TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899
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TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899


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entre os crimes contra 
a liberdade e os crimes contra a moralidade. O caso 
typico é o estupro. A' violência porém equivale o 
abuso da influencia resultante de relações es-peciaes, 
bem como o aproveitamento do erro ou da 
inexperiência da victima (seducção). 
2.° Além da liberdade sexual, a lei protege o 
sentimento moral do individuo (isto é, idéas moraes 
associadas com o sentimento) contra a offensa resul-
tante de acções de outrem impudicas e escandalosas 
(s). 
II.\u2014 A affinidade dos dois bens jurídicos, «li-
berdade sexual» e <c sentimento moral», e a homo-
geneidade das acções que offendem um e outro jus- 
(>) E' certo que o legislador, especialmente em relação £ libi-
dinagem contra a natureza, vae muitas vezes além d'este ponto de vista; 
mas essas invasões de caracter duvidoso em um terreno estranho ao 
direito não podem abalar a concepção exposta no texto. A favor delia 
ver especialmente Precone e Mainzer, 37. \u2014 A «moralidade publica » 
(Hãlschner, 2.°, 683) não é mais do que o sentimento moral de uma 
pluralidade indeterminada de individuos (equivocamente v. Meyer, 
974). 
(») Contra (de um modo equivoco) Scholl, Z, 18.°, 279. 
CRIMES E DELICTOS CONTRA A LIBERDADE 113 
tificam a reunião de todos os crimes contra a mo-[ 
ralidade em um só grupo. 
A pratica de uma acção impudica é a base 
commum aos crimes d'este grupo. Como tal consi- 
I dera-se toda acção que gravemente oífende o de 
coro no tocante ás relações entre os sexos, que 
I grosseiramente excede os limites que o costume do 
minante traça a taes relações. Como espécies da 
acção impudjica podem figurar, de um lado, a copula, 
isto é, a união natural das partes genitaes, e, de 
outro, actos análogos á copula, isto é, os que tendem 
I á satisfação do instincto sexual de um modo análogo 
ao coito. Si a acção porém não tem caracter sexual, 
não se pôde qualifical-a de impudica, apezar de ser 
1
 gravemente offensiva do decoro (do pudor); por 
exemplo, banhar-se nú, desnudar-se a mulher para 
servir de modelo ao artista. Si se pôde ver nas 
I descripções, nas representações artísticas ou scienti- 
I ficas um acto impudico, depende de concorrerem os 
caracteres objectivos e subjectivos da idéa; tal nunca 
I succede na verdadeira arte, como na verdadeira 
[ sciencia, embora a pruderie se escandalise ou a las- 
I civia d'ellas abuse para os seus fins (§ 108). 
I III.\u2014As intuições relativas á attitude do poder 
repressivo do Estado em face das oífensas contra a I 
moralidade tem passado em diversas epochas e entre i 
diversos povos por numerosas transformações. 
Abstracção feita de algumas disposições isoladas, 
I o direito romano deixou até o século VIII da cidade I 
ao poder do pater-familias e ás notas censórias a I 
repressão dos delictos contra a moralidade. Só quando [ 
a corrupção dos costumes, que se generalisou em \u25a0 
consequência do celibato e da repugnância á pro-I 
creação, ameaçou destruir os fundamentos do Estado, la 
lex Júlia de adulteriis coercendis (D., 48, 5, C, 9, 9) I 
decretada em 736 a. u. sobretudo a bem do interesse I 
publico, comminou penas contra certo numero de 
T. n 8 
114 TRATADO DB DIREITO PBNii 
crimes offensivos doe bons costumes, nomeadamente o 
adulterium, o stuprum, o lenocinium e o incestus. 
Designou>ee como stuprum o coito não violento do 
homem com uma virgo vel vidua honeste vivem, mas 
nao o concubinato ou o commercio com uma meretriz. 
A' primitiva edade média allema ficou no es-
sencial estranho o ponto de vista do interesse publico 
na punição dos delictos contra a moralidade. OJ 
stuprum simples, como offensa á tutela, resgatava-se 
com uma multa paga á pessoa investida do poder 
tutelar; mas a pena de morte recahia sobre a mulher 
livre que dormisse com o seu servo. A concepção do 
direito canónico, que considerava a immo-ralidade 
como peccado e com a máxima amplitude sujeitava á 
pena até os pensamentos e os desejos, não estava em 
condições de ter em conta as relações concretas e de 
fazer a luz sobre a natureza júri* dica dos delictos 
contra a moralidade. Assim ex-l plica-se a situação da 
edade média posterior com os seus bordeis não só 
tolerados, como reconhecidos e não raro investidos de 
direitos espeoiaes. 
Adoptando a concepção do direito canónico alie 
mão, a Carolina comminou penas nos arte. 116 e 123, 
dentre os crimes offensivos da moralidade, contra a 
sodomia, o incesto, o rapto, o estupro, o adultério, a 
bigamia e o lenocínio. Estas disposições foram 
completadas pelas leis imperiaes do século XVI, j e 
especialmente pelas ordenanças polioiaes de 1530, 
1548 e 1577, que puniam com multa ou prisão o 
stuprum voluntariurn, a fornicatio fcum meretricej, o 
concubinato (viver em união illegitima), o facto de ter 
bordel; aocrescia a penitencia publica imposta pela 
Egreja ás mulheres deshonestadas, que esteve em uso 
até o século passado. 
O commercio entre christãos e judeus era tra-j 
trado, ainda no tempo do direito commum (aí? instar 
v 
O 
0HIME8 E DELI0T08 OONTBA A LIBEBDADE 115 
I da edade média posterior) (8), interpretativamente I como 
um caso de libidinagem contra a natureza I (neste sentido 
Frôlich); mas, segundo o testemunho I de Kock, Bôhmer e 
outros, cahira em esquecimento I desde o século XVII a pena 
capital neste delicto. I Por outro lado a Toscana ainda lhe 
infligia pena grave I em 1786. A legislação territorial do 
século XVII I e do século XVIII exgotou-se em numerosas 
com-I minações penaes, ás mais das vezes baldadas, contra I 
a immoralidade, ao passo que a jurisprudência es- 
\u25a0 forçava-se por attenuar consideravelmente as penas 
I rigorosas da Carolina, impondo amplas limitações ás 
I circumstancias constitutivas desses delictos. Assim 
|exigia-se para a consum mação do coito punível 
' - (p. 61) a emissio seminis e em outros actos impu- 
Idicos a emmissio (o que Soden e outros impu- 
Ignavam). 
\u25a0 A enorme extensão das comminações penaes 
\u25a0 estabelecidas pela lei produzio um movimento reac-
Icionario no curso do século XVIII sob a influencia 
\u25a0 da litteratura do período philosophico, a qual, repre-I 
sentada principalmente por Voltaire, Hommel, Cella, I 
Soden, Michaelis \u2014 mas com o protesto de Grmelin, 
IFilangieri e outros \u2014- queria reduzir as penas dos 
\u25a0 delictos contra a moralidade a proporções tão dimi 
nutas quanto possível fosse, porquanto taes delictos 
\u25a0não offendem a ninguém nem põem o Estado em 
\u25a0perigo; e não raro insistia-se nesta asserção, aliás 
«pouco confirmada pela experiência, que a prole pro- 
Hduzida fora do casamento excede muito em vigor 
fle corpo e de espirito ás «débeis e definhadas 
plantas» que se geram no leito conjugal (*). 
(*) Esp. da Suab., 322, direito municipal de Augsburg (Osen-frugen, 
Alam. Strafr., 279). 
(\u25a0*) Cons. Hommel, Philosophisehe Oedanken iiber das Krim. 
U, 1784, p. 121 e leg. 
 
116 TRATADO DE DIREITO PENAI. 
A. pouco e pouco e com frequentes vacillações a 
sciencia e a legislação conseguiram achar o ver-j 
dadeiro ponto de vista na concepção e modo de tratar 
os delictos contra a moralidade. Este movimento n&o 
está de nenhuma forma concluído, e especialmente é 
muito pouco satisfactorio o modo por que I o C. p. imp. 
trata tanto a libidinagem contra a natureza como o 
lenocínio. A idéa directora deve ficar sendo esta: só as 
offensas á «liberdade sexual» ou ao «sentimento moral» 
podem dar occasião á intervenção do direito penal. 
A lei penal actual deixa geralmente impune o 
itupntm simples, isto é, o não aggravado commercio 
sexual fora do casamento. A disposição contida no art. 
361, n. 6, do G. p. imp. contra a prostituição de 
profissão visa somente fins concernentes á policia 
sanitária e á policia dos costumes.
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