TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899
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TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899


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O concubinato 
porém é punivel \u2014 n&o segundo o direito imperial, 
mas segundo o direito de vários Estados (5) \u2014 quando 
a continuada convivência sob o mesmo tecto dá causa 
a escândalo publico. Tendo sido regulada por lei 
imperial a «matéria» dos crimes contra a moralidade, 
torna-se pelo menos duvidosa a validade de taes 
disposições e mais acertado é contestal-a (") ("). 
 
(\u2022) Em Wurtenberg, Baden, Hesse, Braunschweig, bem como 
na Baviera, segundo a lei de 20 de Marco de 1882. 
(\u2022) Egualmente v. Meyer, 989, Olsb&usen, 18, cap. 2.°, Seuffert, 
O. p-, 1.°, 101, v. "Wãchter, 607; eontrà (a favor da liberdade da 
legislação estadual) Harburger, Z, 4.°, 499. 
(») Das numerosas disposições policiaes sobre a matéria em 
questão, que outr'ora vigoravam, restam ainda hoje as medidas contra 
o concubinato permittidas pela legislação de alguns Estados da Alie* 
manha, entendendo-se porém que só se deve proceder no caso de es-
cândalo publico e por causa delle. Essas medidas, diz O. Meyer (W V 
2.°, p. 465), são comminações penaes que devem ser applicadas pelos 
tribunaes. Dada a sentença, a autoridade policial fica autorizada 
 
 
118 TKATADO DB DIREITO PENAL 
Liibek de 1586 (4.°, 7) e o de Hamburgo de 1603 
(4.°, 36). A pena era geralmente a decapitação.) 
Quanto porém ao rapto propriamente dito, a legis 
lação e a sciencia vacillavam. I 
Ao passo que a Bamberguense, art. 143, de-
cretava expressamente a pena de decapitação, a 
Carolina, art. 118, contentou-se com esta disposição: « 
quem raptar uma mulher casada ou uma donzella 
reputada contra a vontade do marid* ou do pae, quer a 
raptada consinta, quer não etc.» Não admittio pois o 
procedimento official de justiça e, quanto ao mais, 
remetteu ao conselho dos jurisperitos. Faltava assim ao 
direito commum uma base firme. Em geral sustentava-
se que somente uma persona honesta podia ser objecto 
do crime (neste sentido Engau, Bòhmer e outros), mas 
considerava-se como indifferente o consentimento da 
raptada, e a ella mesma impunha-se, pelo facto do 
consentimento, uma pena arbitraria (neste sentido o 
direito do Palatinado de 1582 e o da Prússia de 1620 
até o Allg. LandrecM, art. 1103), com o que 
desappareceu a differença essencial entre os dois casos 
(a). 
O Attg. Landrecht prussiano, art. 1095, con- j 
templando o rapto, não entre os crimes da carne, como 
o fizera todo o direito commum, mas entre | os crimes 
contra a liberdade, occasionou uma nova confusão de 
idéas. Kleinschrod, Strobel, Grolmann, Tittmann e 
outros acompanharam o direito prussiano. Desfarte foi 
a legislação impellida para um 
(») No antigo direito portuguez a doutrina, baseando-se na Ord. 
do 1. 6, t. 18, \\ 1 e 8, distinguia o rapto por violência e o rapto por 
seducção; áquelle applicava-se a mesma pena do estupro com violência 
(morte). No rapto por seducção, a menor de 17 annos podia accusar 
criminalmente o seductor e pedir-lhe dote por acção dvil. M. Freire, I. 
J. C, T. 4, 17; P. e Souza, Cias. dos Gró»., j p. 216 e 286. N. do trad. 
CKIMES E DELICTC* CONTRA A UBERDADE 119 
falso caminho, que não mais abandonou. Em vez de 
manter separados os dois casos já discriminados no 
direito allemão, e incluir um delles entre os crimes 
contra a família, e o outro conjunctamente com o 
estupro entre os crimes contra a moralidade, a 
legislação costuma juntal-os mais ou menos e os 
classifica, comquanto nelles predomine o caracter 
sexual, entre os crimes contra a liberdade. Assim faz 
também» o G. p. imp. nos arts. 236 a 238, imitando o 
cod. prussiano. 
II.\u2014 Rapto (de mulher) é a usurpação dê poder 
physico sobre uma pessoa do sexo feminino para fins 
\sexuaes. Caracterisa-se : 
1.°, pelo otyfecto. No caso do art. 236 qualquer 
mulher pôde ser objecto do rapto, e no caso do art. 237 
só o pôde ser a menor solteira. Gomo o fim do rapto é 
o casamento ou a libidinagem no sentido de copula, 
deve-se exigir que a menor raptada seja púbere. 
Faltando este requisito, pôde ter ap-plicaçâo o art. 235 
('). 
Quanto porém ao autor do rapto, nenhuma 
limitação ha a fazer. Gomo é possível o rapto no 
interesse de um terceiro, uma mulher pôde também 
fazer-se culpada deste crime como autora (b). 
2.° Pela intenção (no sentido de motivo). A in-
tenção deve dirigir-se á libidinagem ou ao casamento, 
e portanto deve referir-se a relações sexuaes. Aqui 
cumpre considerar a libidinagem, em razão da sua 
equiparação ao casamento, como copula fora delle. 
Não pôde pois ser punido nos termos dos arts. 236 
(') Contra a equiparação da libidinagem e do coito, consequen-
temente contra a exigência da puberdade, v. Meyer, 1005, e Olsbausen, 
§ 236, 3.\u2014 O direito commum (neste sentido Decianus e ainda a 
Theresiana) admittia lambem o rapto de homem por uma mulher. 
(b) Neste sentido a opinião commum. Olshausen, 1. c. K. do 
trad. 
120 TRATADO DE DIEBITO PENAL 
ou 237 o rapto para o fim de libidinagem contra a 
natureza. Outra era a concepção do direito commum 
(Bõhmer). 
3.° Pela acção. A lei exige rapto, e portanto | a 
obtenção de poder physico immediato. Não basta 
exercer pressão sobre os pães para que prestem o seu 
assentimento ao casamento (2). O caracter es-1 sencial 
do rapto é a interrupção do poder e da protecção, sob 
que a raptada se achava, e o estabelecimento de uma 
nova relação de dependência, o que lembra a tirada no 
furto. Não se pôde dar importância decisiva á 
circumstancia do afastamento no espaço (3); dar-se-hia 
rapto, si fosse vedado a quem está investido do poder 
tutelar o ingresso no seu próprio domicilio, ou si o 
autor, por meio de engano, induzisse os pães a partir e 
ficasse com a menor. A interrupção da relação de poder 
e de protecção deve operar-se por acto do raptor, o que 
não exclue a cooperação da raptada. Não se dá porém 
rapto, quando a «raptada » por si só deixa a casa 
paterna e vae ter á casa do «raptor » (c). Em ambos os 
casos o rapto consuma-se com o estabelecimento do 
poder do raptor; não é necessária a consecução do fim. 
A prescripçao começa a correr com a terminação desse 
poder (crime continuo) (d). 
(*) Merece critica a dec. do Trib. do Imp. de 6 de Maio de 89, 
19.», 169. 
(*) Contra Olshausen com a opinião commum. De accordo v. 
Meyer, 1005. A sciencia do direito commum, seguindo os italianos, 
exigia uma deduetio de laco ad locum. 
(°) Segundo julgados do Trib. do Imp. e do superior tribunal de 
Berlim, dá-se rapto, quando a menor deixa voluntariamente a casa 
paterna e é encontrada com o autor, uma vez verificado que por im-
medita actividade deste a menor subtrahio-se ao poder paterno. Olsh., 
3 237, 1. N. do trad. 
(*) A consecução de algum dos fins do rapto não é requisito I 
CRIMES E DELICTOS CONTRA A LIBERDADE 12Í 
III. \u2014 0 rapto do C. p. comprehende dois 
casos : 
1.°, O rapto de uma pessoa do sexo feminino l 
contra a sua vontade (G. p., art. 236), por meio de 
violência, ameaça ou artifício (§ 97, III), e para fim 
libidinoso ou para casamento. Os meios devem ser 
dirigidos directamente contra a raptada. O con-
sentimento da alienada não tem importância jurídica (\u2022). 
Penas : no 1.° caso, reclusão até 10 annos ; no I 2.°, 
encarceramento. O processo depende de queixa. Pôde 
dal-a a raptada ou o seu representante legal ' (C. p., art. 
65). 
2.°, O rapto de uma menor solteira com o seu 
consentimento, mas sem o consentimento dos pães ou do 
tutor, para fim libidinoso ou para casamento (art. 237). 
Assim o rapto da mulher casada com o seu 
consentimento, bem como o da viuva ou da mulher 
divorciada, não incorre no art. 237. Também aqui o bem 
jurídico atacado, segundo a concepção da lei, é a 
liberdade individual da raptada no tocante ás relações 
sexuaes; nada faz ao caso que [ disponha do bem jurídico 
outra pessoa que não a mulher a quem elle pertence.
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