Brasil e os BRICS
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cultural dos ou-
tros integrantes do grupo.
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o Brasil, os BriCs e a aGenda 
internaCional: CetiCismo, 
interseCções e oPortunidades
Antonio Jorge Ramalho
É graduado em Relações Internacionais pela Universidade de 
Brasília (1989), mestre em em Ciência Política pelo IUPERJ (1992) 
e em Relações Internacionais pela Maxwell School of Citizenship 
and Public Affairs \u2013 Syracuse University (1999) e doutor em Socio-
logia pela Universidade de São Paulo (2002). É professor do Insti-
tuto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília desde 
1993, onde exerceu os cargos de coordenador de graduação e de 
pós-graduação, além de Chefe de Departamento. Dirigiu o Depar-
tamento de Cooperação/SEC do Ministério da Defesa e a implan-
tação do Centro de Estudos Brasileiros em Porto Príncipe, Haiti. 
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Antonio Jorge Ramalho
Integrou a Assessoria de Defesa da Secretaria de Assuntos Estra-
tégicos da Presidência da República. É autor de Relações interna-
cionais: Teorias e agendas (IBRI-FUNAG, 2002). Representa a área 
de Relações Internacionais junto ao Comitê de Área da CAPES e 
coordena as atividades da área na Associação Brasileira de Ciência 
Política (ABCP). Sua pesquisa e produção científica concentram-se 
nas áreas de Teoria das Relações Internacionais, Segurança Inter-
nacional, Defesa Nacional e Política Externa dos Estados Unidos.
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Este artigo examina oportunidades que se apresentam ao Bra-sil, tendo em vista seus objetivos de longo prazo e seu envol-vimento em arranjos de governança global, associados à sua 
participação no agrupamento BRICS. Dividido em duas partes, a 
que correspondem as seções do texto, o argumento discute aspec-
tos e tendências estruturais do ambiente internacional e situa o 
BRICS nesse contexto, explorando seu escopo, suas possibilidades 
e limitações. Na breve conclusão, resumem-se, entre as possíveis 
articulações dos BRICS, as que se afiguram mais apropriadas à con-
secução de objetivos de política externa do Brasil.
as CirCunstânCias dos BriCs: tendênCias estruturais 
do amBiente internaCional ContemPorâneo
O ambiente internacional contemporâneo marca-se por mu-
danças intensas e, para muitos, surpreendentes. Nele, três pro-
cessos estruturais servem a contextualizar o significado atual dos 
BRICS e a prover informações que fundamentem a construção de 
cenários plausíveis acerca de sua evolução no futuro próximo. In-
terligados, esses processos podem se resumir em: (a) evolução dos 
fluxos demográficos e suas implicações; (b) evolução tecnológica; 
e (c) reorganização política, tanto na esfera internacional quanto 
no interior das comunidades políticas. Aqui, entende-se por essa 
reorganização a redefinição das capacidades relativas de indiví-
duos, grupos de poder e governos de influenciar o destino dos flu-
xos mais relevantes para as sociedades contemporâneas.
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Antonio Jorge Ramalho
Observe-se a chamada primavera árabe, por exemplo. Nela, 
as interações desses três fenômenos se tornam evidentes \u2013 o que 
não é incomum em situações críticas. Como poucos, este fenôme-
no ilustra a velocidade com que se disseminam novas informações, 
cuja relação de causalidade com as transformações observadas ain-
da não se examinou de modo satisfatório. De tudo, restou claro, 
até agora, que o êxito do movimento de contestação na Tunísia 
influenciou levantes em países vizinhos, mas não se sabe o quanto.
Registra-se, com efeito, amplo espectro de reações na região, 
cujas lideranças vêm tentando concertar concessões e ameaças de 
coerção visando manter-se no poder ou conduzir as transições: nos 
Emirados Árabes Unidos, aprofundaram-se, quase imperceptivel-
mente, reformas iniciadas há décadas e voluntariamente; na Ará-
bia Saudita, ampliou-se a transferência de riqueza para a população 
e sinalizam-se mudanças superficiais em um horizonte temporal 
ainda incerto; no Marrocos, políticas sociais mais generosas mes-
clam-se com um discurso de combate à corrupção; na Síria, a vio-
lenta reação governamental já encontra resistência na Liga Árabe, 
o que deve precipitar a queda do Governo. A propósito, excetuan-
do-se a retórica diplomática de praxe, os BRICS não foram capazes 
de se manifestar de maneira harmônica, menos ainda propositiva, 
sobre esses acontecimentos.
Há poucos meses, raros cenários apontavam para possíveis 
mudanças de governo no norte da África. Os que o fizeram atribuí-
ram ênfase às variáveis \u201cpreço dos alimentos\u201d e \u201cníveis de repres-
são\u201d. Hoje, contam-se os meses, senão as semanas, para a queda 
de Assad; e temem-se as implicações dessas revoltas para a estabi-
lidade no Oriente Médio, especialmente quando se têm presentes 
as manifestações em curso no Irã e a mudança no padrão de re-
lacionamento entre os EUA e Israel. Aliás, a redução da presença 
americana na região, por si só, vem produzindo instabilidades geo-
políticas, levando países como China e Índia, Rússia, Irã e Turquia 
a rever suas políticas externas para a região.
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O Brasil, os BRICS e a agenda internacional: Ceticismo, Intersecções e Oportunidades
Ao cabo, o Oriente Médio e o norte da África somam-se à 
África subsaariana e ao sul da Ásia como teatro onde potências 
emergentes buscam ocupar os espaços que se vislumbram vazios 
no porvir, caso se materialize a relativa decadência estadunidense 
em âmbito global. O curioso é que, às vezes, fazem-no com o apoio 
dos próprios EUA, que preferem ver Estados nacionais, se possível 
aliados, influenciando os processos políticos na região a ver forta-
lecerem-se grupos de poder movidos por outra lógica de atuação, a 
exemplo do Hezbollah, do Hamas ou dos Talibãs. 
Nesse contexto, o papel da Europa tem sido menos previsível 
e articulado, como evidenciaram as tratativas da Resolução 1.973 
do Conselho de Segurança da ONU, que autorizou a OTAN a impe-
dir o tráfego aéreo sobre a Líbia1.
Não há espaço, aqui, para desenvolver o argumento acerca do 
modo como interagem os fenômenos relacionados com o progres-
so tecnológico, com o crescimento populacional e suas implicações, 
especialmente no que concerne ao crescente aumento na demanda 
por alimentos e por bem-estar. No entanto, é certo que as condições 
tecnológicas vigentes muito favorecem a capacidade empreendedora 
de indivíduos e organizações privadas, diante da crescente redução 
do custo de acesso a informações, conhecimentos e recursos econô-
micos em geral. Uma implicação direta desses fenômenos consiste 
justamente na redefinição da relação política entre cidadãos e seus 
governantes, cuja eficácia na provisão de bens públicos passa a ser, 
cada vez mais, condição necessária para manter-se no poder. O re-
sultado disso afigura-se, à primeira vista, paradoxal: de um lado, o 
enfrentamento da crise econômica de 2008 fortaleceu os Estados 
1 Ver :<http://daccess-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/N11/268/39/PDF/N1126839.pdf? 
OpenElement>. Acesso em: 11 nov. 2011. A propósito, Brasil, China, Índia e Rússia, junto com a Ale-
manha, se abstiveram de patrocinar essa iniciativa. Essa posição, de par com os arranjos feitos por 
ocasião da mudança do Diretor-Gerente do FMI, sinalizou para os países mais avançados a intenção 
dos emergentes de participar mais ativamente no processo decisório das principais organizações in-
ternacionais. Observe-se, contudo, que a África do Sul votou favoravelmente à Resolução. 
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Antonio Jorge Ramalho
nacionais; de outro, as agendas dos governos tornaram-se mais ho-
mogêneas e sua margem de manobra, mais reduzida.
Com efeito, os investimentos feitos em educação nas últimas 
décadas, combinados com o fácil acesso a informações e com a pos-
sibilidade de comunicação instantânea a baixo custo, contribuíram 
para fortalecer a capacidade de ação política dos indivíduos. A cria-
ção de uma agenda global de desenvolvimento humano, materia-
lizada sobretudo nos Objetivos do