Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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registrar que os EUA 
continuam ainda a ocupar uma posição de superioridade em ou-
tras áreas \u2013 como a estratégica e a cultural. 
A maioria dos analistas estima que, entre 2020 e 2025, a Chi-
na, hoje segunda potência econômica do mundo, ultrapassará os 
EUA. Caminhamos, então, para um mundo multipolar ou, talvez 
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Affonso Celso de Ouro-preto
mais exatamente, para um mundo onde se registram sinais cres-
centes de multipolaridade. 
Segundo uma tentativa muito sumária de definição, o poder 
expressaria simplesmente a capacidade de um país de influir em 
determinadas áreas ou simplesmente na área internacional. Seria 
a capacidade de um Estado ou de uma organização de expressar 
seus interesses e seus objetivos, além de suas fronteiras, em outros 
Estados ou na comunidade mundial. O poder, igualmente, assume 
formas e manifestações diferentes e se expressa em áreas específi-
cas, como o poder econômico, o político, o estratégico e o cultural. 
A expansão ou a manutenção dessas formas de poder não coincide 
necessariamente no tempo.
Vemos hoje o crescimento econômico chinês, que, como se 
disse, ultrapassará, ao que tudo indica, os EUA em breve. No entan-
to, os EUA mantêm e provavelmente manterão por muito tempo 
uma superioridade no campo militar e até certo ponto no campo 
político, ainda que a sua hegemonia econômica tenda a diluir-se. 
Todavia, a legitimidade do poder americano, com os desacertos da 
administração de Bush, sofreu, ao que tudo indica, uma acentua-
da erosão, ainda que não seja possível, evidentemente, apresentar 
níveis precisos nesse particular. Por outro lado, apesar de esperan-
ças iniciais, não se vislumbram indícios de retorno da legitimidade 
global ou básica dos EUA com a presente administração de Obama. 
É fácil encontrar na história exemplos de defasagens entre 
formas de poder.
A Grã-Bretanha, por exemplo, na segunda metade do século 
XIX, continuou a desempenhar um papel de potência praticamente 
hegemônica quando tanto a Alemanha, unida desde 1870, quanto 
os EUA já haviam alcançado um patamar de poder econômico sen-
sivelmente superior ao britânico. Os EUA, por sua vez, no período 
entre as duas guerras mundiais, já haviam firmado, claramente, 
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Nova confirmação de poder
uma posição de economia de maior dimensão do mundo. O seu 
papel na política internacional, nesse período, marcado pelo seu 
isolacionismo, não correspondeu ao seu peso econômico. O Japão, 
uma geração após a Segunda Guerra, apesar de seu já alcançado 
gigantismo econômico que o levou, então, ao segundo lugar no 
mundo, desempenhou um papel extremamente modesto na polí-
tica mundial.
A China, por sua vez, apesar de ter ultrapassado há apenas 
dois anos o Japão na escala do poder econômico, tornando-se a 
segunda potência do mundo, já vinha ocupando um espaço político 
de crescente importância desde a Guerra da Coreia.
O poder econômico e o poder político não coincidem, portan-
to, necessariamente, no tempo, pelo menos em curto ou médio 
prazos.
No caso da China, o Estado concentrou os seus recursos no 
desenvolvimento econômico, mantendo um ritmo estonteante de 
expansão. A prioridade (apesar das acusações que lhe foram feitas) 
não foi desenvolver a sua defesa, mas garantir a sua expansão e a 
modernização de sua sociedade, em uma tentativa, bem-sucedida, 
mas ainda em curso, de elevar o país de seu nível de baixo desen-
volvimento econômico e social e de simplesmente expressar na sua 
região um poderio militar necessário para a garantia de objetivos 
nacionais, como a unidade do país. 
Convém registrar, ainda, que o poder cultural, o que chama-
ríamos soft power, pode manter-se por períodos demorados, afas-
tado ou separado dos patamares concretos de peso econômico ou 
político.
Hoje sentimos, claramente, um soft power norte-americano, 
expresso pelo domínio da língua inglesa, do cinema e da música dos 
EUA, da fraseologia norte-americana na linguagem da informáti-
ca. No entanto, durante todo o século XIX (assim como o XVIII) e 
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boa parte do XX, o francês foi a língua da cultura e quase sempre 
a \u201clíngua franca\u201d das comunicações internacionais. A França, toda-
via, havia deixado de ser uma superpotência há muito tempo antes 
da Primeira Guerra Mundial e mesmo desde o fim do século XIX. 
O prestígio e o peso de sua cultura se mantinham independente-
mente do peso da sociedade francesa na comunidade internacional. 
Por outro lado, conviria lembrar que a superioridade estra-
tégica norte-americana, hoje existente, provavelmente não se 
expressará de uma maneira semelhante à que ocorreu nos anos 
posteriores ao fim da Guerra Fria. Apesar de sua superioridade 
militar, assistimos hoje a uma dificuldade crescente dos EUA para 
enfrentar as crises modernas, como o Afeganistão, e para dar cabo, 
satisfatoriamente de acordo com os seus interesses, ao conflito no 
Iraque. Vimos uma relutância americana em assumir a liderança 
ou uma posição de destaque no conflito no qual os países da Or-
ganização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) intervieram na 
Líbia. O poder americano continua e ainda pode ser definido como 
o mais importante, mas é usado hoje com mais precaução do que 
em um passado recente. Em suma, o unipolarismo, com um Estado 
hegemônico que se delineou após o fim da Guerra Fria, constituiu 
um modelo que não se consolidou. Caminhamos para um mundo 
complexo, onde surgem vários centros de poder sem que o peso 
econômico desses vários centros coincida sempre com a sua ex-
pressão política e sem que se firmem claramente superioridades 
culturais.
Verificamos, hoje, nesse mundo complexo, a existência do gru-
po dos BRICS. Como se sabe, a expressão foi cunhada no Goldman 
Sachs em 2001 e não partiu de uma iniciativa dos países-membros 
do grupo.
Os BRICS \u2013 Brasil, Rússia, Índia e China, aos quais se acres-
centou, em 2010, a África do Sul (aparentemente para incluir a 
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Nova confirmação de poder
África no grupo) \u2013 não constituem um conjunto jurídico, criado 
por um tratado formal, nem uma aliança militar, uma zona de li-
vre-comércio ou uma união aduaneira. Não desenvolvem uma po-
lítica monetária conjunta. 
Os BRICS se distinguem entre si, profundamente, no plano 
econômico. A China, apesar de manter ainda mais da metade de 
sua população na área rural, já possui um amplo setor industrial e 
desenvolveu um comércio internacional baseado, de maneira cres-
cente, na exportação de produtos com cada vez mais elevado teor 
tecnológico. Essa exportação, até recentemente, era constituída 
por produtos de baixo valor agregado, como têxteis ou brinque-
dos. Essas mercadorias vêm sendo substituídas por exportações de 
valor agregado crescente. Uma parcela da indústria ainda conside-
rável, mas cuja dimensão diminui, encontra-se, por enquanto, sob 
controle estatal. 
A Rússia, apesar de seu passado de grande potência indus-
trial, define-se hoje, basicamente, apesar de seu nível elevado de 
educação, como o exportador de um produto \u2013 petróleo e gás \u2013, 
e sua expansão econômica oscila com o valor dessas commodities. 
A Índia vende serviços para o exterior \u2013 basicamente softwear.
O Brasil, como é sabido de todos, exporta cada vez mais uma 
cesta de commodities \u2013 minério de ferro, bem como soja e subpro-
dutos. Vende, ainda, para o exterior outras commodities, como café, 
açúcar, etanol, celulose, carnes, suco de laranja, fumo, nióbio e ou-
tros. Começa a exportação do petróleo. A sua exportação de produ-
tos industrializados vem diminuindo em termos relativos e tende 
a concentrar-se em certas áreas específicas, como a América do Sul 
(Mercosul), México e até certo ponto os EUA e a Europa. A Áfri-
ca do Sul reproduz um modelo de exportações, em certa medida, 
parecido com o do Brasil. No plano econômico, assim, os BRICS 
frequentemente não agem de maneira conjunta.