être (Dieu) peut aussi m'at-tirer par ses 
plus persuasives inspirations, je demeure le maitre de ma volonté 
pour vouloir ou ne vouloir pas » (&quot;). 
Este poder mysterioso, que «vem do nada, que não têm 
começo, que não segue regras, que não attende ã tempo ou a 
occasião,» poder absoluto e caprichoso que, si existisse, 
introduziria o cahos e a anarchia na vida individual como na vida 
social, tornaria impossível a estatística moral como a historia das 
nações, está em diametral opposição aos factos, é muito 
repugnante para ser admittido. Kant, Schelling, Schopenhauer o 
relegaram para o mundo dos noumenons, das comas em si, ao 
passo que no mundo dos phenomenos a vontade é deter* minada, 
opera segundo as leis do seu ser. Operori segui-tur esse. 
Fode-se considerar de facto abandonado o indeterminismo 
absoluto pelos criminalistas defensores do livre arbitro; o que 
elles seguem é um indeterminismo relativo, : attenuado e por 
assim dizer eccletico. 
Eis como Birkmeyer nos explica essa forma attenuada do 
indeterminismo: «a actividade oriunda da livre vontade não 
sofFre causa, da qual ella mesma proceda, mas soffre condições, 
sem cuja existência ella não se produziria... Essas condições são 
sempre produzidas em nós por outras forças, e tambem podem 
selo por outros homens ( instigação ). Em causas da vontade, 
isto é, em motivos, ellas só se podem converter por nós mesmos, 
pela própria força