GUIA PRÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA ASSESSORES E ESTAGIÁRIOS DE MAGISTRADOS
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DisciplinaIntrodução ao Direito I88.331 materiais534.885 seguidores
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e no entanto podem 
iniciar frases após ponto. Nesse caso, usa-se a vírgula depois: 
 
Muitos compareceram à festa daquele garoto. [Contudo, ele não tem amigos de 
verdade]. 
 
13) E a vírgula antes do "que"? 
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Para usá-la corretamente, você deve ter em mente um conceito muito importante, 
já abordado em outros tópicos: o pronome relativo. Entre várias funções, o que 
pode desempenhar a de pronome relativo. E é antes dele que a vírgula costuma 
aparecer de maneira equivocada. 
 
Pronome relativo é todo vocábulo que retoma um termo, substituindo-o, e 
introduz um verbo (oração). Veja este exemplo: 
 
Essa é a mulher que eu amo. 
 
Para saber se o que é pronome relativo, basta conferir se ele retoma um nome (que 
não precisa ser, necessariamente, um nome de pessoa; pode ser qualquer 
substantivo ou, ainda, pronome ou numeral). O nome que vem antes do que é 
mulher (a mulher que eu amo). Vamos tentar colocar mulher no lugar do que, 
para ver se a oração que o que introduz continuará a fazer sentido: a mulher eu 
amo. Sim, fez sentido! Para ficar ainda melhor, é só inverter a ordem da oração: eu 
amo a mulher. Se o que retomou um nome, pode-se dizer com certeza que é um 
pronome relativo. E há outro detalhe, também importante: todo pronome 
relativo introduz uma oração (enunciado com verbo). Veja só: Fulana é a 
mulher [que eu amo]. Viu? A oração que eu amo está ligada ao nome mulher. 
 
Vejamos mais um exemplo: 
 
As músicas de que gosto não constam no CD. 
 
A oração que o que introduz é de que gosto (se houver preposição - a, de, com, 
em, para, sobre, etc. - antes do que, ela integrará a oração que ele introduz). O 
nome que vem antes do que é músicas (músicas de que gosto). Se colocarmos 
músicas no lugar do que, a oração fará sentido: de músicas gosto (ou gosto de 
músicas). Pronto! O que é pronome relativo! E a oração que ele introduz está 
ligada a um nome: As músicas [de que gosto] não constam no elepê. 
 
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Outro exemplo: 
 
Todos nós queremos que ela melhore. 
 
O que introduz a oração que ela melhore. Será que ele é pronome relativo? Será 
que retoma um nome? Vamos tentar pôr o nós em seu lugar: "nós" ela volte. Não 
fez sentido. Se não retomou um nome, esse que não é relativo. E pode ver que a 
oração que ele introduz não está qualificando um nome, mas complementando um 
verbo: Todos nós queremos [que ela melhore]. A oração que ela melhore 
completa o verbo queremos. E nunca devemos separar por vírgula um verbo de 
seu complemento. 
 
Dica: quando pronome relativo, o que, na maioria das vezes, poderá ser 
substituído por O QUAL, A QUAL, OS QUAIS ou AS QUAIS. 
 
Bem, provavelmente você já deve ter compreendido o que como pronome relativo. 
Já sabe que ele sempre introduz uma oração. Pois é justamente essa oração que 
pode ou não ser isolada por vírgula(s). Tudo vai depender de seu significado, que 
pode ser RESTRITIVO ou EXPLICATIVO. Vamos entender? 
 
Veja estes dois exemplos: 
 
1) O homem que fuma vive menos; 
 
2) O homem, que é um ser vivo, deve rever suas atitudes. 
 
A oração que fuma não vem entre vírgulas; a que é um ser vivo, por sua vez, 
aparece isolada. Por que isso aconteceu? 
 
Ambas são introduzidas por um que relativo, certo? Vejamos qual dessas orações 
restringe, delimita o significado do nome a que está ligada. Nos dois casos, o 
nome é homem. A oração que fuma está restringindo o significado de homem. De 
todos os homens do mundo, a oração que fuma restringe, delimita, aponta 
somente aqueles que fumam. Isso quer dizer que a frase em questão não se refere 
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a todos os homens do mundo. Diz respeito somente àqueles que fumam. Por isso, 
a oração que fumam é restritiva. 
 
A oração destacada no item 2, que é um ser vivo, não restringe nada. Ela nos 
fornece uma ideia essencial do homem: todos os homens são seres vivos. É, 
portanto, explicativa. Perceba que ela não nos traz novidade alguma. Tanto isso é 
verdade que ela poderia ser excluída da frase, sem prejuízo ao significado: O 
homem \uf066 deve rever suas atitudes. 
 
Viu só? As explicativas sempre aparecem com vírgula(s). As restritivas, 
nunca! 
 
\uf0b7 Como saber se a oração é restritiva ou explicativa? 
 
Tenha em mente que a restritiva restringe, delimita. Seleciona um ou mais seres 
dentre vários. A explicativa somente explica algo que é essencial ao ser a que se 
refere. Antes de conferirmos novos exemplos, adotemos o seguinte raciocínio 
lógico: uma oração só poderá restringir um nome se ele pertencer a um 
grupo. Como delimitarei, restringirei um ser que é único? Não é possível! Logo, 
todas as orações iniciadas por pronome relativo que estiverem ligadas a um 
ser único serão explicativas: sempre com vírgula(s). Vamos a alguns exemplos: 
 
1) (...) a reserva é rasgada pela BR - 376, que liga Curitiba ao interior do 
Estado; 
 
2) Uma empresa demoliu A ESTRADA ASFALTADA que levava ao parque; 
 
3) A erosão está fortíssima. O PROBLEMA, que atinge outras áreas, não foi 
controlado a tempo. 
 
É interessante notar que todas as orações grifadas estão ligadas a um termo 
nominal (BR - 376, estrada asfaltada e problema, respectivamente). E o que, nas 
três orações, retoma os nomes, podendo ser substituído por o qual ou a qual. Isso 
nos faz ter a certeza de que, em todos os casos, ele é relativo. 
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Em 1, a oração que liga Curitiba ao interior do Estado foi separada por vírgula 
porque é explicativa. Não restringe BR - 376. Aliás, como poderíamos restringir a 
BR - 376? Há várias estradas com esse nome por aí? Claro que não. Por esse 
motivo, a oração ligada a ele só poderia ser explicativa. E com vírgula. 
 
Em 2, a oração que levava ao parque restringe, delimita o nome estrada 
asfaltada. Existem diversas estradas asfaltadas, e a referida oração restringiu, 
delimitou uma. 
 
No exemplo 3, a oração que atinge outras áreas explica o nome problema. Já 
sabemos algo sobre o nome problema. Ele se refere a erosão, que aparece um 
pouco antes. Desse modo, não se poderia restringir o problema, tendo em vista que 
se trata de um já especificado. A oração é explicativa (com vírgula), portanto. 
 
Vejamos outros exemplos: 
 
4) Os efeitos da revelia incidiram contra o réu, que não contestou. 
 
5) Os efeitos materiais da revelia não incidirão contra o réu que não contestou. 
 
6) Segundo a testemunha fulana de tal, que não presenciou o fato, o réu é pessoa 
de boa conduta social. 
 
7) Segundo a testemunha que presenciou o fato, o réu é pessoa de boa conduta 
social. 
 
Em 4, como foi usada a vírgula antes do relativo que, subentende-se que só há UM 
RÉU no processo. Como é ser único, não há como restringi-lo. 
 
Em 5, como não foi usada a vírgula, subentende-se que haja mais de um réu e que 
a informação se refere especificamente àquele que não contestou. 
 
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No exemplo 6, como foi nomeada a testemunha, trata-se de ser único, plenamente 
identificado, o qual, por isso, não tem como ser restringido. A oração introduzida 
pelo pronome relativo que só poderia ser explicativa. 
 
Por derradeiro, na frase 7, observa-se que foi usada a palavra \u201ctestemunha\u201d sem 
qualquer especificação, de modo que não se pode saber a qual delas o autor se 
refere. Como não foi usada vírgula antes do que, subentende-se que haja mais de 
uma testemunha e que o autor se refere, especificamente, àquela que presenciou o 
fato. 
 
 
\uf0b7 Só o que pode ser pronome relativo? 
 
Não. Qualquer palavrinha que retome um termo nominal e o introduza em uma 
nova oração é pronome relativo. Outros pronomes relativos