TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899
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TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899


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Esta redacção deu logar 
a muitas questões que foram por muito tempo 
debatidas. Era e ficou sendo controvertido no direito 
commum não só si as relações illicitas entre irmãos se 
comprehendiam naquella disposição, senão também 
quaes o género e o gráo da pena applicavel. As 
constituições saxonias (4.°, 12) puniam o ascendente e 
o descendente com a decapitação, os parentes col-
lateraes com a fustigação e o banimento perpetuo. Esta 
doutrina sustentada também por Carpsov foi a que 
predominou (n'este sentido o direito hamburguez de 
1603, o prussiano de 1620, o austríaco de 1656); mas 
algumas legislações (por exemplo, a do Palati-nado de 
1582) foram até á pena de morte pelo fogo (\u2022). 
(*) N&o encontra-se o crime de incesto no Cod. Aff.; apparece qua-
lificado pela primeira vez na Ord. Man., 1. 6, t. 17, d'onde passou para a Phil., 
t. 18. O incesto júris gentium era punido com a pena de morte pelo fogo ; 
sobre o incesto júris civilis com irmã, nora, sogra, madrasta ou enteada recahia 
a pena de morte natural e nos demais casos (até o 4.° gráo de afinidade) 
applicava-se a pena de degredo para dentro ou 
CBIMES B DELIOTOS OOITTBA A LIJJEEDADE 147 
I Os escriptores do período philosophico puzeram 
muitas vezes em duvida a criminalidade do incesto. A 
nova legislação allemã e a estrangeira que a segue 
mantiveram o crime, ao passo que os cod. dos paizes 
latinos, bem como o cod. hollandez, não contemplam 
0 incesto como crime especial. 
III. \u2014 Segundo o art. 173 do C. p., o incesto 
é somente a jjopula, isto é, o ajuntamento natural 
das partes genitaes (e não qualquer outro acto im- 
moral mesmo contra a natureza): I 
B 1.°, entre ascendentes e descendentes, legítimos 
ou illegitimos; I 
1 2.°, entre affins da linha ascendente e descen 
dente (embora o casamento de que deriva a afini 
dade tenha sido dissolvido pela morte); 
B 3.°, entre irmãos (germanos, consanguíneos ou 
uterinos) (b). 
Penas: no 1.° caso, 1 a 5 annos de reclusão com 
relação aos ascendentes, e 1 a 5 annos de en-
carceramento com relação aos descendentes; no 2.° |e 
no 3.° caso, encarceramento até 2 annos. Em todos os 
casos é facultada a perda dos direitos cívicos. Os 
descendentes (como no direito commum) são isentos 
de pena, quando não completaram ainda os 18 annos 
de edade (§ 43, nota 2.*), ao passo que o cúmplice é 
punível segundo os princípios geraes. 
fora do reino. \u2014 O C. Crím. braz. de 1830 não qualificou especialmente 
o casamento incestuoso nem o coito incestuoso; o O. actual seguío esta 
tradição. N. do trad. 
(bl Pouco importa que a copula se consuma no casamento ou 
fora d'elle; o que a lei pune não é o facto de contrahir um casamento 
incestuoso, mas a consumação da copula em tal casamento. Olshausen, 
J 178, 1. N. do trad. 
IV. \u2014 CRIMES E DELICTOS CONTRA OS DIREITOS 
DE FAMÍLIA 
c 
§ 111. \u2014 I. Offensa do estado civil 9 
LTTTEEATURA. \u2014 Hãlscbner, 2.°, 459 ; Keis, pie 
Unterdruckung und Verânderung ães Personenstandes, diss.J 
1888 ; Hiuschius, Personenstaiidsgesetz, 3.* ed., 1890; T. 
Sicherer, W V., 2.°, 529; Stenglein, N G., 532. 
I. \u2014 O estado civil ê o conjuncto e ao mesmo a 
condição dos direitos de família. Tendo por base o 
facto de pertencer um individuo a uma família 
determinada, o estado civil designa a posição jurídica 
desse individuo não só em relação aos membros da 
família, como em relação a todos os outros homens. 
Origina-se do nascimento, termina com a morte, muda 
com a adopção (e também, segundo o direito 
territorial, com o reconhecimento da paternidade 
illegitima), com a legitimação, a celebração e a 
dissolução do casamento. 
A offensa do estado civil é um delicto especial, 
mas só reconhecido nesta larga accepção pela nova 
legislação. O direito romano punia não somente a 
mppositio partus (delicto imprescriptivel), senão 
também o uso de um nome falso fasseveratio falsil 
mominis vel cognominis) como guasi falsa; e nessas 
comminações era o interesse publico que predominava : 
publicè interest partus non subjici, ut ordinum 
CRIMES CONTRA OS DIREITOS DE FAMÍLIA 140 
dignitas familiarumque salva sit. As fontes da edade média 
allemã, bem como a Carolina, guardavam silencio. O 
direito comraum (por exemplo, o prus-siano de 1721) 
cingio-se ás disposições do direito romano; a Áustria, em 
1707, punia com a decapitação a (f suppressão de filhos 
alheios », e o Allg. Landrecht prussiano, art. 1.436, como a 
maioria dos Cod. territoriaes da Allemanha, comprehendia 
na burla a mudança do estado civil (*). Esta concepção é 
menos incorrecta do que a classificação do crime em 
questão entre os crimes de falsidade recentemente 
defendida por Olshausen, § 169, 2, e Reis; porquanto o 
meio empregado para a privação dos direitos de família, 
resultantes do estado civil, não é o abuso de uma forma de 
authenticação, mas a simulação ou a suppressão de factos, 
quer se subtraia permanentemente ao conhecimento de ter-
ceiros o facto de pertencer o offendido a uma determinada 
família (suppressão do estado civil), quer se faça crer 
erroneamente pertencer o individuo a uma família a que na 
verdade elle é extranho (mudança do estado civil). Certo ê 
porém que se trata de um delicto de caracter inteiramente 
especial. 
B II. \u2014 Offensa do estado civil é a subtracção dos direitos 
de família, que pertencem a alguém, como membro de uma 
família dada, mediante producçõo \de um erro permanente 
relativo a esse facto (C. p., art. 169). Entre mudança e 
suppressão (occultação | do verdadeiro estado civil) não ha 
differença essencial ; mas em todo caso faz-se mister a 
creação de uma situação ou estado. Não basta que em um 
caso singular alguém se dê por outrem (art. 369, |n. 8) ou 
occulte a morte ou o casamento de outrem. 
(*) Ver na Cla$s. dos crim., p. 160 e 348, a legislação portu- 
gueza sobre Mulos indevidos e farto svpposto. N. do trad. H 
* -| 
160 TBATADO DE DIREITO PENAL 
Incide porém na lei tanto a suppressão do estado civil 
de quem morreu ou de quem nasceu morto, como a 
mudança do próprio estado civil, quando deste modo é 
affectado o estado civil de outra pessoa viva. O 
consentimento do interessado não dirime a 
criminalidade, pois o estado civil não está á livre 
disposição daquelle a quem pertence (b). 
De accôrdo com a tradição histórica, o legislador 
individualisou, como caso especialmente importante, a 
mpposição ou dolosa substituição de infante, isto é, de 
uma pessoa, que em razão de sua edade juvenil não 
tem ainda clara consciência do facto de ser membro 
de uma família dada e por isso não 
(b) Estado civil {Ptrsonenstand), segundo a definição de Merkel, é 
a condição jurídica de uma pessoa como membro de determinada 
familia, em razão de descendência, adopção, legitimação ou casamento. 
O art. 169 do O. p. ali. pune somente « aquelle que... supprime ou muda 
dolosamente o estado civil de outrem ». O que constituo o delicto 6 a « 
offensa ao estado civil de outra pessoa »; portanto não incorre nesse 
artigo quem muda o próprio estado, sem supprimir ou mudar o estado 
civil de outrem, ou mesmo quem se arroga direitos de uma familia 
estranha, em tanto quanto este ultimo effeito não se dá; actos desta 
natureza podem ser puniveis em virtude de outras disposições da lei 
penal, como os arts. 268 (burla), 271 (falsificação), 860, n. 8 do O. p. 
(usurpação de nome, titulo etc.) Além disso, a intenção do delinquente 
deve ser tendente a produzir uma situação illegitima permanente e não 
simplesmente transitória. For mudança do estado civil entende-se a 
creação de uma situação, por meio de simulação ou suppressão de 
factos, que faça apparecer outrem como investido de direitos de familia, 
que não lhe pertencem ; por suppressão entende-se a creação de uma 
situação que não permitte a outrem fazer valer praticamente os seus 
verdadeiros direitos
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obrigada
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