Guia de Aves da Planicie Alagável do Alto Rio Paraná
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Guia de Aves da Planicie Alagável do Alto Rio Paraná


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para
atrair pequenos peixes, deixam cair fezes sobre a água
enquanto estão empoleirados. Os martins-pescadores podem
ainda utilizar outra estratégia de pesca, pairando em pleno
vôo a uma altura de 5 a 10 m sobre a água, de onde observam
sua superfície e lançam-se sobre a presa assim que esta é
detectada.
Vivem solitários ou aos casais e nidificam em barrancos
expostos durante a seca nas margens dos rios, onde com os
pés cavam túneis que podem chegar a dois metros no caso do
martim-pescador-grande, havendo uma câmara no final que
é propriamente o ninho. É comum haver vários ninhos
próximos em um mesmo barranco. Machos e fêmeas cuidam
juntos da prole, alimentando-os com pequenos peixes e
invertebrados.
TUCANOS E ARAÇARIS
Os tucanos e os araçaris são aves da família
Ramphastidae, restritas à região Neotropical e consideradas
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Alguns grupos de aves encontrados na Planície
como um dos símbolos do continente. A principal
característica do grupo é o bico enorme, podendo ser do
tamanho ou maior que o corpo da ave. Apesar de duro e
cortante, é leve, poroso e muito sensível a lesões. Há grande
variação de cores tanto na parte externa quanto interna dos
bicos entre as diferentes espécies. A coloração viva, associada
à presença de estruturas semelhantes a dentes, torna o bico
uma estrutura extremamente chamativa, o que pode auxiliar
a amedrontar predadores e competidores, além de ter um
possível papel na atração de parceiros. Os bicos são usados
com grande habilidade na alimentação, lançando o alimento
para trás e para cima em direção a garganta, enquanto a
ave abre o bico para o alto. A plumagem também é vistosa e
bastante colorida em algumas espécies.
Os sexos são semelhantes na maioria das espécies, sendo
os machos geralmente mais pesados e com o bico um pouco
mais longo e colorido. Sua vocalização, muitas vezes,
assemelha-se a um ronco. Basicamente, são espécies que se
alimentam de frutos; contudo, podem predar pequenos
invertebrados, ovos, filhotes de aves e capturar morcegos em
seus dormidouros.
Na planície alagável do alto rio Paraná foram registradas
duas espécies da família. O tucanuçu (Ramphastos toco) é a
maior espécie do grupo e muito comum na região. Possui
bico amarelo-alaranjado com faixas avermelhadas, com uma
grande mancha negra arredondada na ponta da parte
superior. A região da garganta é branca, a íris é azul,
circundada por uma área nua alaranjada, sendo o restante
do corpo negro. Sua observação em campo é facilitada, já
que utiliza áreas razoavelmente abertas e bordas de florestas,
além de ter o hábito de permanecer pousado na extremidade
de galhos secos em árvores altas. É freqüentemente visto
cruzando o rio Ivinhema sozinho ou em casais. Costuma
saquear os ninhos de outras aves, por isso é comum observá-
lo sendo perseguido e atacado em vôo por outras aves.
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Aves da planície alagável do alto rio Paraná
O araçari-castanho (Pteroglossus castanotis) tem o bico
predominantemente negro na parte inferior e claro em cima.
A cabeça, garganta e região dorsal são escuras, com penas
avermelhadas próximo à cauda. Há uma faixa vermelha
separando o peito e a barriga amarelos. É menos conspícuo
do que a espécie anterior, pois não costuma freqüentar tanto
as áreas abertas e tem o hábito de deslocar-se através das
copas das árvores, passando às vezes despercebido entre a
folhagem. Vive em pequenos bandos e não costuma saquear
ninhos de outras aves como o tucanuçu.
Ambas as espécies fazem os ninhos em ocos de árvores,
geralmente em locais anteriormente usados por outras aves,
principalmente papagaios, araras e pica-paus. Os ocos são
também usados como local de dormitório.
PICA-PAUS
Os pica-paus são aves da família Picidae, de ampla
distribuição mundial e com alta riqueza de espécies na região
Neotropical. Seu bico, reto e forte, é capaz de funcionar como
um cinzel. Este bico possui grande poder de perfuração, sendo
resistente o suficiente para não ser danificado pelos fortes
golpes desfechados contra o tronco das árvores na busca por
invertebrados escondidos ali. Associado a este bico, há uma
língua comprida (podendo alcançar 5 vezes o tamanho do
seu bico), sendo a sua extremidade composta por farpas
desenvolvidas e com alta capacidade de adesão em função do
viscoso muco ao seu redor. O crânio possui adaptações para
proteger o cérebro das trepidações geradas pelos poderosos
golpes no tronco das árvores. Desta forma, o alimento pode
ser retirado de pequenas frestas ou orifícios do caule. Possuem
pernas curtas, com pés fortes para se agarrar aos troncos e a
cauda é utilizada pela maioria das espécies como ferramenta
de apoio para o corpo em substratos verticais.
A maioria dos pica-paus tem nas árvores seu principal
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Alguns grupos de aves encontrados na Planície
local de vida, contudo alguns podem utilizar o solo com certa
regularidade. Seus movimentos no tronco das árvores são
expressos por saltos para cima, mantendo os pés lado-a-lado,
onde algumas espécies podem descer de ré ou de frente. Os
sexos são parecidos, com o macho muitas vezes diferenciando-
se pela presença de estrias malares ou manchas vermelhas no
vértice ou na nuca. Para a maioria das espécies predominam
na alimentação formigas, larvas de insetos e outros
invertebrados. Contudo, também podem consumir alimentos
de origem vegetal, tais como frutos e sementes.
Os sons que os pica-paus produzem ao bater seu bico no
caule das árvores estão entre os barulhos que mais chamam a
atenção em uma floresta e possuem duas naturezas diferentes.
O som realizado pelas espécies enquanto buscam seu alimento
ou perfuram um local para a reprodução é chamado de
cinzelar, ao passo que aquele produzido em partes secas e
ocas, capazes de ampliar seu volume, é conhecido como
tamborilar. A função do tamborilar pode ser a demarcação
de território, sendo uma poderosa ferramenta de comunicação
associada à vocalização das espécies.
Devido ao fato de ocuparem as áreas abertas da planície,
terem coloração chamativa e hábitos conspícuos, o pica-pau-
do-campo (Colaptes campestris) e o pica-pau-branco ou birro
(Melanerpes candidus) certamente são as duas espécies mais
conhecidas da família na região. A primeira diferencia-se
das demais espécies do grupo por ser observada
principalmente no chão, onde caça invertebrados. Vive em
casais ou pequenos grupos, vocalizando bastante durante o
vôo. O pica-pau-branco, inconfundível espécie alvinegra,
habita também as bordas de florestas e vive sempre em grupos,
cujos membros se comunicam através de gritos fortes.
Também bastante comuns na região, porém bem menos
conspícuas do que as anteriores, são o pica-pau-anão-
barrado (Picumnus cirratus), o pica-pau-anão-escamado
(Picumnus albosquamatus) e o picapauzinho-anão (Veniliornis
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Aves da planície alagável do alto rio Paraná
passerinus). As três espécies são bastante pequenas, vivem
invariavelmente em árvores ou arbustos e suas vocalizações
são bem mais fracas e menos chamativas do que as das
espécies anteriores. O hábito florestal e sua cor pouco
conspícua nesse ambiente tornam o picapauzinho-anão
ainda mais difícil de ser observado.
O benedito-de-testa-amarela (Melanerpes flavifrons) é
outro habitante das florestas da região, porém tem cores bem
chamativas e é bastante barulhento, tornando mais fácil
detectar sua presença na área. Ao contrário da maioria das
espécies de pica-paus florestais, é uma espécie sociável,
podendo ser registrado em grupos e construindo ninhos
próximos uns dos outros. Também florestais, o pica-pau-de-
banda-branca (Dryocopus lineatus), o pica-pau-de-cabeça-
amarela (Celeus flavescens) e o pica-pau-rei (Campephilus
robustus) são as maiores espécies do grupo registradas na
região. A presença destas em uma área pode ser indicada
pelas fortes batidas do bico no tronco de uma árvore, capazes
de serem ouvidas a longas distâncias. Cada uma destas três