TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899
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TRATADO DE Direito Penal Allemão FRANZ VON LISZT TOMO II 1899


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e 
na sciencia do nosso século a perturbação da paz tem 
passado a oceupar cada vez mais o primeiro plano, como 
no-ta-se especialmente nos cod. da Hollanda e da Itália 
(motivos deste ultimo, 2.°, 43). O C. p. imp. também não 
fala mais em crimes de religião, mas em de-lictos « que se 
referem á religião » (Cons. Olshausen, 11, cap. 1). 
(b) Dominou em Portugal a instituição do Santo Officio creada pela 
bulia de Paulo 3o de 1636 ; as suas sentenças nos crimes de heresia deviam ser 
executadas pela justiça secular, por serem as penas de sangue e de fogo (Ord., 
1. 5, t. 1). Vdr o interessante commen-tario de M. Ereire ao tit. 5 do seu Cod. 
Crim. N. ào trad. 
168 TRATADO DE DIREITO PENAL 
II.\u2014As disposições do nosso C. p. distinguem-se 
em dois grupos. 
l.° \u2014 0 direito penal protege primeiramente a 
liberdade religiosa, isto é, a livre manifestação da fé 
no seio das sociedades religiosas existentes no Estado ; 
impedir o culto divino (C. p., art. 167), ultrajar a 
sociedade religiosa, suas doutrinas e instituições (art. 
166, 2.° ai.), causar desordem em logares destinados á 
assembléas religiosas (art. 166, 3.° ai.) são actos que a 
lei sujeita a penas. Os ministros não gosam do uma 
protecção especial. A tirada ou a damnificação de 
cousas consagradas ao culto, a damnificação d'aquillo 
que é objecto de veneração, a lei pune com mais rigor 
do que quando se trata de outras cousas (art. 243, n. 1, 
e art. 304). 
2.° \u2014 Independentemente de toda base confis-
sional, a lei protege o sentimento religioso do individuo, 
isto é, a convicção, accentuada pelo sentimento, da 
existencia de uma ordem universal que se eleva acima 
do homem. O art. 166, Io ai., pune a blasphemia, o art. 
168 a ofíensa & paz dos mortos e á paz das sepulturas, 
e o art. 304 a damnificação dos túmulos ; nesta 
categoria, segundo alguns entendem, deve ser também 
incluído o art. 189 que pune o ultrage á memoria dos 
mortos. 
A exposição que se segue limita-se ao exame dos 
delictos de que trata o tit. XI do 0. p. 
III. \u2014 A regulamentação por lei imperial dos 
denominados delictos contra a religião é exclusiva ; 
disposições complementares ou supplementares da 
legislação estadual são destituidas de eííioacia (l). 
(') Em sentido contrario Binding, 1.° 822, Olahausen, 111, 
cap. I. Correctamente Kohler, 1.°, 224. 
DELICTOS CONTRA A LIBERDADE RELIGIOSA 169 
§ 116.\u2014Dos delictos contra a religião 
I. \u2014 Blasphemia. Segundo o art. 166 do C. p., a 
blasphemia consiste em provocar escândalo com offender-
se a divindade por manifestações publicas e insultuosas. 
A idéa de Deus não deve ser entendida no sentido de 
uma abstracção philosophica fora do espaço e do tempo ou 
no sentido do monotheismo coinmum a todas as confissões 
christães, mas tal como é de facto concebida pelos que 
crêm em Deus dentro e fora das associações religiosas 
reconhecidas (*), e assim tanto a offensa a Jesus-Christo ou 
ao Espirito Santo, como a oíFensa ao Jehovah judaico se 
comprehendem na idéa da blasphemia (a). 
A offensa, isto é, a manifestação de desconsideração 
(como na injuria), deve ser publica, por outros termos, 
accessivel a um circulo não limitado de pessoas 
determinadas (z). A manifestação, verbal 
(J) De accordo (mas com a limitação baseada na 2* proposição do art. 
166 e relativa ás sociedades religiosas) o dec. do Trib. do Imp. de 8 de Março 
de 82, 6.°, 77, Bott, 22, Geyer, 2.° 90, Janka, 311 lsbOausen, g 166, 2, 
Schútze, 847 ; contra Hãlschner, 2.°, 704, Kohler, 1.°, 165, Merkel, 371, v. 
Meyer, 1010, Villnow, 627. 
(*) Eata doutrina dá á idéa de Deus uma base positiva. Segundo 
Villnow, Kõhler e Hãlschner, a idéa de Deus no sentido da lei é aquella sobre 
a qual estão de accordo as sociedades religiosas mo-notbeistas existentes no 
Estado, e segundo Merkel é a idéa geral que a palavra Deus expressa, quando 
não se lhe acerescenta algum qualificativo. D'abi resulta que a offensa a Jesus-
Christo, ao Espirito-Santo pôde ser punida como ultrage ás igrejas christães, 
mas não como blasphemia. N. do trad. 
(') Merecem critica as dec. do Trib. do Imp. de 5 de Jan. de 91, 21.°, 
254, e de 28 de Nov. de 91, 22.°, 241 que, para admittir a existencia de um 
«circulo limitado», exigem relações pessoaes reciprocas, um «vinculo que 
reduza á unidade.» Ver o | 108, nota 4. 
IH _ i 
HÕZ TRATADO DS DntEiTo-cmrAi/ 
ou escripta, deve ser insultuosa, isto é, tal que reúna á 
rudeza da expressão o conteúdo offensivo (§ 94). Outros 
actos (ver o art. 183 do C. p.), como representações 
figurativas, não entram neste numero. 
A ofiensa por si só não basta ; é necessário que cause 
escândalo, isto é, que fira o sentimento religioso, ainda 
que de um só individuo (§ 108). 
Penas : encarceramento até 3 armes. 
II. \u2014 O ultraje ou insulto publico a uma sociedade 
religiosa (christã ou não) existente no território federal (não 
nos territórios sob o protectorado allemão) e investida de 
direitos de corporação é delicto, quando o insulto a) é feito 
á sociedade como tal, b) ás suas instituições, ou c) ás suas 
praticas (art. 166). Os velhos catholicos, tanto como ramo 
da Igreja catholica, como em consequência de especial 
reconhecimento (por parte da Baviera), estão sob a 
protecção do art. 166. 
Também aqui ultraje é a expresssão de des-
consideração sob uma forma grosseira e por isso offensiva 
ao mesmo tempo do sentimento, pouco importando que se 
externe por palavras ou por outros actos. Das instituições e 
praticas (sacramentos, indulgências, culto da Virgem 
Maria, monachismo, adoração de santos e de reliquias), 
devemos distinguir os dogmas (trindade, humanisação de 
Christo, Im macula da Conceição, infalibilidade papal), os 
factos históricos (reforma, concilio do Vaticano, celebração 
de uma concordata), e os objectos de adoração («o manto 
santo» de Treves), (8) as escripturas santas e as pessoas 
adoradas. Mas o ultraje con- 
(») Emquanto não vao nisto uma oflfensa á adoração de reli-
quias como tal; dec. do Trib do Imp. de 18 e 20 de Bev. de 98, 24.°, 
12. 
DBMOTOS CONTBA A LIBERDADE RELIGIOSA 171 
cernente a taes objectos ou matérias pôde envolver 
um ultraje mediato á sociedade mesma (*). 
Basta que haja dolo ; não se faz mister uma 
intenção especial (b). 
Penas: encarceramento até 3 annos. 
III.\u2014 O facto de praticar um desacato em uma 
egreja ou em outro logar destinado a assembléas 
religiosas (e não necessariamente ao culto). O logar 
pôde ser destinado não s<5 a sociedades religiosas 
reconhecidas, como ás que de facto existem (art. 
166). Jj 
Desacato é todo procedimento grosseiro e in-
compatível com o destino do logar. O desacato deve 
ser praticado «em logar cercado», ainda que da parte 
exterior (e portanto não em sitio aberto, em uma rua 
publica etc). Tamb\ufffd\ufffdm aqui a omissão contrária ao 
direito equivale á acção. \u2014Os cemitérios entram no 
numero dos logares que a lei protege, quando são 
destinados a assembléas religiosas, embora pertençam 
a communas. Sob a mesma condição entram também 
neste numero os logares destinados á cremação de 
cadáveres, mas não os logares destinados a enterros 
sem caracter confissional. 
Penas : as mencionadas sob o n. II. 
(*) As sociedades religiosas que se hostilizam devem observar os 
limites traçados a bem do interesse d» paz publica, ainda quando isto as 
constranja na livre confissão de suas doutrinas. Diverge Wach. 
(b) O projecto do C. p. ali. mencionava, além das «instituições e 
praticas das sociedades religiosas», as suas «doutrinas ou os objectos de sua 
adoração*. Estas ultimas palavras foram supprímidas em virtude de uma 
emenda do deputado Lasker. Entende-se pois que o art. 166 do C. p. actual só 
protege as «instituições e praticas de taes sociedades» e que disto se 
distinguem as «doutrinas e os objectos
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