Brasil e os BRICS
608 pág.

Brasil e os BRICS


DisciplinaOrganizações Internacionais104 materiais1.440 seguidores
Pré-visualização50 páginas
Milênio, facilita comparações 
internacionais e provê empreendedores sociais e políticos de in-
formações que lhes instrumentalizam o discurso e a ação, cons-
trangendo os governos a adotar políticas públicas orientadas para 
melhorar as condições de bem-estar das sociedades. 
Mundo afora, os governos preocupam-se em criar condições 
favoráveis não apenas ao crescimento econômico, mas também à 
redução das desigualdades sociais. Os indivíduos comparam suas 
condições de vida não somente com as que tiveram no passado, mas 
também com as de seus vizinhos e com as de indivíduos vivendo em 
outros continentes; e, sentindo-se desfavorecidos, revoltam-se.
Entretanto, nada garante que a essas revoltas se seguirão go-
vernos menos autoritários ou mais comprometidos com ideias de 
justiça social. Isso significa que algumas regiões do mundo pode-
rão observar longos períodos de instabilidade, comprometendo a 
capacidade de recuperação da economia mundial. Ainda assim, é 
possível fazer algo de maneira articulada a esse respeito, o que abre 
aos BRICS extraordinária oportunidade para influenciar a agenda 
internacional de modo a privilegiar a redução das desigualdades, 
o combate à fome e a doenças contagiosas e o fortalecimento de 
normas conducentes à promoção do desenvolvimento econômico 
com menos desigualdade social2.
2 A direção da FAO por um brasileiro amplia o espaço de interlocução dos BRICS nessa agenda, ofere- 
cendo-lhes reais possibilidades de criar regras e implantar práticas capazes de transformar a lógica 
que orienta as decisões sobre a produção de alimentos no mundo. 
135
O Brasil, os BRICS e a agenda internacional: Ceticismo, Intersecções e Oportunidades
Uma agenda com essas características aprofunda as recentes 
orientações da política externa brasileira, sem desrespeitar seu 
compromisso com a tradição, ao tempo em que contrasta com o que 
Ruggie caracterizou como o traço de embedded liberalism inerente à 
ordem de Bretton Woods. De fato, a ampla liberalização comercial 
implantada a partir da Segunda Guerra Mundial contribuiu tanto 
para consolidar estruturas de produção globais quanto para criar 
riqueza, mas ao custo da ampliação das desigualdades dentro das 
economias e entre elas. Até há pouco, isso não parecia constituir 
problema de grande monta, mas a crise econômica de 2008 fez ver 
que, em tempos de escassez, os comportamentos políticos tendem 
a se acirrar, podendo mesmo comprometer o acordo tácito sobre 
as regras de jogo vigentes e, por conseguinte, a própria estabili-
dade da ordem. Por um lado, Estados fechados e governos repres-
sivos tornam-se cada vez menos viáveis, embora a integração na 
economia global não requeira necessariamente a implantação de 
sistemas democráticos; por outro, as válvulas de escape previstas 
no sistema já não bastam para acomodar as pressões domésticas 
mesmo nas economias mais avançadas. Caso fossem capazes de se 
posicionar de modo articulado a respeito da substância da ordem 
internacional que se quer produzir, os BRICS encontrariam amplo 
espaço político em um ambiente internacional que carece de lide-
ranças aptas a apontarem o caminho a seguir.
Entretanto, uma das razões pelas quais a ideia dos BRICS cap-
turou a atenção de analistas e operadores políticos consiste justa-
mente no fato de cada um de seus integrantes apresentar trajetória 
peculiar, constituindo experiência a ser possivelmente emulada por 
outros governos. Há muito a fazer em termos de construção de uma 
agenda comum. Com respeito a esses assuntos, se bem prevalecer a 
lógica de se privilegiarem os interesses individuais dos BRICS, eles 
não raro coincidem. Essas intersecções constituem oportunidades 
de cooperação. O problema que se coloca é, sobretudo, de liderança 
política.
136
Antonio Jorge Ramalho
Em suma, e de maneira muito simplificada, particularmente 
desde fins do século XIX, as relações internacionais contemporâ-
neas marcaram-se pela aceleração das inovações tecnológicas, que 
favoreceram tanto a multiplicação dos seres humanos quanto a 
criação de meios que colocam em risco sua sobrevivência na Ter-
ra. Nesse processo, fortaleceram-se os indivíduos, cuja relação com 
seus governos se redefine na medida em que demandas sociais pas-
sam a ter mais relevância do que tinham no passado. Exacerbou-se, 
em outras palavras, o processo tão bem caracterizado por Polanyi 
em seu argumento sobre a grande transformação.
Recentemente, a estimativa da Divisão de População da 
ONU de que a humanidade ultrapassou a marca de 7 bilhões de 
indivíduos chamou a atenção da imprensa mundial. Quando se 
tem em perspectiva que, na virada do século XX, éramos pouco 
mais de 1,2 bilhão de habitantes e que os avanços nas condições 
de saneamento e na medicina favorecem a ampliação da expecta-
tiva de vida em escala global, consolida-se a ideia de que se está 
diante de um fato com implicações relevantes, no longo prazo, 
para as relações internacionais. 
Isso afeta de maneira distinta os BRICS. A redução das taxas 
de fertilidade e as políticas de migração, entre outros aspectos, 
influenciam fortemente a evolução demográfica dos países, cuja 
mera projeção levanta desafios peculiares a cada país. É o que mos-
tram os gráficos 1 e 2, a seguir, Para os fins da discussão propos-
ta, basta ter clara a tendência estrutural de aumento populacional 
com crescente elevação da demanda por alimentos, capturada pelo 
aumento nos preços dos principais produtos primários, registrada 
no gráfico 3.
137
O Brasil, os BRICS e a agenda internacional: Ceticismo, Intersecções e Oportunidades
Gráficos 1 e 2: Estimativa da população mundial e projeções para 
países selecionados3
Gráfico 3: evolução dos preços dos alimentos4
3 Fonte: The Economist, 22 out. 2011, baseado em estatísticas da Divisão de População da ONU. Dis-
ponível em: <http://www.economist.com/node/21533364/print>. Acesso em: 7 out. 2011. O gráfico 
2 foi retirado da Economist Intelligence Unit na mesma data.
4 Fonte: FAO Food Price Índex, November 2011. Disponível em: <http://www.fao.org/worldfood 
situation/wfs-home/foodpricesindex/en/>. Acesso em: 13 nov. 2011.
138
Antonio Jorge Ramalho
China e Índia enfrentam problemas demográficos distintos, 
tendo aquela se beneficiado, nos últimos anos, de bônus que expli-
ca, em parte, seu pujante desenvolvimento econômico, enquanto 
esta resiste a qualquer política de controle populacional. A China 
vê-se diante da necessidade de criar milhões de empregos por ano5 
para atender às demandas de uma população que, conhecedora dos 
confortos da modernidade, quer dela participar de modo cada vez 
mais ativo. Por sua vez, a Índia enfrenta números mais expressivos 
e desafios ainda mais difíceis. Na ausência de eficazes políticas de 
redução da taxa de natalidade ou de sangrentos conflitos, a explo-
são demográfica demandará ritmo de crescimento mais acelerado 
do que o atual, e poucos analistas apostam em um manejo tranqui-
lo das expectativas das multidões que, pouco a pouco, migram para 
as cidades. Não é demais lembrar que a Índia se recusou a aceitar os 
termos propostos para a conclusão da Rodada Doha em 2008 em 
decorrência da preocupação com os impactos que o acordo traria 
para sua população rural.
Brasil e África do Sul são os países em melhores condições a esse 
respeito, sobretudo por se beneficiarem de populações relativamente 
jovens e em idade produtiva. A depender da sabedoria com que seus 
governos planejam a acumulação de capital humano, suas economias 
poderão se fortalecer de maneira sustentada, firmando-os como es-
teios da recuperação econômica global e como novos polos de dina-
mismo econômico no mundo. O caso da Rússia contrasta fortemente 
com os outros BRICS, dada a progressiva redução da expectativa de 
vida de sua população, cuja força de trabalho, ademais, vem obser-
vando queda de produtividade.