TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899
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TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899


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secreta e perfidamente, | furtivo modo, caracterizada pela 
occultação do cadáver ; homicidio era a morte dada em 
combate publico e honroso, cuja responsabilidade o 
autor não receiava assumir. Punia-se o assassinato com 
penas muito mais severas (*). A perseguição do autor de 
um homicidio propriamente dito, como outr'ora a vin-
gança do sangue, era deixada á parentela do offen-dido; 
a Ledigung (reconciliação em razão do homicídio) 
dependia do arbítrio de quem tinha o direito de 
perseguir,\u2014 instituição esta que se conservou até os 
tempos modernos \u2014 ao passo que contra o assassino 
fugitivo se pronunciava a proscripção mediante o 
processo respectivo (2). 
Não raro as leis sobre a paz publica ameaçaram 
pura e simplesmente com a morte o crime de ho-
micídio, mas ainda na segunda metade da edade média 
(') Três vezes o valor do Wehrgeld entre os Francos e nove vezes o 
mesmo valor entre os Allemães, Frisões, Bavaros e Saxonios e também 
especialmente nos, capitulares, a morte, Cap. 596 (Borctius, 16). Cona. 
Giinther, 1.°, 182. 
(*) Ainda assim é na Bamberguense, mas não na Carolina. Na 
legislação territorial conservou-se além do século XVII; expressamente 
em Hamburgo ainda em 1608. 
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12 TRATADO DE DIREITO PENAL 
reapparece frequentemente a antiga concepção (Es 
pelho da Suabia, 174). Ao mesmo tempo vae pe 
netrando na linguagem jurídica dos allemftes a dis- 
tincção estabelecida pelos juristas italianos entre o 
dolus premediiatus e o impetus, que acaba por ligar-se 
com a distincção do direito germânico (3). Em geral 
sao diversas as penas do assassinato e as do homi 
cídio : para aquelle reserva va-se a roda, para este 
a espada (Esp. da Sax., 13). Mfi 
ff III.\u2014 A Carolina, art. 137, funda-se na intuição 
allemft: «... outrosim que, segundo o costume, o ma-
tador doloso e perverso seja executado na roda, e o que 
tenha commettido homicídio por cólera e 
arrebatamento.... o seja com a espada. No homicídio 
doloso, como o que for perpetrado em pessoa de 
elevada dignidade, no senhor do próprio agente, em 
pessoa nobre ou em um parente próximo, a pena poderá 
ser augmentada, antes de seguir-se a morte, com algum 
castigo corporal, como seja a dilaceração com tenazes 
ou o arrastamento, para que se incuta maior terror » (*). 
No art. 130 encontra-se menção especial do 
envenenamento. 
IV.\u2014 A sciencia do direito commum, sem se 
preoccupar muito com o art. 137 da Carolina, 
assigualava no homicidium dolosum um certo numero 
de casos que deviam ser punidos com penas mais 
graves. De ordinário distinguiam-se: a) o parrícidium, 
a morte dada a um parente, crime a respeito do qual se 
estabeleciam muitas graduações na pena (e já 
minuciosamente tratado pelo direito saxonio 
(*) Suscitada pela 1. 11, $ 2, D, 48, 19. Vêr a glosa ao Espelho da Saxonia, 
o direito municipal de Strasburgo de 1249, o de Francfort de 1297. \u2014 
Classificação feita por Claras : 1.° homicidium simpUx ; a) necessarium, b) 
casuale, c) culposum, d) dolosum; 2.° homicidium deli-beratum: a) cx 
propósito, b) ex insidiis, c) prodiioriutn, d) per assassinium. 
(*) Sobre a controvertida interpretação deste art. vêr Wachenfeld. 
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DO HOMICÍDIO 13 
de 1574, IV, 3, e também pelo prussiano de 1620), b) o 
homicidium proditorium, morte com emboscada (Engau, 
Bohmer e outros), c) o latrocinium, roubo á mão armada 
(segundo Corpsow) ou matar para roubar flucri faciendi 
causa, segundo Koch, Engau e Bohmer), d) o assassinium 
(esta denominação, tomada á seita politica-religiosa dos 
Mahometanos chuitas, que se fundou em 1090, tornou-se 
vulgar desde o sgculo XII; assassinator é o mandante, 
assassinus o mandatário; já o direito prussiano de 1620 
punia como homicídio a simples aceitação do mandato), e) 
o veneficium, a morte por envenenamento. Especialisava-se 
também o propricidium ou suicídio (§ 34, nota 7.a). Cedo 
começaram as legislações a occupar-se com a questão da 
causação. Nas constituições saxonias, 4.°, 6, já se encontra 
mencionado o erro sobre a pessoa. Também o homicídio por 
omissão é expressamente regulado. Por meio do dolus 
indirectus (§ 38, nota 8) ampliou-se a idéa do homicídio a 
casos, em que não se dava amimus occidendi, mas simples 
intenção hostil (o pravus animus de Carpsow). Neste 
sentido o direito prussiano de 1721, os cod. austríacos desde 
1787 até 1852 e o Allg. Landrecht, art. 806. 
V. \u2014 O Allg. Landrecht ou direito commum 
prussiano punia como assassino e mandava executar na 
roda, de cima para baixo, quem, com o animo premeditado 
de dar morte, commettesse realmente um homicídio. 
Especialisava também o homicídio ajustado e o mandado 
(art. 839 e 849), o homicídio por paga (art. 834), o matar 
para roubar (art. 855), o envenenamento (art. 856) e o 
homicídio na pessoa do parente (art. 873). O Cod. francez e 
o cod. bavaro de 1813 abriram novos caminhos. O Cod. 
francez denomina meutre todo homicídio voluntário, e 
assassinai o homicídio com préméditation ou guet-apens. 
O cod. bavaro de 1813 contrapõe ao assassinato o 
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\u2022: 
 
14 TRATADO DE DIREITO PENAL 
homicídio: aquelle é caracterisado pela premeditação 
na resolução e pela reflexão na execução, e este 
por ser praticado na effervescencia da cólera. 0 di 
reito inglez encontra, como d'antes, no dolo preme* | 
ditado (malice. aforethought) a distincçâo entre murder 
e mamlanghter. I 
VI.\u2014 Na legislação moderna a distincçâo entre o 
assassinato e o homicídio tem valor somente, porque 
facilita limitar-se a pena de morte a um pequeno numero 
de casos. Regularmente toma-se para base da distincçâo o 
dolo premeditado e o não j premeditado. Assim faz o C. p. 
imp. que segue o cod. francez de 1810 e o prussiano de 
1851. O projecto austríaco, o russo e o suisso porém 
abandonaram com razão esta característica também viva-
mente impugnada por Haus, v. Holtzendorff, Berner, 
Halschner, Wachenfeld e outros, e contrapõem ao caso 
normal do homicídio doloso, de um lado, uma serie de 
casos graves, e, do outro, o homicídio commettido sob a 
influencia de uma violenta emoção. 
§ 82. \u2014 Do homicídio commum doloso O 
direito vigente 
LITTERATURA. \u2014 Kràwel, G S., 38, 177 ; "Wachenfeld, 
Die Uéberlegung in unserm heutigen Morãbegriff, diss., 1887. 
I.\u2014 Segundo o G. p. imp., commette assassinato 
(art. 211) quem mata dolosamente, si a morte é 
executada com reflexão, e homicídio propriamente dito 
(art. 212), si a morte não ê executada com reflexão ("). 
Com esta redacção que se approxima da 
\.'JÍ , ; \u201e-.\u201e»\u25a0'-\u25a0- \u2014 
(») Totscklag, o homicídio doloso simples, e Mord, o assassinato. O 
que os destingue é uma circumstancia toda subjectiva; este 6 praticado 
com reflexão, a sangue frio, e não assim aquelle. O legislador 
DO HOMICÍDIO 15 
do cod. saxonio e se afasta da do prussiano, quiz o 
legislador accentuar que o centro de gravidade está na 
execução : o homicidio resolvido com reflexão, mas 
sem reflexão executado, deve ser considerado e 
punido, não como assassinato, e sim como homicidio 
simples. Essa divergência, porém, atten-tamente 
considerada, nada tem de essencial. A reflexão é uma 
característica da resolução, e não do dolo (§ 2£, nota 
2.B). Na hypothese figurada a resolução primitiva foi 
abandonada, e, na verdade, o homicidio assenta sobre 
uma nova e não reflectida resolução. Podemos pois 
admittir as seguintes definições : assassinato é o 
homicidio doloso e reflectido, e homicidio simples o 
doloso, mas não reflectido (1). 
A pena do assassinato é a morte, a do homicídio 
simples é reclusão por tempo não inferior a cinco 
annos. 
Si um dos codelinquentes obrou com reflexão, e o 
outro não, o primeiro se faz culpado de assassinato e o 
segundo de homicidio simples. A insti- 
não usou da expressão mH Vorbeãaeht, com premeditacão, mas da expressão 
mit Uéberlegung, com reflexão, talvez para não dar a entender
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