GUIA PRÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA ASSESSORES E ESTAGIÁRIOS DE MAGISTRADOS
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DisciplinaIntrodução ao Direito I88.315 materiais534.038 seguidores
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(ele), são escritos sem acento: Ele tem muito dinheiro; A cidade vem sofrendo 
muito. Mas, no plural, usa-se o acento circunflexo, a fim de diferenciá-lo do 
singular: Eles têm muito dinheiro; As cidades vêm sofrendo muito. 
 
 
Todo 
 
Quando se usa a palavra todo seguida de um nome (substantivo), deve-se ficar 
atento ao objetivo que se tem com a construção. Usar todo sem artigo é o mesmo 
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que dizer qualquer, todos os. Com o artigo, o sentido é de totalidade, a coisa 
inteira. Por exemplo: 
 
Todo processo (sem artigo) \u2013 significa todos os processos, qualquer processo; 
 
Todo O processo (com artigo) \u2013 significa o processo inteiro, em sua totalidade. 
 
 
Todos quatro 
 
Evite o artigo em construções com todo + numeral. O correto seria Todos quatro 
estavam lá, por exemplo, sem o artigo os. Entretanto, se o número acompanhar 
algum nome (substantivo), o artigo será necessário, como em Todos OS dois 
MENINOS estavam lá. 
 
Em suma: Todos dois estavam lá OU Todos OS dois MENINOS estavam lá. 
 
 
Traslado, translado 
 
As duas formas são aceitas. Translado é mais comum, apesar de traslado ser a 
forma erudita. 
 
 
Tratar-se de 
 
No sentido de ter como assunto, quem trata trata DE alguma coisa (ou SOBRE 
alguma coisa). Sem o \u201cse\u201d, está notando? Exemplo: O exercício trata DE 
questões filosóficas (ou SOBRE questões filosóficas). Veja que, nesse caso, o 
sujeito do verbo é claro (quem trata de questões filosóficas? O exercício... esse é o 
sujeito). 
 
Significando ter como assunto, o pronome se só caberá no verbo tratar quando o 
sujeito for indeterminado. Consequentemente, o verbo ficará sempre no 
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singular. E, como o sujeito é indeterminado, obviamente não se deve tentar 
construir um sujeito expresso para o verbo. Exemplos: 
 
Trata-se de pessoa que não demonstrou arrependimento (e não Trata-se \u201cO 
RÉU\u201d de pessoa que não demonstrou arrependimento); 
 
Trata-se de preliminares que não merecem acolhimento; 
 
Trata-se de problemas familiares. 
 
Em suma, a expressão \u201ctrata-se de\u201d, indicando assunto, jamais irá para o plural 
nem terá sujeito expresso. 
 
Ver também o item Se (concordância com a palavra \u201cse\u201d). 
 
 
Trema 
 
Não o use mais, a não ser em derivadas de palavras estrangeiras que o possuam 
(como \u201cmülleriano\u201d). Ver tópico sobre acentuação. 
 
 
UUUUUUUUUUUUUUUUUU 
 
Um certo mistério 
 
A norma culta do idioma português recomenda que se evite esse tipo de 
construção, apesar de comuníssima no português atual. A palavra mistério (um 
substantivo, por sinal) está acompanhada da palavra certo (que exerce o papel de 
pronome indefinido). Reza a norma que, quando ANTES de um substantivo 
vierem pronomes indefinidos como tal, certo, mesmo, outro, qualquer e tanto, não 
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se deverá usar o artigo indefinido um. Portanto, a forma erudita seria, a título de 
ilustração, Ela tem certo mistério (sem o um). Outros exemplos: 
 
Tive semelhante ideia (e não \u201cuma\u201d semelhante ideia); 
 
Dia desses, conheci outra garota loira (e não \u201cuma\u201d outra garota loira). 
 
Essa regra só vale nos casos em que os pronomes ou adjetivos vêm antes do 
substantivo. Se vierem depois, não há problema em usar o artigo indefinido. 
Exemplo: Tive semelhante ideia ou Tive UMA ideia semelhante (neste, o adjetivo 
semelhante vem depois do substantivo ideia). 
 
Dica: sempre que usar o artigo indefinido \u201cum(a)\u201d, confira se ele realmente é 
indispensável à frase. Comumente, é possível excluí-lo sem qualquer prejuízo, o 
que até confere mais elegância ao texto. Veja os exemplos abaixo, em que a 
exclusão dos artigos seria benéfica: 
 
Não havia \u201cuma\u201d maneira melhor de resolver o problema. 
 
A requerida demonstrou que não tinha \u201cum\u201d comprometimento com a filha. 
 
O coautor adotou \u201cuma\u201d postura semelhante. 
 
 
Usucapião 
 
É palavra feminina. O correto é dizer A usucapião. 
 
VVVVVVVVVVVVVVVVVV 
 
 
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Ver (e vir) 
 
O principal problema desse verbo reside no tempo futuro do modo subjuntivo. 
Para quem não lembra, o modo subjuntivo indica hipótese, suposição, algo que 
PODE ou DEVE ter acontecido no passado, presente ou futuro. As conjugações 
desse modo são, geralmente, acompanhadas de conjunções como quando, se e 
que (quando eu correr, se eu corresse, que eu corra). No futuro, usa-se, na 
maioria das vezes, a conjunção quando ou se: Quando eu morrer ou Se eu 
morrer. 
 
O verbo ver é um tanto quanto \u201cperigoso\u201d, pois se parece com o vir no futuro do 
subjuntivo. Exemplos: Quando você o VIR, dê-lhe um abraço. Quando eu vir (e 
não Quando eu \u201cver\u201d), quando tu vires, quando ele vir, quando nós virmos, 
quando vós virdes, quando eles virem. Parece o verbo vir, mas não é. 
 
O verbo vir ganha um e no futuro do subjuntivo: Quando eu viEr, quando tu 
vieres, quando ele vier, quando nós viermos, quando vós vierdes, quando eles 
vierem. 
 
Lembre-se de que todos os verbos derivados, salvo raras exceções, conjugam-se 
exatamente como os primitivos. O prever, por exemplo, é cópia fiel do primitivo 
ver. É só colocar o pre na frente. Exemplos: Eu (pre)vejo, tu (pre)vês, ele (pre)vê, 
etc.; Eu (pre)vi, tu (pre)viste, ele(pre)viu; Quando eu(pre)vir, quando 
tu(pre)vires, quando ele(pre)vir. 
 
Outros exemplos: Se eu (ante)pusesse...; Se esse papel (re)tiver a gordura...; Se 
nós (ante)víssemos os acontecimentos...; Os funcionários (pro)puseram um 
acordo à empresa. 
 
Vimos, viemos 
 
Alguns ofícios são redigidos com a fórmula inicial\u201cViemos\u201d através desta... Mas 
a construção está inadequada. Como o verbo utilizado é o VIR (eu venho, tu vens, 
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ele vem, NÓS VIMOS, vós vindes, eles vêm), a forma correta seria VIMOS, e não 
\u201cviemos\u201d. Outro vício é usar a expressão através de (ver tópico Através de) fora 
de seus sentidos originais (atravessar fisicamente ou decurso temporal). A forma 
ideal seria, portanto, VIMOS, por meio desta,... 
 
 
Vírgula 
 
1) Primeira regra de ouro: vírgula e sujeito 
 
É interessante, antes de compreendermos as regras básicas da vírgula, 
desmistificar um antigo conceito: o de que esse sinal indica somente a pausa na 
fala. Se pensarmos dessa maneira, o asmático virgulará de um jeito; o atleta, de 
outro. Em verdade, a vírgula depende, além da pausa, do conhecimento da sintaxe 
das orações, isto é, da maneira como são construídas. 
 
Diante disso você pergunta: "Mas tenho que saber toda aquela análise sintática 
que vi na escola?". Seria bastante oportuno, mas não é necessária a análise 
sintática completa. Somente alguns conceitos são fundamentais, os quais você 
conhecerá nas linhas que seguem. 
 
O principal conceito sintático a ser conhecido é o SUJEITO: ser sobre o qual o 
verbo informa algo. Para achá-lo, como já foi inúmeras vezes dito, basta perguntar 
Quem? ou Quê? a qualquer verbo. Quase todos os verbos têm um sujeito. Quando 
vamos corrigir um texto, temos que nos acostumar a visualizar os sujeitos dos 
verbos que escrevemos, para que não cometamos falhas comuns, como a de 
pontuação. Pensemos em um exemplo: 
 
Muitos homens, preferem o caminho do dinheiro. 
 
Perguntemos ao verbo: quem prefere? Sujeito: Muitos homens. Está vendo? 
Agora você pode conhecer a primeira regra de ouro da vírgula: 
 
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NÃO SEPARE O SUJEITO DO PREDICADO (resto da oração) POR 
VÍRGULA, NEM NA ORDEM INDIRETA! 
 
Logo, a forma correta seria Muitos homens preferem o caminho do dinheiro (sem 
a vírgula divorciando o sujeito do verbo). Outros exemplos: 
 
O homem que estuda vive mais (quem vive mais?