TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899
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TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899


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dos debates judiciários, quando estes, a 
bem da moralidade publica, tenham tido logar em 
sessão secreta, ou a respeito das peças officiaes que 
serviram de base aos mesmos debates ». 
A lei não presuppõe um preceito especial que 
imponha o dever de guardar silencio. A communi-
cação pôde ser verbal ou escripta. Só é punivel a 
communicação dolosa, e o dolo deve versar tanto sobre 
a publicidade da communicação como sobre a 
circumstancia de que a communicação é de natureza a 
causar escândalo. Não é necessário que de facto o 
escândalo se produza. 
§109.\u2014 VII. Libidinagem contra a natureza 
LITTEBATUBA. \u2014 Hâlschner, System, 29, 313; Dalcke, 
Gr A., 179, 88; John, Entvmrf, 400; appensos ao projecto 
do C. p. da Alleraanha do Norte, 1?, 21; Hâlschner, 2?, 
238; anonymo, Z., 12, 34; as obras indicadas acima, p. 142 
; v. Kraffb-Ebing, Der KorUràmexuale vor ãem Siraf-richter, 
1894. 
I. \u2014 Já no tempo da Republica o direito romano 
occupou-se com a monstrosa Vénus procedente certa-
mente da Grécia (lei Scatinia de data desconhecida). A 
lei Júlia a considerou como stuprum e os imperadores 
comminaram a pena de morte ubi sexus perdit locum, 
ubi Vénus mutatur in aliam formam. A libidinagem 
contra a natureza não foi também desconhecida á 
primitiva edade media allemã, como o mostram os 
corpore infames de Tácito, as referencias que se 
encontram nas leis barbaras e as disposições dos 
Capitulares; posteriormente foi ella não raro equi-
parada á heresia. Fiel ao seu excessivo rigor contra os 
delictos da carne, o direito canónico, 
CRIMES £ DELIOTOS CONTRA A LIBERDADE 143 
cujos escnptores se compraziam na explanação das 
respectivas questões, declarou vedada toda satisfação 
do instincto sexual contra as regras da natureza. 
No art. 116 a Carolina com minou a pena de 
morte pelo fogo contra «a torpesa de homem com 
animal, de homem com homem e de mulher com 
mulher». O direito commum restringio a pena de fogo 
á bestialidade propriamente dita (neste sentido o 
direito austríaco de 1656, não o prussiano de 1620 e de 
1721), mas estendeu a qualificação de libidinagem 
contra a natureza punível á sodomia contra ordinem 
naturee (e portanto a todas as relações sexuaes contra a 
natureza entre homem e mulher), bem como ao 
onanismo, á satisfacç&o da sensualidade em um 
cadáver etc. A litteratura do período philosophico ou, 
pelo menos, alguns escríptores (Montesquieu, 
Hommel contra Soden, Gmelin) queriam que se limi-
tasse a punição. O cod. josephíno de 1787 relegou a 
bestialidade e a libidinagem entre pessoas do mesmo 
sexo para a classe dos « crimes políticos » (s). O ÂMg. 
Landrecht prussiano, porém, dispunha (art. 1069) que 
« na sodomia e outros quejandos peccados contra a 
natureza, cuja menção, por serem abomináveis, a lei 
não fazia, ficasse completamente extincta a lembrança 
do facto », e por isso bania o delinquente e mandava 
destruir o animal (b). 
(") Isto é, os crimes policiaes. ~$. do trad. 
(*) Sm Portugal o crime de sodomia foi desconhecido até o reinado de 
Affonso V, que na sua Ord. do 1. 5, tit. 17 decretou a pena de fogo contra « 
este peccado de todos o maia torpe, sujo e deshonesto », por causa do qual 
«Deus lançou o deluvio sobre a terra». A Ord. Man., t. 12, o equiparou ao 
crime de lesa magestade, accrescentou á pena de fogo o confisco dos bens e a 
infâmia para os filhos e descendentes, e estendeu as penas também á 
bestialidade, menos a infâmia para os filhos. A Ord. Pb.il., t. IS, ainda foi 
mais longe, declarando 
 
144 TRATADO DE DIREITO PENAL 
Na nova sciencia e na nova legislação revela-sej o 
esforço \u2014 em parte bem succedido \u2014 tendente a 
eliminar do C. p. a libidinagem contra a natureza ou, 
pelo menos, a restringir consideravelmente a idéa deste 
delicto. O relatório da commissão scien-tifica 
prussiana, que foi constituida para tratar de questões 
relativas á hygiene e á medicina, pronunciou-se 
também, antes da elaboração do projecto do C. p. da 
Allemanha do Norte, a favorcda eliminação de taes 
delictos (l). E certamente com razão. Em muitos casos 
que só nos" últimos annos foram devidamente 
apreciados dá-se perturbação mórbida (appe-j tite 
pederastico). A verificação offerece difnculdades que 
mal podem ser superadas (libidinagem entre mulheres), 
ao mesmo passo que os maiores excessos entre homem 
e mulher ficam impunes. Não se offende a liberdade 
sexual e o escândalo não deixa por isso de ser punivel. 
Poder-se-hia tornar inoffensiva a libidinagem de 
profissão por parte de individuo do sexo masculino, a 
única que offerece perigo, alte-rando-se o texto do art. 
361, n. 6, do C. p. 
II.\u2014 O direito vigente (C. p., art. 175) pune a 
libidinagem contra a natureza. 
l.°, entre pessoas do sexo masculino (sodomia 
ratíone sexus, pederastia); 
2.°, entre homem e animal (sodomia ratione ge-
neris, bestialidade). 
que a lei tinha egualmente npplicação ás mulheres que entre si com-| 
mettessem peccado «contra natura», e qualificou a molicie, a que 
mandou applicar penas arbitrarias. O crime podia ser provado por tes-
temunha singular, era admissível a tortura e do arbítrio do juiz dependia 
publicar ou não o nome das testemunhai. Da sodomia conheciam pri-
vativamente os inquisidores. N. do trad. 
(») Egualmente Hâlschner, 2?, 289,Sontag, G A. 18?, 16,Stooss, 
Qrundzúge, 2?, 266. 
CRIMES E DELIOTOS CONTRA A LIBERDADE 146 
I Por libidinagem devemos entender somente a 
copula e actos análogos á copula (coitus per anum) ('). 
Penas: encarceramento e facultativamente perda dos 
direitos cívicos. 
§ 110. \u2014VIII. Do incesto 
I.\u2014 O incesto serve de transição para os crimes 
contra os direitos de família. Sob o ponto de vista 
jurídico a criminalidade do incesto é indubitável, 
quando se trata do abuso da influencia que o ascen-
dente exerce sobre o descendente (§ 102). O O. p. imp. 
porém abandonou este ponto de vista, punindo, de um 
lado, somente a copula e deixando impunes outras i 
mm ora li da d es da maior gravidade, e, de outro lado, 
sujeitando á penas a copula entre irmãos adultos. 
II.\u2014 O direito romano, que não punia o com-
mercio sexual entre parentes como taes, e sim so-
mente a celebração do casamento tendente a este fim, 
distinguia entre o incestus juris gentium e o incestus 
juris civilis, e incluía no primeiro o casamento entre 
ascendentes e descendentes. Semelhantemente o 
direito canónico contrapoz ao incesto juris divini o 
incesto segundo disposições humanas; ao mesmo 
tempo ampliou enormemente a idéa do crime 
(Innocencio III foi o primeiro que em 1215 tornou a 
limitar a prohibíção de casamento ao 4.° gráo segundo 
o direito canónico) e, além d'isso, accres- 
(*) Muito mais longe vae a dec. do Trib. do Imp. de 3 de Fev. 
de 90, 20.", 225 (introducção do membro de um individuo adormecido 
na bocca do réo). Contra e com razão Franck, Z, 12.°, 304 (mas in 
correctamente considera punível o caso inverso). E' correcta a dec. do 
Trib. do Imp. de 16 de Nov. de 92, 23.°, 289. E' isenta de pena, se-
gundo o mesmo Trib., a masturbação reciproca. 
T. II W 
 
146 TRATADO DE DIREITO PENAI. 
ce-ntou ao parentesco pelo sangue a cognatio spirm 
tualis. 
Cedo a intuição da Egreja teve entrada no di-j 
reito da edade média allema. A lei Rip., 69, 2, com-, 
minava contra o casamento incestuoso o banimento 
e a perda dos bens; numerosas capitulares recom- 
mendaram a observância dos impedimentos de casa 
mento, e decretaram para os casos mais graves a 
pena de morte. * 
A Bamberguense, art. 142, impunha a pena do 
adultério (a decapitação, em certos casos aggravada). 
A Carolina, art. 117, dispunha porém que «si alguém 
praticasse actos impudicos com sua enteada, nora ou 
madrasta, e com outros parentes ainda mak próximos», 
a pena fosse determinada segundo o direito escripto, 
consultando-se os jurisperitos.
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