Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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devem estar baseadas em:
\u2022	 trocas extensivas de estratégias, políticas e programas relaciona-
dos às áreas contempladas, em especial promoção da inovação, 
definindo prioridades potenciais, mecanismos e ferramentas;
\u2022	 os acordos devem ser baseados nos princípios da participação 
voluntária, igualitária e de mútuo interesse e reciprocidade, 
assim como de acordo com a disponibilidade de recursos dos 
países formadores; e
\u2022	 intenção de incremento de laços cooperativos que facilitem o 
desenvolvimento socioeconômico ancorados em ciência, tec-
nologia e inovação.
Dessa forma, para cumprir as disposições citadas, os cinco paí-
ses acordaram em: (i) assumir que ciência, tecnologia e inovação de-
sempenham papel central e crescente na consolidação do processo 
BRICS, permitindo aumentar a qualidade de vida e a competitivi-
dade das nações envolvidas, propiciando maior capacidade de en-
frentar os múltiplos desafios comuns; (ii) promover regularmente o 
SOM, viabilizando revisar periodicamente os planos estratégicos e 
definir as ações futuras e imediatas; e (iii) construir gradativa e cres-
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Ronaldo Mota
centemente as colaborações entre os países nas áreas estratégicas 
definidas, incluindo: (a) intercâmbio de informações nas políticas da 
área, com especial ênfase nos programas de inovação e de transfe-
rência de tecnologia; (b) segurança alimentar e agricultura susten-
tável; (c) mudanças climáticas e prevenção de desastres naturais; 
(d) energias renováveis, novas energias e conservação; nanotecnolo-
gia; (e) pesquisa básica, como elemento imprescindível para inovação 
de qualidade e competitiva; (f) ciências aeroespaciais e aeronáuti-
ca, astronomia e imagens de satélites; (g) medicina e biotecnologia; 
(h) recursos hídricos e tratamento de poluição; (i) parques tecnológi-
cos e incubadoras de empresas; e (j) aumento do fluxo de cientistas 
e de jovens universitários entre os países, estimulando os países a 
prover recursos em programas especiais de trânsito, bem como para 
realização de eventos comuns em temas de interesse mútuos.
Na efetivação dessas propostas, os cinco países concordaram 
em definir cada qual um membro de contato integrante do núcleo 
de coordenação, garantindo que os programas terão continuidade 
e que poderão ser avaliados continuamente, em especial por oca-
sião do próximo evento anual, a ocorrer na África do Sul em 2012.
Produção e transFerênCia de ConheCimentos nos BriCs 
Tradicionalmente, assume-se que as ciências puras e aplicadas 
podem engendrar tecnologias, as quais, a depender da capacidade 
de absorção do mercado e da escala do público consumidor, podem 
se caracterizar como inovação. Esta cadeia linear por muito tempo 
distanciou a livre e descompromissada produção do conhecimento 
da extremidade oposta, vinculada às demandas do mercado con-
sumidor3. 
3 KHAN, Abdullah M.; ROY, Priya. \u201cA Technological Innovation In The Bric Economies (Tseng, Chun-
Yao)\u201d. Research Technology Management, v. 3, mar./abr. 2009. \u201cGlobalization And The Determinats Of 
Innovation In Brics Versus OCDE Economies: A Macroeconomic Study\u201d. Journal of Emerging Knowl-
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O Brasil, os BRICS e o cenário de inovação
A realidade recente impõe que a forma de produzir conheci-
mentos e de transmiti-los tem se alterado radical e profundamen-
te4. A ciência historicamente se assenta na liberdade individual de 
cátedra e em linhas de pesquisa que caracterizavam o pesquisador 
clássico, cuja função primeira, isoladamente ou em conjunto com 
seus estudantes e raros parceiros, tem sido alargar as fronteiras, 
indo além do estado da arte. Em geral, a principal motivação dos 
temas são os desafios inerentes à subárea, sendo as eventuais apli-
cações futuras definidas em outros contextos e em tempos de esca-
las diversas, a depender da linha de pesquisa específica.
Os países do grupo BRICS, a exemplo do Brasil, respeitadas 
suas respectivas singularidades, demonstraram em geral nas últi-
mas décadas uma habilidade extraordinária em aumentar a capa-
cidade de produzir conhecimentos com uma produção científica 
crescente em níveis bem acima da média mundial em quase todas 
as áreas. Por outro lado, atestaram até aqui notável fragilidade em 
transferir conhecimento ao setor produtivo, em relação ao qual a 
China tem se constituído em caso a parte; no Brasil são exceções 
as áreas dos agronegócios e os raros setores industriais bem iden-
tificados. 
Para agravar o quadro, os balizadores com que se produz ciên-
cia têm se alterado de tal forma, que uma nova dinâmica impõe 
que as demandas da sociedade passam a ser elementos definidores, 
ainda que não únicos, dos principais programas de pesquisa. Ou 
seja, aquilo que até recentemente tinha peso complementar passa 
a ter preponderância inédita. Da pesquisa quase individual passa-
mos rapidamente às imprescindíveis redes de pesquisa; das linhas 
de pesquisa quase isoladas estamos migrando para programas de 
edge on Emerging Markets, v. 3, article 4, 2011. Disponível em: <http://digitalcommons.kennesaw.edu/
jekem/vol3/iss1/4>.
4 Global Network for Learning, Innovation and Competence Building Systems. Ver: <http://www. 
globelics.org>.
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Ronaldo Mota
natureza multidisciplinar motivados por demandas em geral com-
plexas, portanto, intratáveis à luz de linhas de pesquisa ou indiví-
duos isolados, exigindo múltiplos olhares e abordagens de equipes 
integradas oriundas de diversas áreas.
Em outras palavras, esses movimentos podem ser descritos 
pela substituição gradativa da cadeia linear, que impunha uma 
distância entre a ciência e a inovação, colocadas em extremidades 
opostas por um círculo completo contemplando ciência, tecnologia 
e inovação. Nessa cadeia, as demandas da inovação influenciam e 
de certo modo definem, a depender da área específica do conheci-
mento, os rumos da ciência. 
Desta reestruturação resultam novos estímulos a que o pes-
quisador, adicionalmente à sua atuação clássica em universidades 
e centros de pesquisa, explore espaços quase virgens: no caso bra-
sileiro, em institutos tecnológicos ou setores de pesquisa e desen-
volvimento de empresas. Esses espaços, por sua vez, influenciam, 
por meio da interação com as demandas, os programas de pesquisa 
e os temas selecionados para as orientações de seus estudantes.
Tais alterações remetem à necessidade de esses países re-
pensarem profundamente a forma com que têm produzido co-
nhecimentos. Além disso, as formas pelas quais transmitimos 
conhecimento demandam uma análise urgente a partir da ques-
tão de como formar profissionais aptos e preparados para um 
cenário em que a inovação passará a exercer uma centralidade 
inédita. As metodologias usuais são caracterizadas pela prática 
de professores que, ao ministrar conhecimentos, pressupõem 
aprendizes que nada sabem da matéria específica até então; tra-
ta-se de pedagogias baseadas no estudar somente após a aula, 
conferindo posteriormente se o aluno aprendeu ou não5. 
5 MOTA, R. \u201cO papel da inovação na sociedade e na educação\u201d. In: COLOMBO, Sonia; RODRIGUES, 
Gabriel (orgs.). Desafios da gestão universitária contemporânea. Porto Alegre: Artmed, 2011, pp. 81-96; 
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O Brasil, os BRICS e o cenário de inovação
Tais práticas são essencialmente conflitantes com o mundo 
da educação permanente e são incongruentes com a revolução 
educacional em curso, caracterizada por uma realidade na qual os 
conhecimentos são cada vez mais acessíveis, instantaneamente 
disponibilizados e gratuitamente distribuídos. Nesse novo cená-
rio, estimular os processos autoinstrutivos em seus limites supe-
riores e explorar os estudantes a estudar antes das aulas \u2013 as quais 
passam a ter uma dinâmica de outra qualidade e natureza \u2013 são 
ingredientes indispensáveis aos processos formativos de cidadãos 
compatíveis com o mundo da inovação.
o Brasil no Contexto dos BriCs