TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899
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TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899


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é 
sempre acção violenta sobre a matéria, é sempre meio 
material, e nunca, considerada em si, acção sobre a vontade 
ou coacção. Sem duvida, a violência deve ser meio para 
fim, isto é, deve servir para influenciar o exercício da 
vontade da pessoa a violentar j mas não deixa por isso de 
ser força physica brutal. Assim, a violência pôde ser 
applicada immediatamente contra o corpo da pessoa que se 
quer violentar (violência á pessoa) ^ e pôde dirigir-se ao 
seu fim mediatamente (violência contra a pessoa). Isto é 
possível: 1.°, pela violência feita a terceiros, por exemplo, 
ao conductor do cego; 
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2.°, por violência feita a cousas, por exemplo, des-
truição de um passadiço, de uma carruagem de viagem, 
subtracção dos remos de um barco, tirar| dos gonzos 
portas e janellas para obrigar os moradores a largar a 
casa (l). A violência é irresistível j (art. 52 do C. p.), 
quando impossivel é oppor-lhe resistência. 
2.° A ameaça, isto é, a perspectiva de um mal que 
supprima ou restrinja a livre manifestação da vontade. 
Como mal pôde ser considerada a cobrança judicial de 
uma divida, a denuncia dada ao ministério publico, 
uma communicação ao parente, uma publicação pela 
imprensa etc. Considerada em si, a causação do mal 
pôde ser conforme ou contraria ao direito; a promessa 
de uma acção punivel é apenas uma das espécies 
da ameaça. A modalidade mais grave é a ameaça de 
um perigo actual para o corpo ou vida. Não é 
necessário que a ameaça seja séria, isto é, que 
quem a faz pretenda executal-a ou que a execução 
seja possivel \ (ameaçar enfeitiçar, ameaçar com uma 
arma descarregada) ; ella, porém, deve parecer séria ao 
ameaçado, de sorte que seja apropriada a actuar sobre a 
reso- j lução d'este, e o agente deve ter consciência 
de que a sua ameaça produz tal effeito. Também a 
| ameaça deve ser sempre dirigida contra a pessoa, 
cuja liberdade se pretende coagir, deve ser destinada 
e própria a influenciar o exercicio de sua vontade; 
mas não é necessário que o mal, destinado a exercer tal 
influencia, affecte immediatamente a pessoa de que 
se trata,\u2014pôde ser dirigido contra j cousas. A 
ameaça pôde ser enunciada expressamente ou por 
gestos (levantar o braço, apontar a 
(l) Também nestes dois casos deve a violência ser sentida pnysi 
camente pelo constrangido (doe, do Trib. do Imp. de 9 de Abril de 90, 
20, 854). 
CRIMES E DELICTOS OONTEA A UBERDADE 97 
arma etc.). A possibilidade da fuga ou da resistência 
não exclue a idéa de ameaça (2). 2j 
P 3."\u2014O artificio (3), o qual consiste em enganar 
outrem sobre a importância da acção como causa, e 
portanto em suscitar ou alimentar um erro em outrem, 
phantasiando-se, desfígurando-se ou supprimindo-se 
factos. Também o artificio pôde ser dirigido contra 
terceiros; pôde, por exemplo, induzindo em erro o 
funccionario publico ou o director de um hospício de 
alienados, servir de meio para a sequestrarão da 
liberdade (*). 
§ 98. \u2014 Historia dos crimes contra a liberdade 
LITTEEATUBA sobre o trafico de escravos. Gareis, HV., 
29, 553. Fuld, GS., 429, 35, v. Martitz, Archiv fiir Òfenfl. Éeckt, 19, 3. Leutner, Der Schwartze Koãex (o trafico de 
escravos africanos, o acto geral de Bruxellas de 2 de Julho 
de 1890 e o plano das suas medidas para a repressão do 
trafico criminoso, 1891). 
I.\u2014A concepção dos crimes contra a liberdade 
que acabamos de expor, e sobretudo o preciso assi-
gnalamento da liberdade individual como bem júri- 
(*) Cumpre lembrar que a violência, quando está em perspectiva 
a sua continuação, constituo ao mesmo tempo uma ameaça. 
(3) Não se distingue essencialmente da fraude e do ardil. NSo 
pensa assim Olshausen, g 234, 2. 
(*) Suscitam dificuldades o torpor, a embriaguez, a narcotisação, 
a hypnotisação etc. Taes meios são considerados sempre como artificio» 
por Hâlschner, 2.°, 243, Olshausen, g 234, 6, Schutze, 417, nota 9?, e 
sempre como violências por Binding, Normen, 2°, 626, nota 766, Herbst, 
\(i A, 26.°, 49, v. Lilienthal, Z, 7.°, 878, v. Meyer, 684, nota 18. Correcto 
é somente distinguir entre o estado de torpor produzido por violência 
(golpp sobre a cabeça), por ameaça (coagir a aspirar cbloroformio) e o que 
é produzido mediante artificio (engano sobre o efleito). Neste sentido 
também Schnabel, 30. 
T. n 7 
98 TRATADO DE DIREITO PENAt 
dico do cidadão, são essencialmente de origem mo-j 
derna. O crimen vis dos Romanos, com que a legis-
lação se occupou desde o fim da Republica em razão 
das commoções internas (lei Plotia, 665 a. u., as leis de 
Pompeu, César, Augusto), apezar da dis-tincção 
vacillante entre a vis publica e a vis privataA teve 
sempre caracter politico; por sua natureza intima, é 
perturbação da ordem publica, ainda quando o 
attentado se dirija contra particulares? Outro tanto 
póde-se dizer da vioiatio pacis publica? do direito; 
allemão. A' Carolina é estranha a idéa do crime contra 
a liberdade, e o direito commum não foi além de uma 
incertíssima e confusa applicaçao do crimen vis (b). 
O direito romano posterior (O. 9, 5, de prívatis 
carceribus inhibenâis, Zeno, 486) considerou a seques-
trarão como offensa aos direitos soberanos do Estado e 
deste modo influenciou a legislação territorial da 
Aliemanha até muito depois de entrado o século XIX 
(a Thereziana fala ainda em cárcere privado). 
No direito romano o rapto de homem fplagiumj \ 
só se tornou crime independente, quando uma lex 
Fobia (D. 48, 15, C, 9, 20), deoretada depois da guerra 
federal, comminou pena especial contra a re-ducção de 
pessoa livre á escravidão ou do escravo ao poder do 
delinquente. Constituições imperiaes posteriores 
aggravaram as penas a principio brandas; Constantino 
comminou mesmo a pena de morte. A edade média 
aliemã já punia o rapto de homem nas leis barbaras 
(por ex., a lex Bib., 16, vender para além das 
fronteiras), impondo o wergeld em toda a, sua 
plenitude ou mesmo um múltiplo do wergeld, e 
(M Sobre o crime de «assuada ou Força simples» em Portugal 
ver a Ord. Aff., 1. 5. tít. 45, Man., t. 51, Phil., tít. 46, e o interessante 
commentario de M. Freire ao 1.16 do seu C. Crim. Sobre cárcere pri-
vado, a Ord. Aff. 1. 5, t. 92, Man., t. 68, Pb.il., t, 95. K. do trad. 
ÍTfcIMES E DELICT08 CONTRA A LIBERDADE 99 
posteriormente também a pena de morte, pois as fontes 
ora equiparavam o capturar homem ao homicídio (Bsp. 
da Sax., II, 13, 5), ora designavam e tratavam esse 
crime como furto gravíssimo (Esp. da Suab., 227). No 
silencio da Carolina o direito commum teve de voltar 
ao direito romano, mas in-dividualisou de um lado o 
rapto de infante, e de outro a alligiaçâo ou plagium 
milifare, como casos qualificados, e ás mais das vezes 
ameaçados com a pena de morte. Faltou porém uma 
clara concepção de principios até depois de começado 
o século passado ; ainda J. S. F. Bohmer (e egualmente 
o direito bavaro de 1751) tratava o rapto de homem 
como caso de furto. 
II. \u2014 Assignala uma nova orientação o AUg. 
Lanãrecht prussíano, art. 1677: «quem detiver por 
violência, sequestrar ou forçar um homem a fazer 
alguma cousa contra a sua vontade.........» Desfarte 
e de accordo com a concepção da primitiva edadel 
média allemã (o ligare das leis barbaras), não sói 
consideravam-se a detenção e actos análogos como 
attentados contra a liberdade do individuo (cap. 13 \u2014« 
das offensas á liberdade»), senão também fir-mou-se 
claramente pela primeira vez a idéa do 
constrangimento. O movimento scientifico (Grolmann, 
Feuerbach, Tittmann) obedeceu a este impulso, e 
assim a separação entre o bem jurídico da «liberdade 
individual» e o da «paz publica» ficou' sendo uma 
acquisição imperecível para a legislação moderna.' 
III. \u2014 A campanha contra
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