GUIA PRÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA ASSESSORES E ESTAGIÁRIOS DE MAGISTRADOS
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DisciplinaIntrodução ao Direito I88.301 materiais533.037 seguidores
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\u201cÉ complicado para mim ler o livro\u201d. 
 
Será que o mim está certo nas duas frases? Se a sua resposta foi negativa, você 
acertou. O primeiro exemplo está errado; o segundo, certo. 
 
Para saber quando devemos usar para mim ou para eu, há uma técnica muito 
fácil: basta tentar deslocar o para mim ao começo da frase. Se o deslocamento for 
possível, será realmente para mim. Se a frase perder o sentido com a mudança, 
será para eu. Reportemo-nos aos exemplos citados, a fim de compreendermos 
melhor esse fenômeno. 
 
Em \u201cEmpreste-me o livro para mim ler\u201d, vamos tentar mudar o para mim para o 
começo da frase: 
 
\u201cPara mim, empreste-me o livro ler\u201d. 
 
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Fez sentido? Obviamente não. Desse modo, observa-se que o correto é para eu, e 
o eu é sujeito do verbo \u201cler\u201d. Então, esta é a forma correta: 
 
\u201cEmpreste-me o livro para eu ler\u201d. 
 
Já no segundo exemplo \u2013 \u201cÉ complicado para mim ler o livro\u201d \u2013, o para mim 
pode ser deslocado: 
 
\u201cPara mim, é complicado ler o livro\u201d. 
 
Com certeza, deu certo. Então, é para mim mesmo: 
 
\u201cÉ complicado para mim ler o livro\u201d. 
 
Nesse caso, o mim não é sujeito. É, para quem gosta de termos técnicos, 
complemento nominal do predicativo do sujeito complicado. Mas a classificação, 
neste momento, não importa. 
 
 
Particípio (tenho entregado, foi entregue) 
 
Lembra-se das formas nominais do verbo? São três: infinitivo, gerúndio e 
particípio, que frequentemente aparecem juntas a um verbo auxiliar (como ter, 
haver, ser ou estar). Sem a pretensão de esgotar o assunto, e sim de refrescar a 
sua memória em relação à estrutura de cada uma dessas formas, dê uma olhadela 
nestas três variações: comprar, comprando e comprado. São exemplos de formas 
nominais, sendo, respectivamente, o infinitivo (a forma natural do verbo), 
gerúndio (termina em ndo) e particípio (cuja terminação é, geralmente, ado ou 
ido). 
 
Acontece que alguns verbos admitem mais de um particípio: um terminado em 
ado ou ido (regular) e outro reduzido (irregular). O verbo entregar é um bom 
exemplo. Possui dois particípios: entregado (regular) e entregue (irregular). 
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Para saber quando usar um ou outro, preste atenção aos verbos auxiliares que 
acompanharão o particípio. Se forem TER ou HAVER, use o particípio regular, 
terminado em ado ou ido: 
 
O carteiro já me tinha ENTREGADO as cartas (veja que o verbo ter foi usado 
juntamente ao entregado, que é regular); 
 
Eu já haverei ENTREGADO as encomendas amanhã (o verbo haver foi usado; 
então, usa-se o particípio regular); 
 
A carta já foi ENTREGUE (o verbo ser foi usado; o particípio tem que ser o 
reduzido, irregular); 
 
A moça já está ENTREGUE (como o verbo estar foi usado, empregou-se o 
particípio irregular). 
 
1) Quer dizer que a maneira correta é \u201cEu tenho pegado\u201d? 
 
Apesar de ouvirmos muitos usarem a forma Eu \u201ctenho\u201d pego, o ideal seria, de 
fato, Eu tenho PEGADO. É o particípio regular que deve, em regra, acompanhar 
os verbos ter e haver. O pego deveria, como já foi dito, ser usado somente com os 
verbos ser e estar \u2013 O ladrão foi pego, por exemplo \u2013, mas, como as pessoas 
nesse caso usam o irregular indiscriminadamente, ele passa a sobressair à forma 
pegado, que, muito em breve, deve deixar de ser usada. 
 
Outros verbos que admitem os dois particípios: aceitar (aceitado e aceito), 
acender (acendido e aceso), benzer (benzido e bento), concluir (concluído e 
concluso), eleger (elegido e eleito), envolver (envolvido e envolto), exaurir 
(exaurido e exausto), expelir (expelido e expulso), expressar (expressado e 
expresso), exprimir (exprimido e expresso), expulsar (expulsado e expulso), 
extinguir (extinguido e extinto), fritar (fritado e frito), imprimir (imprimido e 
impresso), inserir (inserido e inserto), limpar (limpado e limpo), matar (matado e 
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morto), prender (prendido e preso), romper (rompido e roto), salvar (salvado e 
salvo), soltar (soltado e solto), suspender (suspendido e suspenso), etc. 
 
 
Perito, perita 
 
Existe a forma feminina: PERITA. 
 
Pessoas gramaticais (mistura indevida) 
 
Há que se ter cuidado para não "misturar" algumas pessoas gramaticais. Pensemos 
no exemplo Pernas, pra que te quero, que ilustrará bem a questão. De tão 
cristalizada, essa frase parece perfeita, gramaticalmente impecável. Todavia, se a 
olharmos com mais calma, veremos que tem uma incoerência. Quando dizemos 
Pernas, pra que \u201cTE\u201d quero, supostamente estamos falando com as próprias 
pernas, não é verdade? Assim, o pronome não deveria ser dirigido a tu (pernas 
pra que \u201cte\u201d quero), mas a vocês ou a vós (menos comum): Pernas, pra que AS 
quero (ou Pernas, pra que VOS quero). Te só se refere a tu. Não nos esqueçamos 
disso. 
 
Se quiser usar te em um texto, certifique-se de que todos os outros pronomes e 
verbos referentes a ele estejam conjugados nessa pessoa (tu). Não se deve 
conjugar o verbo como terceira pessoa e utilizar pronome de segunda; nem 
conjugar o verbo como segunda utilizando pronome de terceira pessoa. 
 
Exemplo de erro: 
 
VOCÊ afirmou que o réu TE agredira. 
 
No exemplo acima, houve a \u201cmistura\u201d indevida de pronomes de terceira (você) e 
segunda pessoa (te) referentes ao mesmo ser. Haveria duas formas de corrigir a 
frase: 
 
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VOCÊ afirmou que o réu O agredira (ambos na terceira pessoa) OU 
 
TU afirmaste que o réu TE agredira (ambos na segunda pessoa). 
 
 
Possuir 
 
Esse verbo deve ser usado primordialmente no sentido de posse física. É evitável 
o seu emprego quando tal posse não estiver bem evidenciada, como se observa 
nos exemplos abaixo, em que bem poderia ser substituído por \u201cter\u201d: 
 
O autor \u201cpossui\u201d vinte e cinco anos de idade; (evitar) 
 
O autor \u201cpossui\u201d um contrato com a parte ré; (evitar) 
 
A autora \u201cpossui\u201d uma doença incurável. (evitar) 
 
Ponto e vírgula 
 
O ponto e vírgula é um sinal utilizado quando a pausa desejada não é nem tão 
breve quanto a da vírgula, nem tão longa quanto a do ponto. O ponto e vírgula 
representa, pois, uma pausa intermediária. 
 
Quando usá-lo? 
 
1) Em enumerações, principalmente se os elementos enumerados forem 
relativamente extensos e numerosos. Exemplo: 
 
Havia vários fatores que corroboravam sua personalidade violenta: morava 
numa região muito violenta, na qual tiros e facadas eram algo comum; nunca 
teve acesso à escola e à boa informação, por não desfrutar as condições 
econômicas básicas para isso; era espancado pelo pai quando tinha seis anos de 
idade; etc. 
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Veja que cada elemento enumerado é um período composto, com mais de uma 
oração (verbo). Essa extensão exige uma pausa maior que a da vírgula, mas não 
tão grande quanto a do ponto. É aí que entra o ponto e vírgula. Você também deve 
ter notado que, entre o último elemento e o etc., também foi usado o ponto e 
vírgula. Quando os grupos são separados pelo ponto e vírgula, o etc., se der 
continuidade a essa enumeração, deve ser precedido pelo mesmo sinal. 
 
2) Quando a vírgula marca a omissão de um verbo, pode haver, antes do sujeito 
desse verbo, uma pausa representada pelo ponto e vírgula ou pelo ponto simples. 
Exemplo: 
 
O general não temia o que lhe podia acontecer; os soldados, sempre (temiam); 
 
O general não temia o que lhe podia acontecer. Os soldados, sempre (temiam). 
 
Se a pausa em questão fosse marcada por uma simples vírgula, o sujeito os 
soldados poderia ser visto como um elemento intercalado (ver Vírgula), isolado 
por vírgulas, o que prejudicaria a fluência da leitura: O general não temia o que 
lhe podia