Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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Qualquer tentativa de análise do novo multipolarismo e do papel 
dos BRICS levará a uma tentativa de examinar, com mais atenção, 
a expansão da China e a eventual rota que o país seguirá.
A China vem sendo analisada por inúmeros observadores dian-
te de sua evidente e crescente importância no sentido de deslocar o 
eixo do mundo para o Pacífico. O último analista importante, cuja 
análise foi apresentada recentemente, possivelmente foi o Pro-
fessor e ex-Secretário de Estado Henry Kissinger, no seu livro On 
China, publicado há pouco. A obra foi objeto de estudo pela Profes-
sora Anna Jaguaribe em artigo publicado na revista Política Externa.
Kissinger (como outros autores), no seu livro, desenvolve e 
insiste no tema da singularidade chinesa que se prolonga até ago-
ra. Lembra que essa singularidade se expressa pelo fato de que a 
China, cuja riqueza até o fim do século XVIII, em termos relativos, 
alcançava o nível europeu de então, se definia não como um Estado 
\u2013 semelhante a outros Estados soberanos \u2013 mas como uma civili-
zação à qual os países vizinhos prestavam tributo e homenagem, 
e cuja cultura tentavam assimilar. Além desses países marcados 
pela cultura chinesa, existiam os bárbaros, inclusive os povos eu-
ropeus. A ideologia predominante era o confucionismo \u2013 marcado 
pelo respeito por ordem, equilíbrio e estabilidade \u2013, que dá, ainda 
hoje, sinais crescentes de retornar como elemento importante, ou 
talvez básico, da cultura chinesa. Essa ideologia provavelmente se 
expressa na ênfase concedida à ideia de sociedade \u201charmônica\u201d, 
hoje oficialmente adotada.
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Nova confirmação de poder
Além da singularidade assinalada por vários autores, inclusive 
pelo antigo Secretário de Estado, verifica-se que a China moderna, 
após a proclamação da segunda República e a vertiginosa expansão 
econômica do país iniciada há mais de quarenta anos e mantida des-
de então, tornou-se uma sociedade parcialmente (na medida em que 
cerca da metade da população é ainda rural) industrial. Voltou a ocu-
par um espaço semelhante ao que ocupara até o fim do século XVIII. 
Sua dimensão e seu dinamismo são hoje tamanhos, que os observa-
dores coincidem em definir o país como a locomotiva do mundo. Co-
locou-se a questão de estudar a posição da China na redistribuição 
de poder do mundo presente, onde o Ocidente, inclusive os EUA, dá 
sinais crescentes de crise em todos os sentidos e mostra um claro 
esvaziamento de sua potência. Os historiadores frequentemente es-
tudam com especial atenção os momentos ou os processos em que 
as potências que controlam o poder no mundo são substituídas por 
outras potências ou simplesmente por outra superpotência.
A maior parte dos observadores, inclusive Kissinger, concorda 
em acreditar que a China, nos seus objetivos nacionais, não inclui 
a ambição de alcançar uma hegemonia global no mundo ou alterar, 
pela força, a presente distribuição de poder mundial.
Vários motivos explicariam essa opinião. A China nunca se 
expandiu pelos oceanos nem adquiriu ou conquistou um império 
colonial, nem sequer durante o período em que claramente gozava 
de uma superioridade econômica e técnica sobre o resto do mundo. 
No início do século XV, durante a dinastia Ming, como se sabe, vá-
rias expedições navais chinesas, dirigidas pelo mesmo almirante, 
alcançaram o litoral oriental da África, a península arábica, a Índia, 
após percorrer as regiões que constituem hoje a Indonésia e as Fi-
lipinas. Muito rapidamente as explorações chinesas foram suspen-
sas e nunca mais se tentou enviar navios imperiais para longe do 
litoral do país nem se estabeleceram feitorias ou colônias, como 
ocorreu com os países ocidentais.
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Affonso Celso de Ouro-preto
A cultura do país, impregnada de confucionismo, não favore-
ceria a ideia de conquistas além-mar ou imperialismos semelhantes 
aos ocidentais. A tradição chinesa postularia que o país \u2013 o Império 
do Meio \u2013 expressaria um poder tradicional, às vezes simbólico, 
em uma ampla região \u2013 ou seja, a Ásia Oriental \u2013, sem exagerados 
usos da força. Historicamente, a suposta superioridade da cultura 
chinesa, reconhecida na região, constituiria uma das bases desse 
poder. Hoje, seria a consolidação da \u201csociedade harmônica\u201d um re-
flexo da cultura confucionista. 
No entanto, esse ideal aparentemente pacífico expressaria o 
fato de que a China visou e visa, ainda, prioritariamente, a um de-
senvolvimento econômico, até hoje bem-sucedido, no contexto de 
uma modernização, mas que não foi ainda alcançado plenamente 
para assegurar, em um clima de estabilidade, a ordem, a paz e um 
necessário bem-estar a sua gigantesca população. O caminho é lon-
go, ainda, para alcançar níveis de prosperidade que se aproximem 
até os de outros BRICS, sem mesmo mencionar os níveis de rique-
za dos ocidentais.
Essa prioridade concedida à expansão da economia poria de 
lado qualquer veleidade de disputar espaços na escala do poder es-
tratégico-militar.
Sem esforço especial no sentido de uma corrida armamentis-
ta, parece garantida a legitimidade do regime, provavelmente ba-
seada, em boa parte, em um nacionalismo pelo qual se expressa 
uma adesão aos objetivos nacionais de união do país, de poder na 
sua região específica, bem como os de expansão e modernização 
econômica que se mencionaram. O reconhecimento, hoje plena-
mente aceito, da China como grande potência contribui provavel-
mente para a confirmação dessa legitimidade.
Certos sinólogos contemporâneos, como Barry Buzan, ten-
tam definir os atuais objetivos chineses como \u201creformistas revisio-
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Nova confirmação de poder
nistas\u201d, distantes de ambições \u201crevolucionárias\u201d existentes ou per-
ceptíveis durante a maior parte do Governo de Mao, assim como 
de atitudes de \u201cindiferença\u201d \u2013 ou seja, detached \u2013 frente à sociedade 
internacional ou de satisfação com o status quo (que visivelmente 
não correspondem à realidade presente).
O reformismo \u201crevisionista\u201d que caracterizaria o presente Es-
tado chinês implicaria a aceitação de muitas instituições da socie-
dade internacional (por exemplo, a OMC, de que o país já faz parte). 
Essa aceitação coincidiria com uma insatisfação com o espaço ainda 
ocupado pela sociedade ocidental global hoje em crise. Expressaria a 
intenção de continuar uma expansão pacífica que permita a elevação 
do país a reconhecidos patamares de poder mais elevado. Sem incor-
rer em um quadro idealizado, essa expansão corresponderia a uma 
definição de projeção de poder nacional por vias pacíficas. 
O modelo de contestação pela força do sistema de poder exis-
tente no mundo e usado, sobretudo, na Europa nos séculos XIX 
e XX (e antes) \u2013 quando se contestaram, pela força, hegemonias 
estabelecidas \u2013 estaria ausente desse aparente projeto.
Esse quadro (endossado por Kissinger), sumariamente deli-
neado aqui, uma vez que parece pôr de lado um objetivo de hege-
monia tradicional por parte da grande potência ascendente ou de 
conflito para redesenhar a hierarquia do mundo, abre o caminho 
para fórmulas de diálogo e de pressão por meio de organizações se-
melhantes aos BRICS, na medida em que os conflitos abertos entre 
grandes potências parecem constituir hipóteses remotas. 
Os grandes países emergentes definidos hoje como BRICS, do 
mesmo modo, defendem a ideia de uma mudança, sem dúvida pa-
cífica, da ordem mundial predominantemente ocidental.
Os demais membros do grupo, ainda que situados em níveis 
mais modestos na escala moderna do poder, compartilham objeti-
vos, até certo ponto, semelhantes aos da China.
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Affonso Celso de Ouro-preto
Expressam, assim, uma insatisfação com a ordem econômica 
e política determinada, até hoje, pelo Ocidente. Verificam que essa 
ordem está gravemente ameaçada hoje por uma crise ainda não 
resolvida. Verificam que a crise os atinge apesar de ter sido iniciada 
no mundo desenvolvido. Os