Direito Penal Allemão Dr. FRANZ VON LISZT TOMO I 1899 - bd000147
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Direito Penal Allemão Dr. FRANZ VON LISZT TOMO I 1899 - bd000147


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Savigny, Dir. rom., Io, g 53). « A vida, a saude, a personalidade, dia 
Jellinek, não são objectos que o homem possua, são attributos e qualida-
des que constituem a sua individualidade; não entram na categoria do 
haver, mas na do ser. Em caso algum o sujeito pode ser objecto para si 
mesmo. « Eih Reeht hat man, Persònlichkeit ist mau » (System der subj. 
òffentl. Rechte, p. 73). \u2014 O crime é pois simplesmente a offensa de um 
interesse juridicamente protegido, e todo interesse desta natureza pôde 
ser protegido pela lei penal. A idéa do interesse, do bem jurídico, e não a 
do direito subjectivo, é que é indispensável ao direito penal, e por isso 
com razão os criminalistas modernos, como Merkel, v. Liszt, Bihding e 
van Hamel, a põem no primeiro plano. N. do trad. o i 
96 TRATADO DE DIREITO PENAL 
cumscripção da efficiencia de cada um, a protecção de 
certos interesses e a não protecção de certos outros. 
2.° \u2014 A vontade geral, que paira acima da vontade 
individual (b), toma a si esta missão, e a desempenha 
estabelecendo a ordem jurídica, isto é, discriminando os 
interesses legitimos e autorisados dos que não o são. 
O direito extrema os círculos da efficiencia de cada 
um; determina até onde a vontade pode mani-festar-se 
livremente, e sobretudo até onde, exigindo uma acção 
ou inacção alheia, pôde penetrar na esphera da 
actividade de outras pessoas; garante a liberdade, o 
poder autorisado de querer, e prohibe o arbitrio; 
converte as relações da vida em relações jurídicas, os 
interesses em bens jurídicos; ligando direitos e deveres a 
determinados presuppostos, faz do commercio da vida 
um commercio segundo o direito. Assim, ordenando e 
prohibindo, prescrevendo uma determinada acção ou 
inacção sob certas condições, as normas vêm a ser o 
anteparo dos bens jurídicos. A protecção, que a ordem 
jurídica dispensa aos interesses, é "protecção segundo 
normas (Normen-scliutzj. O bem jurídico e a norma são, 
pois, as duas idéas fundamentaes do direito (2). 
(*) A vontade geral, do que fala o autor, nada tem de commum 
com a volonté génêrale do Contraet s ciai; não é a vontade das maiorias 
ou uma som ma qualquer de vontades individuaes, mas a vontade do Es* 
todo, aquella que se forma e se manifesta pelos seus orgãos conslitucio-
naes. N. do trad. 
('; O nosso ponto de partida em relação á tbeoria geral do direito 
é consequentemente o mesmo de Binding; mas logo se separam os nossos 
caminhos. Binding, 1.°, 155, sem ter mais em attehção o bem jurídico,; 
para cuja protecção a norma é chamada, do um modo extremamente par-
cial o arbitrário faz da idéa da norma a pedra angular de todo o systema 
do direito penal. Ver v. Liszt, Z., G ", 668, 8.8, 184. Nio raro teremos 
LINEAMENTOS DE POLITICA CRIMINAL 97 
II. \u2014 Mas o direito não é somente uma ordem de 
paz, senão tambem, e segundo a sua mais intima 
natureza, uma ordem de combate. Para preencher o seu 
fim, o direito precisa de força que curve as vontades 
individuaes reluctantes. Por traz da ordem pacifica das 
relações da vida está o poder publico, o qual dispõe da 
força necessaria para reduzir os recalcitrantes á 
obediência de suas normas e tornar uma realidade, onde 
se fizer mister, a ligação lógica entre o facto e os seus 
effeitos jurídicos. Um novo momento manifesta-se 
assim na idéa do direito, a coacção, e esta se nos 
apresenta sob três formas principaes: 1.° como 
preenchimento obrigado do dever jurídico (execução 
forçada); 2.° como restabelecimento da ordem 
perturbada (índemnisação); 3.° como punição do 
desobediente. 
i Indagaremos adiante (§ 43) em que casos cabe este 
meio de guardar a ordem jurídica, que. com- 
ensejo de voltar ás consequências que Binding tira da sua concepção fun-
damental. Neste logar apenas indicaremos em termos breves a parte essencial 
da «theoria das normas ». \u2014 O criminoso não infringe a lei penal, mas a 
norma, o preceito imperativo ou prohibitivo que serve de fundamento á 
qualificação do facto pela lei penal. As normas são preceitos juri-j dicos 
independentes e que pertencem ao direito não estatuído, e são preceitos, não do 
direito penal, mas do direito publico. « A norma ê umii ordem pura o simples, 
não motivada, e sobretudo não motivada sob com-minação de pena.). 
(Binding, 1.°, 164). Lei penal, porém, é toda disposição jurídica, «segundo a 
qual de um determinado delicto resulta ou deixa de resultar um direito ou um 
dever de punir» (1.°, 175), As normas são preceitos jurídicos que obrigam 
primariamente (1.°, 183). O dever de obediência acha-se em face do direito á 
observância da norma, do direito á sujeição. A lei penal, pelo contrario (1.°, 
191), não éuma ordem, mas uma disposição que autorisa a punir, e que, nu 
verdade, estabelece e regula uma relação jurídica entre o criminoso e quem 
está investido do direito de punir. Nesta distineção da norma e da lei penal 
funda-se a distineção do delicto e do crime. Delicto é a transgressão culposa da 
98 TRÃTÃDÕ DE DIREITO PENAL 
quanto seja de todos o mais enérgico, não deixa de ser 
mediato \u2014 a punição daquelle que infringe as normas do 
Estado. Aqui tratamos somente de deter^ minar o logar 
que a pena occupa no systema jurídico e de assignalar, 
des farte, a importancia especial] do direito penal. 
III. \u2014 Si a missão do direito é a tutela de interesses 
humanos, a missão especial do direito penal] é a 
reforçada protecção de interesses, que principal'] mente 
a merecem e delia precisam, por meio da conú minação e 
da execução da pena como mal infligido ao] criminoso. 
Advertindo e intimidando, a comminação penal] 
accrescenta-se aos preceitos imperativos e prohibi-tivos 
da ordem jurídica. Ao cidadão de intenções rectas, ella 
mostra, sob a forma mais expressiva, o valor que o 
Estado liga aos seus preceitos; aos homens dotados de 
sentimentos menos apurados ella 
norma, crime o cõnjuncto de circumstancias a que se liga a pena. Com esta 
distincção, sem duvida insustentável em face do direito vigente, a « thcoria das 
normas » de Binding obtém a base em que se firma para] chegar a uma serie de 
consequências ulteriores que aqui ainda não nos] interessam. \u2014 O vicio capital 
da thcoria está na concepção puramente formal do delicto como offensa ao 
dever de obediência (Normen, 1.°, § 45) com o que a direcção do crime contra 
as condições de existência da eolle-ctivídade humana ordenada segundo o 
direito fica completamente na sombra (°). 
(°) Nesta nota o autor resume admiravelmente a « theoria das normas» 
de Binding, e ao mesmo tempo, n'uma simples phrase, assignalaJ o seu vicio 
capital. Prescindindo, porém, do desenvolvimento dado por Binding á tbeoria 
das normas e dos pontos de doutrina que lhe são espe-ciaes para termos em 
attenção somente a idéa fundamental, certo é esta) uma dessas verdades 
simples que, uma vez achadas, illuminam a sciencia e não podem ser mais 
esquecidas.\u2014As disposições penaes contêm ou regras geraes sobre a 
responsabilidade criminal ou declaram quaes são as acções puníveis e as 
respectivas penas. Nesta ultima categoria de dís- 
 
LINEAMENTOS DE POLITICA CRIMINAL 99 
poe em perspectiva, como consequência do acto in-
juridico, um mal, cuja representação deve servir de 
contrapeso ás tendências criminosas. 
Mas é na execução penal, na confirmação da von-[ 
tade da ordem jurídica pela coacção resultante da §pena, 
que esta desenvolve toda a sua força peculiar. I Nesta 
parte o Estado não recua diante das lesões mais graves e 
mais reaes dos bens dos seus súbditos, \u2014 a vida, a 
liberdade, a honra e o patri-1 monio, ou diante de um 
regimen que affecte profundamente o criminoso e se 
prolongue, não só por dias, semanas e mezes, senão 
tambem, quando se faz necessário, por annos e dezenas 
de annos. Vários são os effeitos da execução penal, e 
valiosíssimos, por isso mesmo que podem ser combinados 
ou isolados. 
A execução