GUIA PRÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA ASSESSORES E ESTAGIÁRIOS DE MAGISTRADOS
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DisciplinaIntrodução ao Direito I88.274 materiais530.956 seguidores
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a preposição EM, e não a. Exemplo: O acusado mora na (em 
+ a) Rua Sergipe. As palavras residente e morador também regem em: Residente 
na Rua Tal; Morador na Rua Tal. 
 
 
NNNNNNNNNNNNNNNNNN 
 
 
Nascido a, Nascido em 22 de março 
 
Tanto faz: nascer A 22 de março ou EM 22 de março. 
 
 
 
Necropsia 
 
Tanto faz: NECROPSIA ou NECRÓPSIA. Autópsia, essa sim, tem a sílaba tó 
mais forte. 
 
 
Nenhum, nem um 
 
Existem as duas formas. Nem um \u2013 separado \u2013 é usada quando se quer enfatizar a 
quantidade (no caso, um). Equivale a sequer um. Exemplos: 
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Não me ligou nem um amigo (sequer um amigo)?; 
 
Não tenho nem um real no bolso (sequer um real...). 
 
Os sentidos mais comuns de nenhum (junto) são os de qualquer, nulo e 
ninguém. Exemplos: Não fiz nenhuma tarefa (nulo); Amei-a como nenhum 
outro a amará (qualquer); Nenhum deles está aqui (ninguém). 
 
 
OOOOOOOOOOOOOOOOO 
 
O mesmo 
 
Observemos este trecho: 
 
O contratado se sente no direito de anular a locação, caso o \u201cmesmo\u201d não 
receba o valor das mensalidades... 
 
Para não repetir a palavra contratado, o autor do texto usou a palavra mesmo. Essa 
solução é vista, por alguns, como deselegante. Evite substituir nomes pela palavra 
mesmo. Prefira ele, ela, qualquer outro pronome (a função do pronome é 
justamente substituir ou acompanhar nomes) ou até a omissão do termo que se 
quer retomar. Melhorando, então, o trecho acima: 
 
O contratante se sente no direito de anular a locação, caso \uf066 não receba o valor 
das mensalidades... (omitiu-se o termo \u201co contratante\u201d, subentendido na sentença) 
 
A palavra mesmo deve, de acordo com a norma culta, ACOMPANHAR, e não 
substituir um nome: As mesmas pessoas, O mesmo advogado, etc. 
 
Outro exemplo: 
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O réu alega que... O mesmo afirma também que... 
 
Como a palavra \u201cmesmo\u201d está substituindo o nome \u201créu\u201d, melhor seria evitar tal 
construção. Algumas opções: 
 
O réu alega que... Ele afirma também que... (pronome) 
 
O réu alega que... O requerido afirma também que... (sinônimo) 
 
O réu alega que... \uf066 afirma também que... (omissão \u2013 ideia subentendida) 
 
Obrigado, obrigada 
 
Mulheres agradecem sempre utilizando a forma feminina: OBRIGADA. 
Homens, logicamente, dizem OBRIGADO. 
 
 
Oficiala de justiça 
 
Esse é o feminino de oficial de justiça, segundo alguns dicionários. Mas o 
Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa só registra o substantivo 
\u201cOFICIAL\u201d, sem o \u201ca\u201d, tanto para o masculino quanto para o feminino. Prefira 
essa última forma: a oficial de justiça. 
 
 
Onde (uso correto de \u201conde\u201d) 
 
Um dos grandes problemas gramaticais é o uso desenfreado do pronome onde. 
Costuma-se usá-lo todas toda vez em que equivale a em que ou no qual. Não é 
bem assim. O "ondismo" é responsável por tremenda deselegância textual. Veja 
três exemplos: 
 
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1) Nos momentos em que os modelos estão funcionando bem e \u201conde\u201d as 
contradições estão ainda latentes e não chegam a causar perplexidade...; 
 
2) (...) mas eles nos dão o tom do nosso tempo, \u201conde\u201d as atividades comerciais 
chegaram a um máximo de abrangência... 
 
3) O demandado apresentou contestação (seq. 19.1), \u201conde\u201d a parte alegou que 
cabe aos genitores manter financeiramente as despesas da filha. 
 
Vejamos que interessante. Em 1, o autor usou (adequadamente) em que logo após 
momentos (Nos momentos em que...) e, mais adiante, usou o onde, provavelmente 
para não repetir o em que. A melhor opção seria omitir o pronome: 
 
Nos momentos em que os modelos estão funcionando bem e \uf066 as contradições 
estão ainda latentes e não chegam a causar perplexidade... 
 
Você quer saber por que o onde não cairia bem nesse trecho? É que se deve usar 
onde somente no sentido de LUGAR EM QUE. Construções como momento 
"onde" e um tempo "onde" não são aconselháveis. 
 
Lembre-se: quando o termo antecedente indicar TEMPO (momento, hora, tempo, 
época, etc.) ou QUALQUER IDEIA que não seja claramente de lugar 
(contestação, petição, texto, etc.), use EM QUE ou NO(A)(S) QUAL(IS), em vez 
de onde. 
 
O exemplo 2 abriga a mesma falha: onde referindo-se à ideia de tempo. Melhor 
seria: 
 
(...) mas eles nos dão o tom do nosso tempo, EM QUE (ou NO QUAL) as 
atividades comerciais chegaram a um máximo de abrangência... 
 
Na frase 3, o pronome \u201conde\u201d retoma \u201ccontestação\u201d, cuja natureza de LUGAR é 
bastante discutível. Seria a contestação, realmente, um lugar? Para evitar 
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discussões, é melhor não usar o \u201conde\u201d e optar por formas genéricas, como EM 
QUE ou NO(A)(S) QUAL(IS): 
 
O demandado apresentou contestação (seq. 19.1), NA QUAL / EM QUE a parte 
alegou que cabe aos genitores manter financeiramente as despesas da filha. 
 
Alguns exemplos de o pronome onde sendo empregado adequadamente, com o 
sentido de LUGAR em que: 
 
3) Aquelas pessoas vivem em locais onde não há energia elétrica; 
 
4) Conhecemos o lugar onde ela está; 
 
5) Esta é a cidade onde vivo. 
 
Em todos esses exemplos, o antecedente de onde é um lugar. 
 
PPPPPPPPPPPPPPPPPPPPP 
 
 
Passado ou presente? 
 
 
Nos relatórios das sentenças, ao utilizar verbos referentes a pedidos e alegações 
das partes, observe a padronização do tempo: ou todos no presente, ou todos no 
passado. Veja um exemplo de construção evitável, na qual se misturam os 
tempos verbais: 
 
Trata-se de ação previdenciária... 
 
O autor alega, em síntese, que... (presente) 
 
Requereu a condenação do réu para o fim de... (passado) 
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Na contestação, o requerido arguiu, preliminarmente, a... No mérito, aduz que... 
(passado / presente). 
 
O ideal seria que tais verbos estivessem no mesmo tempo verbal, como nos 
exemplos abaixo: 
 
Trata-se de ação previdenciária... 
 
O autor alega, em síntese, que... (presente) 
 
Requer a condenação do réu para o fim de... (presente) 
 
Na contestação, o requerido argui, preliminarmente, a... No mérito, aduz que... 
(presente). 
 
OU 
 
Trata-se de ação previdenciária... 
 
O autor alegou, em síntese, que... (passado) 
 
Requereu a condenação do réu para o fim de... (passado) 
 
Na contestação, o requerido arguiu, preliminarmente, a... No mérito, aduziu 
que... (passado). 
 
 
Para mim e para eu 
 
 
Está comprovada a relação existente entre o bom uso do idioma e a credibilidade 
de seus usuários. A preocupação crescente com o falar e com o escrever fez que 
muitos veículos de comunicação divulgassem alguns dos principais erros do 
português. Desses, um ficou famoso: é o tal do para mim fazer, que constitui erro, 
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já que \u201cmim não faz nada\u201d, como se diz por aí. Gramaticalmente falando, mim é 
um pronome pessoal tônico do caso oblíquo, que, de regra, não pode funcionar 
como sujeito. A forma correta seria para eu fazer. 
 
A iniciativa preventiva é louvável. O único problema é que o conhecimento foi 
transmitido pela metade. Nem sempre o mim está errado, quando ao lado de um 
verbo. O nosso idioma é muito rico, passível de inúmeras construções frasais. 
Pode, portanto, o pronome mim acompanhar um verbo, não sendo sujeito dele. 
 
No exemplo É difícil para mim fazer isso, há um emprego perfeito do pronome 
mim. Mas, se você algum dia disser isso, provavelmente alguns possam qualificá-
lo de ignorante, baseados na falsa ideia de que o para mim fazer está sempre 
errado. Porém, não se preocupe. A sua construção estará correta. 
 
Observe estes dois exemplos: 
 
\u201cEmpreste-me o livro para mim ler\u201d