GUIA PRÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA ASSESSORES E ESTAGIÁRIOS DE MAGISTRADOS
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DisciplinaIntrodução ao Direito I88.321 materiais534.437 seguidores
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sintática da frase. Urge identificarmos A, B, C, e D (sujeito, verbo, complementos 
e circunstâncias). O que estiver \u201cno meio\u201d desses termos pode ser isolado por 
vírgulas. Uma prova de que esses elementos são interferentes é o fato de poderem 
ser excluídos da frase, sem prejuízo sintático. Vamos a um exemplo (os elementos 
interferentes vêm em negrito): 
 
Os marinheiros, pelo menos dizem por aí, não se comportaram na nova cidade. 
E, como não bastasse, aterrorizaram as mulheres do porto, que, por serem 
bastante recatadas, ficaram chocadas. 
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Veja que os elementos em negrito são intercalados e estão entre vírgulas. Se os 
excluirmos, a frase continuará sintaticamente perfeita: 
 
Os marinheiros não se comportaram na nova cidade. E aterrorizaram as 
mulheres do porto, que ficaram chocadas. 
 
As três orações presentes a esse trecho estão na ordem direta e, por isso, não 
levam vírgula: 
 
Oração 1 - Os marinheiros (A); comportaram-se (B); na nova cidade (D - 
lugar); 
 
Oração 2 - Os marinheiros (A - sujeito oculto); aterrorizaram (B); as mulheres 
do porto (C); 
 
Oração 3 - As mulheres (A - esse sujeito está sendo substituído pelo pronome 
que); ficaram (B); chocadas (C). 
 
6) Elementos intercalados: duas vírgulas ou nenhuma! 
 
Cuidado: como já repisado, a vírgula não depende somente da pausa. Depende, 
principalmente, da posição daqueles quatro elementos básicos da oração (sujeito, 
verbo, complementos e circunstâncias - A B C D). 
 
Vamos pensar no seguinte trecho do tópico anterior: 
 
E, como não bastasse, aterrorizaram as mulheres do porto. 
 
Notou a presença do e? Trata-se de uma conjunção, elemento responsável por 
ligar orações ou termos da oração. Vamos entender melhor esse conceito. 
 
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Observe estas duas orações, a título de ilustração: Os diretores da multinacional 
são egoístas; têm ajudado bastante os funcionários ultimamente. Primeiramente, 
sei que são duas orações porque há dois verbos (um deles - têm ajudado - é uma 
locução verbal, porque são dois verbos que valem por um). Como poderíamos 
unir essas duas orações? Usando uma conjunção, claro! Ela funciona como um 
conectivo: Os diretores da multinacional são egoístas, MAS têm ajudado 
bastante os funcionários ultimamente. Foi escolhida a conjunção mas em virtude 
de a segunda oração introduzir uma ideia contrária à expressa pela primeira. Se 
alguém nos diz que fulano é egoísta, espera-se que este não ajude ninguém, não é 
verdade? 
 
Sempre que usamos uma conjunção para ligar orações, devemos ter em mente que 
esse elemento conectivo introduz uma oração. Isso mesmo! Se há conjunção, na 
maioria das vezes ela introduz, inicia uma oração. Voltemos ao exemplo: 
 
E, [como não bastasse], aterrorizaram as mulheres do porto. 
 
Qual é a oração que a conjunção e introduz? Se você respondeu aterrorizaram as 
mulheres do porto, acertou! A oraçãozinha como não bastasse está entre a 
referida conjunção e a oração que ela introduz, \u201catrapalhando o caminho\u201d. É por 
isso que se devem usar DUAS VÍRGULAS. Elas isolam qualquer elemento que 
esteja interferindo na sequência natural da frase. 
 
Outros exemplos (as orações interferentes vêm entre colchetes, para facilitar a 
visualização): 
 
Os meliantes demonstraram melhora; entretanto, [como era de se esperar], não 
demoraram a fazer nova rebelião; 
 
Isso não é justo porque, [como o senhor mesmo sabe], eu não fui registrado em 
sua empresa; 
 
Eles nem têm diploma. E, [mesmo assim], ganham mais que os outros. 
 
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Veja que os elementos em negrito acima poderiam ser retirados da oração, sem 
prejuízo sintático. Como estão "atrapalhando" a sequência das orações, devem vir 
isolados por DUAS VÍRGULAS. Contudo, se forem de pequena extensão 
(exemplo 3), podem-se omitir as vírgulas: (...) E mesmo assim ganham mais que 
os outros. 
 
Detalhe importante: como já ressaltado, nesses elementos intercalados pequenos, 
usam-se duas vírgulas ou nenhuma. Em hipótese alguma se deve usar apenas 
uma (erro: "E mesmo assim, ganham..."). 
 
7) Vírgula após verbo e após \u201cque\u201d: pense muito bem antes de usar 
 
Sempre que tiver vontade de usar uma vírgula no texto, pense duas vezes. Afinal, 
se a oração estiver na ordem direta (sujeito, verbo, complementos e 
circunstâncias), em regra não há motivo para se usar a vírgula. Caso você a use 
mesmo assim, poderá separar, equivocadamente, o sujeito e o verbo, o verbo e o 
complemento ou este e a circunstância. 
 
Não é muito raro, nos textos jurídicos, encontrarmos uma vírgula logo após a 
conjunção \u201cque\u201d, separando-a erroneamente da oração que esse conectivo 
introduz. Da mesma forma, eventualmente se vê uma vírgula entre o verbo e essa 
mesma conjunção \u201cque\u201d. 
 
Guarde esta regra: 
 
NA CONSTRUÇÃO \u201cVERBO + QUE\u201d, NUNCA HAVERÁ UMA SIMPLES 
VÍRGULA ENTRE O VERBO E \u201cQUE\u201d OU LOGO APÓS \u201cQUE\u201d. 
 
Isso porque não se separa um verbo de seu complemento por vírgula na ordem 
direta, assim como não se separa a conjunção \u201cque\u201d da oração que ela introduz. 
Na prática, se houver dúvida, não use vírgula. 
 
Vejamos alguns exemplos ERRADOS: 
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a) O réu contestou no evento 14.5. Alegou QUE, o contrato contém cláusulas 
abusivas. 
 
b) Aduziu ainda, QUE fora induzido a erro. 
 
c) A testemunha declarou outrossim, QUE não conhece o réu. 
 
d) Esperava com isso, QUE a situação se resolvesse. 
 
Note que, se entre o verbo e o \u201cque\u201d por ele introduzido houver qualquer elemento 
intercalado, como nas três últimas frases anteriormente citadas, poderá haver 
DUAS VÍRGULAS ou NENHUMA, mas jamais uma só. 
 
Assim, as três últimas frases poderiam ser construídas sem qualquer vírgula OU 
com duas: 
 
Aduziu(,) AINDA(,) que fora induzido a erro. 
 
A testemunha declarou(,) OUTROSSIM(,) que não conhece o réu. 
 
Esperava(,) COM ISSO(,) que a situação se resolvesse. 
 
Da mesma forma, se entre \u201cque\u201d e a oração por ele introduzida houver qualquer 
elemento intercalado, poderá haver DUAS VÍRGULAS ou NENHUMA, mas 
jamais uma só. 
 
Retomemos o primeiro exemplo (letra \u201ca\u201d), desta vez com elemento intercalado 
após o \u201cque: 
 
O réu contestou no evento 14.5. Sustentou que, APESAR DO ALEGADO NA 
INICIAL, o contrato contém cláusulas abusivas. 
 
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Nesse caso, só foi possível a utilização de vírgula após \u201cque\u201d para o isolamento 
do termo \u201capesar do alegado na inicial\u201d. Repare que foram usadas DUAS 
VÍRGULAS para isolá-lo. Jamais poderia ter sido usada uma só. 
 
Em resumo: 
 
a) VERBO + QUE: nunca haverá uma simples vírgula entre eles. Se houver 
elemento intercalado, haverá DUAS ou NENHUMA. Exemplos: 
 
A testemunha declarou que desconhecia o corréu. (sem vírgulas) 
A testemunha declarou AINDA que desconhecia o corréu. (sem vírgulas) 
A testemunha declarou, AINDA, que desconhecia o corréu. (duas vírgulas) 
 
b) QUE + ORAÇÃO: nunca haverá uma simples vírgula entre eles. Se houver 
elemento intercalado, haverá DUAS ou NENHUMA. Exemplos: 
 
A testemunha declarou QUE desconhecia o corréu. (sem vírgulas) 
A testemunha declarou QUE ATÉ ENTÃO desconhecia o corréu. (sem vírgulas) 
A testemunha declarou QUE, ATÉ ENTÃO, desconhecia o corréu. (duas 
vírgulas) 
 
Antes de encerrarmos este tópico, é importante destacar mais uma vez que, quanto 
mais curto for o elemento intercalado, menos necessária será a utilização das 
vírgulas. Consequentemente, quanto mais extenso for o elemento intercalado, 
mais necessária será a utilização das vírgulas. A título de ilustração, vejamos estes 
exemplos: 
 
É importante considerar