Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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BRICS direta ou indiretamente parti-
ciparão das tentativas de resolver ou pelo menos enfrentar a cri-
se. As suas muito grandes reservas monetárias poderão participar 
de tentativas de participar do esforço de enfrentar a grande crise. 
A sua contribuição poderá ser importante no esforço de evitar uma 
tendência crescente para o protecionismo.
Os BRICS não constituirão um mercado pelo qual as econo-
mias emergentes se resguardarão dos efeitos da crise graças a um 
intercâmbio entre os países do grupo que substituiria os mercados 
desenvolvidos em crise.
As divergências existentes entre os BRICS certamente serão 
mantidas. As idiossincrasias já mencionadas continuarão, como já 
ocorreu em inúmeras alianças, entendimentos ou grupos forma-
dos entre Estados cujos objetivos se aproximam, mas que, frequen-
temente, continuam profundamente diferentes entre si. Essas di-
ferenças não impedirão que o grupo dos BRICS se consolide.
Os países-membros do grupo concederão importâncias va-
riáveis à sua participação no bloco. Certamente, a China \u2013 grande 
potência que já teve o seu presente status reconhecido pela comu-
nidade internacional e que abriu canais de comunicação, em nível 
privilegiado, com os demais centros de poder do mundo \u2013 conce-
derá à sua presença no grupo uma prioridade menos acentuada do 
que ocorrerá com países grandes mas cujas dimensões políticas 
expressam ainda um poder sobretudo regional, como o Brasil. Para 
potências regionais, a participação nos BRICS fornecerá instru-
mentos necessários ou, pelo menos, um novo meio para transmitir 
e defender a sua visão do mundo fora de suas respectivas regiões, 
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Nova confirmação de poder
permitindo uma defesa em melhores condições de seus interesses. 
Permitirá, sobretudo, que essas potências regionais participem, em 
melhores condições, das discussões e dos eventuais antagonismos 
que marcarão um mundo cada vez mais multipolar, que substituirá 
ou está substituindo estruturas nas quais o poder se expressava de 
modo hegemônico.
Como já se registrou, esse conjunto que constitui hoje os BRICS 
não apresentará tampouco um projeto global de reorganização eco-
nômica e política do mundo, mas defenderá políticas de reforma das 
instituições existentes que incluam ou englobem os seus interesses. 
Por constituir o fórum em que se encontram 42% dos habitantes do 
mundo e se concentram os setores dinâmicos da economia global, as 
suas pressões não poderão ser ignoradas.
O grupo expressa uma legitimidade evidente. Qualquer re-
desenho da comunidade internacional, no contexto do crescente 
multipolarismo que parece emergir, terá de levar em conta esse 
grande conjunto.
Evidentemente, nada garante que o grupo continuará a existir 
no futuro. Igualmente surgirão problemas de oposição maiores, en-
tre membros do grupo, do que as diferenças que mantêm os BRICS, 
até certo ponto, unidos como hoje. 
Amanhã, será possível ou mesmo provável imaginar um mun-
do complexo \u2013 com várias estrelas, sem hegemonias ou estrelas 
principais \u2013 onde se desenvolverão formas de diálogo entre par-
ceiros segundo modelos ad hoc para tratar de questões específicas.
Sem tentar exercícios de futurologia, no entanto, pode-se ve-
rificar que o grupo dos BRICS goza de uma flexibilidade que expres-
sa um pragmatismo, uma ausência de formas de liderança visando 
a hegemonias, um respeito por instituições já criadas, com o obje-
tivo de que o grupo, na sua qualidade de fórum dos grandes, possa 
continuar a desempenhar no futuro, pelo menos próximo, o papel 
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Affonso Celso de Ouro-preto
de um instrumento útil para a aproximação entre Estados e para a 
defesa da causa da paz.
Uma ação concertada dos BRICS é viável, mas, diante da di-
versidade do grupo, a defesa de uma linha de menor denominador 
comum para todos os membros só seria possível, evidentemente, 
após uma negociação específica para cada caso (como ocorreria, 
aliás, com qualquer organização composta de elementos politica-
mente iguais ou autônomos). Os BRICS não agirão como um grupo 
organizado ou estruturado sujeito a uma liderança. A negociação 
prévia não poderá afetar os respectivos interesses nacionais defi-
nidos como básicos. Não será possível, por exemplo, imaginar que 
a China seja levada a defender, no seio dos BRICS, uma política 
contrária aos seus interesses de política cambial ou de exportações 
industriais. Igualmente, o Brasil, em nome de solidariedades para 
com os membros do grupo, não adotará uma política que favoreça 
ou encoraje as suas importações de produtos manufaturados em 
detrimento de sua indústria.
Os BRICS, em suma, são simultaneamente poderosos e frá-
geis. Representam o mundo em movimento. Pela primeira vez, 
esse mundo é composto por países ainda definidos como pobres, 
mas que até agora participam apenas moderadamente das institui-
ções econômicas e financeiras que os países desenvolvidos criaram. 
Por outro lado, os BRICS não expressam um conjunto unido de in-
teresses nem pretendem apresentar soluções globais. As divisões 
dentro do grupo são notórias. Difere também a prioridade que os 
vários membros concedem respectivamente ao grupo.
O grupo existente hoje expressa, em suma, um processo ou 
um fórum, em que serão debatidos os interesses os projetos e as 
ambições de uma parcela importante da humanidade. Existiria 
hoje um consenso de que essa parcela tem de ser escutada.
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o Brasil, os BriCs e a 
aGenda internaCional
Alberto Pfeifer
Formou-se em Direito e em Engenharia Agronômica pela Uni-
versidade de São Paulo. Especialização em Finanças (MBA), pelo 
Comitê para Divulgação do Mercado de Capitais (CODIMEC), Fun-
dação Getúlio Vargas (FGV/RJ) e Instituto Brasileiro do Mercado 
de Capitais (IBMEC). Mestrado em Economia Aplicada (Agrária) 
pela ESALQ/USP, com dissertação a respeito da agricultura e o 
ajuste do setor externo da economia brasileira nas décadas de 1970 
e 1980. Mestrado em Relações Internacionais pela Fletcher School 
of Law and Diplomacy da Tufts University (EUA), com dissertação 
sobre a negociação do acordo de associação entre o MERCOSUL e 
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Alberto Pfeifer
a União Europeia. Graduou-se Doutor em Ciências em 2000, pela 
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade 
de São Paulo (FFLCH/USP), na área de Geografia Humana, com 
tese acerca dos efeitos do Tratado de Livre Comércio da América do 
Norte (NAFTA) no México. Atualmente é Diretor Executivo Inter-
nacional e do Capítulo Brasileiro do Conselho Empresarial da Amé-
rica Latina (CEAL), Assessor da Presidência da Câmara de Comér-
cio Árabe-Brasileira, Professor do MBA em Comércio Internacional 
da Fundação Instituto de Administração (FIA) da Universidade de 
São Paulo, Membro do Grupo de Análise de Conjuntura Interna-
cional (GACINT) da Universidade de São Paulo, Colaborador do 
Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e Membro 
da International Studies Association (ISA) e da American Political 
Science Association (APSA).
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De acrônimo oportunista sobre mercados promissores for-mulado por um banco de investimentos a amálgama de po-der amplo em escala mundial, os BRICS transitaram pelo 
caminho inverso ao usual: a proposta da banca internacionalizada 
tornou-se realidade geopolítica. O sonho de Cinderela de países 
que até então \u2013 salvo a China \u2013 tinham extrema dificuldade de se 
olharem a si mesmos como algo viável e, mais que tudo, dotados 
de relevância própria, explica a dificuldade de se operacionalizar, 
como ativo político, sua hoje pujante proeminência econômica. 
Como grupo, os quatro países originais alcunhados por Jim 
O\u2019Neill em 2001 \u2013 Brasil, Rússia, Índia e China \u2013 iniciaram os diá-
logos formais somente em 2006. Os Chefes de Governo encon-
traram-se pela primeira vez em junho de 2009, sem ainda uma 
agenda positiva definida e com uma agenda negativa crítica ao