Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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Em outras palavras, embora estejam 
em melhores condições do que as economias mais desenvolvidas, 
cada um dos BRICS enfrenta enormes desafios internos. 
5 O ex-presidente George W. Bush relata, em seu livro de memórias (Decision Points, Crown Publishing, 
New York, 2010), que Hu Jintao teria mencionado a necessidade de criar 25 milhões de empregos 
novos a cada ano como o maior motivo de sua preocupação.
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O Brasil, os BRICS e a agenda internacional: Ceticismo, Intersecções e Oportunidades
Ainda não está claro em que medida as aproximações havidas 
no seio dos BRICS contribuirão para multiplicar os instrumentos 
de que dispõem os governos para enfrentar seus respectivos desa-
fios internos de maneira satisfatória. Ao tempo em que chamou 
atenção para uma dinâmica relevante do ambiente internacional, 
esta seção apontou expectativas criadas acerca dos BRICS, realçan-
do o fato de que é preciso entender as dinâmicas globais para poder 
situar as possibilidades e limitações colocadas a este agrupamento 
de países em suas possíveis ações concertadas no âmbito interna-
cional. A seguir, serão examinadas possíveis convergências desses 
países frente aos desafios globais e a seus respectivos problemas 
internos.
PossiBilidades e limitações dos BriCs
Quando o Goldman Sachs publicou o estudo em que O\u2019Neill 
cunhou o acrônimo BRICS, há uma década, o ritmo e a susten-
tabilidade do crescimento econômico desses países eram alvo de 
enormes desconfianças. O próprio título do artigo, \u201cDreaming with 
BRICs\u201d, sinalizava a precariedade da proposta. De fato, a ideia era 
simplesmente chamar a atenção de investidores de longo prazo 
para economias cujo crescimento poderia ser mais robusto do que 
o que se projetava para as economias mais avançadas. Cercada por 
enorme ceticismo dos agentes econômicos, animados com o im-
pressionante ritmo de crescimento da economia dos EUA até 2008, 
a ideia enfrentou, ainda, relativa indiferença dos governos envolvi-
dos, que não se viam parte de uma iniciativa conjunta e instintiva-
mente tendiam a rechaçar uma agenda que se lhes pudesse impor 
\u201cde fora para dentro\u201d.
As diferenças entre os países dos BRICS eram então percebi-
das como muito mais relevantes do que suas possíveis semelhan-
ças, particularmente quando se observam seus entornos regionais, 
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Antonio Jorge Ramalho
suas condições geopolíticas e seus interesses econômicos em ou-
tras partes do mundo. Isso não mudou. Em alguns casos, elas se 
acentuaram e se tornaram mais complexas, inclusive no que diz 
respeito a disputas que os BRICS travam entre si. O caso mais 
conhecido envolve China e Índia em disputas, no Mar do Sul da 
China e na África. No primeiro caso, por soberania de águas de 
exploração exclusiva e pelo controle de rotas comerciais, a tensão 
gerou incidentes militares relevantes; no segundo, o conflito se dá 
pelo acesso a recursos naturais para a manutenção de seu ritmo 
de crescimento econômico. Observa-se entre esses países uma 
verdadeira corrida armamentista naval e movimentações políticas 
que levantam, no horizonte, possibilidades de rusgas que levam 
ao seu distanciamento, mais do que a uma aproximação motivada 
por identidades compartilhadas. Reduzir essa tensão constitui, de 
longe, o desafio mais complexo dos BRICS.
Quando se traz à linha de conta a demanda desses países por 
fontes de energia, entre outras matérias-primas, explica-se a rela-
tiva ampliação da interdependência observada entre suas econo-
mias, embora isso não se manifeste nos fluxos de investimentos 
estrangeiros diretos realizados pelos BRICS entre si. Embora esse 
fluxo tenha oscilado muito, ampliando-se sobremaneira desde 
2008, se mantém em níveis semelhantes aos do início dos anos 
19906. Cabe lembrar que, no caso do mercado de energia, a elevada 
concentração da economia russa nesse setor, de par com seus inte-
resses políticos na Ásia Central, também levanta questionamentos 
quanto à possível harmonia que se quer construir nos BRICS. 
A despeito de suas diferenças e ocasionais rivalidades, contudo, 
a sustentação de seu crescimento econômico em meio à crise que 
6 Os números observaram oscilações, mas se mantiveram em torno de 20% do IDE recebido e 14 
% do realizado. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Comunicado 86. Disponível em: 
<http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/110413_comunicadoipea86.
pdf>. Acesso em: 12 nov. 2011.
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O Brasil, os BRICS e a agenda internacional: Ceticismo, Intersecções e Oportunidades
vem assolando os grandes centros e à estagnação de economias con-
solidadas, como a do Japão, vem contribuindo para firmar os BRICS 
como referência no marco da inserção internacional de seus inte-
grantes. Sua participação do PIB global aproxima-se de 20%, e sua 
contribuição para o crescimento da demanda agregada mundial en-
tre 2008 e 2009, por exemplo, foi de 63,3%, mais do dobro do que se 
observou entre 2000 e 2004. Entretanto, mais de 40% dessa deman-
da foi gerada pela China, enquanto a Índia respondeu por 12,4%7. 
Em outras palavras, os desequilíbrios não se restringem aos níveis 
de reservas e à participação no comércio internacional.
A recente Cúpula do G20, aliás, registrou os limites das pro-
postas articuladas pelos BRICS, cuja convergência se mostrou as-
sertiva apenas no que diz respeito a defender o fortalecimento das 
estruturas de governança global e a empenhar mais as economias 
avançadas no enfrentamento de seus próprios problemas. Quan-
do se tratou de assumir compromissos específicos, contudo, cada 
país escolheu os setores e ações mais coerentes com seus interesses 
individuais. Nesse sentido, as intersecções não foram suficientes 
para permitir projetar a imagem de uma ação articulada, a despeito 
das tratativas engendradas na cúpula de Sanya. 
Os gráficos a seguir retratam a evolução do crescimento eco-
nômico recente e as expectativas atinentes aos próximos meses8. 
Assim como outras apreciações do ambiente econômico no futuro 
próximo, estas expectativas também são sombrias, nos dois sen-
tidos da palavra: não se enxerga claramente o nível de crescimen-
to econômico no futuro e prevalece uma tendência relativamente 
pessimista, embora se reafirme a confiança em que as economias 
emergentes contribuirão mais intensamente para superar a atual 
crise econômica.
7 Idem.
8 Federal Reserve Bank, Dallas. Disponível em: <http://www.dallasfed.org/institute/update/2011/
int1107.cfm>. Acesso em: 13 nov. 2011.
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Antonio Jorge Ramalho
Gráficos 4 e 5: Estimativa de crescimento real em economias 
selecionadas
A existência de duas escalas para dar conta dos BRICS já sina-
liza dinâmicas bem distintas para seus integrantes, dos quais não 
se esperam ação articulada para além do que se logre realizar no 
âmbito de arranjos como o G20. No campo político, prevalecem as 
desconfianças também com respeito à capacidade de articulação 
desses países, embora o esforço diplomático observado quando da 
nomeação de Lagarde para o FMI tenha levantado preocupações, 
nos países desenvolvidos, com relação a mudanças de posições 
relativas no comando das organizações internacionais mais rele-
vantes. Neste caso, contudo, os BRICS foram capazes de agir de 
modo articulado, indicando possuir suficiente coesão para, em cir-
cunstâncias peculiares e com relação a temas específicos, avançar 
interesses comuns na agenda internacional.
Eis que isso sintetiza o que os BRICS lograram construir ao 
longo dos últimos anos, um fórum de que se valem os governos 
para se informar acerca de seus respectivos interesses e posições, 
a fim de que, quando lhes convier, possam seguir na mesma di-
reção. Equivoca-se quem espera desse agrupamento uma ação es-
tratégica de longo prazo, na qual a unidade de um possível bloco 
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O Brasil, os BRICS e a agenda internacional: Ceticismo, Intersecções