Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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mento das economias emergentes3. Ou seja, a sigla revela semelhan-
2 HURELL, A. \u201cHegemonia, liberalismo e ordem global\u201d. In: HURREL, A. et alii. Os BRICS e a ordem global. 
Rio de Janeiro: FGV, 2009, p. 10. Hurrell acrescenta que uma segunda razão para olhar para os BRICS 
é o \u201cfato de que todos esses países compartilharem uma crença em seu direito a um papel mais 
influente em assuntos mundiais\u201d.
3 GALVÃO, Marcos. Brand BRIC brings changes, WorldToday.org, ago./set. 2010, p. 13. 
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ças entre países obviamente muito diversos, situados em continen-
tes diferentes e que mantinham, entre eles, relações extremamente 
variadas (Índia e China se enfrentaram em uma guerra nos anos 
1960; a China e a Rússia foram aliados e, depois, rivais etc.).
A semelhança embutia, porém, algo mais do que números e 
geografia. Aí, creio que começa a história política do grupo. A se-
melhança revelava posições de poder. O que os aproximava, além 
das oportunidades de investimento, eram oportunidades de exer-
cício de poder. Em que sentido? O início do século XXI inverte os 
sinais positivos que se abriram ao fim da Guerra Fria. A década 
de 1990 começa com a expectativa de que, findo o conflito ideo-
lógico, a globalização distribuiria universalmente frutos positivos 
e a ordem internacional passaria gradualmente a ser regida pelos 
princípios multilaterais, definidos pela carta da Organização das 
Nações Unidas (ONU). O poder cederia lugar às soluções multila-
terais. Uma nova legitimidade, desenhada pelas conferências glo-
bais de direitos humanos, desenvolvimento sustentável, direitos 
das mulheres, assentamentos urbanos, substituiria a legitimidade 
seletiva e precária das ideologias rivais. 
Essa descrição beira o caricatural: afinal, os anos 1990 tam-
bém se caracterizaram por episódios que frustram dramaticamen-
te aquele otimismo, tanto do lado das crises financeiras quanto do 
lado das tragédias humanitárias. Entretanto, a caricatura serve 
para marcar, do ângulo da ordem internacional, o enorme contras-
te com o início do século XXI, que elimina boa parte do otimismo e 
da esperança do fim da Guerra Fria. 
Verifica-se em pouco tempo que, se o ideal da ordem \u201cmultila-
teral\u201d não se realiza, muito menos realiza-se o de uma ordem unila-
teral, comandada pelos EUA. A solução multilateral beirava a utopia 
(e faltaram os \u201cagentes sociais\u201d que a levassem adiante); a unilateral 
representaria a negação do próprio sentido da ordem internacional, 
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que supõe a articulação combinada de \u201cvontades soberanas e dife-
rentes\u201d. Aliás, os próprios EUA perceberam, de maneira contunden-
te, pelas dificuldades que enfrentam no Afeganistão e no Iraque, que 
algum recurso ao multilateralismo era necessário ainda que fosse 
para completar e respaldar as medidas inspiradas pelo unilateralis-
mo. Para simplificar, desde o fim da Guerra Fria, mas especialmente 
na entrada do século XXI, existe uma demanda de ordem e não está 
claro quem vai produzir a oferta. A ideia de um mundo sem rumo, à 
deriva, marcado por impasses, sem perspectivas claras, se espalha. 
Um artigo, \u201cA rudderless world\u201d, de Kishore Mahubani, não por 
acaso um pensador asiático, capta o sentimento de que \u201cthe world 
is adrift\u201d e por várias razões. Em primeiro lugar, porque as transfor-
mações econômicas (a mudança do eixo para a Ásia) não se refletem 
no universo geopolítico, em que os antigos poderes não se movem 
para lidar com as mudanças. Também faltam lideranças políticas e 
intelectuais: \u201c[...] political leadership is always preceded by intellectual 
leadership. For several decades, the Western intelligentzia provided the 
intellectual leadership. Indeed, they used to tell the world on what should 
be done. Today, they are clearly lost\u201d4. Sabe-se simplesmente que, para 
produzir ordem, os Estados ainda são os atores essenciais, e os mais 
influentes (com mais poder...) teriam responsabilidade especial no 
processo5. Mas quais? Como?
Essa demanda, que corresponde à incapacidade das potên-
cias tradicionais de gerar novos paradigmas de ordem, deságua 
4 MAHUBANI, K. A Rudderless World, New York Times, Nova Iorque, 18 ago. 2011. Kishore diz: \u201cThe geo-
politics of the world are running at cross purposes with the geoconomics of the world. Geoconomics requires 
consensus; countries coming together. In geopolitics, we are experiencing the greatest power shifts we have 
seen in centuries. Power is shifting from West to East. All this creates deep insecurity in the established pow-
ers. They want to cling on to privileges acquired from previous days of glory\u201d. 
5 Esther Barbé Izuel apresenta com clareza o mesmo argumento: \u201c[...] los países emergentes entran den-
tro del cálculo de los otros actores internactionales en tanto que potencias globales [...] se comportan y 
negocian en los marcos multilaterales como grandes potencias [...] y constituyen un desafio, dentro de 
la continuidad, para el sistema institucional multilateral asentado sobre princípios liberales [...]\u201d. IZUEL, 
Esther B. Multilateralismo: adaptaciòn a un mundo de potencias emergentes, REDI, v. 67, 2010, p. 2.
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quase automaticamente na abertura para que países (e grupos) que 
emergem naquele momento busquem espaço próprio para \u201cauxi-
liar\u201d, com interesses e ideias, modos de desenhar perspectivas de 
ordem. Diga-se, desde já, que não existe, do lado dos emergentes, 
nada de radical, nada de revolucionário. Para lembrar as categorias 
de Kissinger, eles querem \u201cmelhorar\u201d as condições de legitimidade, 
não criar alternativas às que existem. No caso dos BRICS, em qual-
quer equação sobre a ordem internacional, os cinco Estados algum 
papel desempenhariam. Ou, mais precisamente, já desempenha-
vam antes de a sigla ser sugerida.
Não havia nem há, porém, imposição geográfica ou ideológica 
ou econômica alguma que recomendasse que os cinco se juntassem 
politicamente, salvo o fato de que, em tese, têm peso e influência. 
Anote-se que o espaço não está aberto só para os BRICS. No caso 
do Brasil, o IBAS é outro componente da busca de influenciar, de 
busca de um lugar em uma ordem mais aberta. Há outros, alguns 
novos, como o G20, o Shangai Cooperation Group, a União de Na-
ções Sul-Americanas (UNASUL), outros mais antigos, que reveem 
seus papéis (Associação de Nações do Sudeste Asiático \u2013 ASEAN, 
Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico \u2013 APEC, etc.). 
No marco desse amplo processo, a transformação dos BRICS 
em uma instância política, ainda que informal, consagra a ideia de 
que, separados, já influenciavam; juntos, poderiam influenciar ain-
da mais (embora, em si mesmo, o fato da ascensão na escala do 
poder não significa aproximação entre os que escalam, mas, fre-
quentemente, o contrário).
A partir daí, começa a reflexão sobre os BRICS e a constru-
ção da ordem internacional. Neste campo, talvez prevaleçam ainda 
visões céticas, que ressaltam as significativas diferenças entre os 
parceiros, de tal sorte que qualquer aproximação mais consistente 
para articular interesses comuns seria ou casual ou artificial. Na li-
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nha oposta, alguns afirmam que esses países teriam um objetivo ao 
se aproximar porque desempenhariam, crescentemente, a função 
de criar condições para a consolidação de um sistema multipolar. 
Ora, para tanto, um dos requisitos é atenuar o poder americano, 
o que determinaria, como o papel privilegiado do agrupamento, 
o exercício de soft balancing em relação aos EUA. Aí está um ponto 
de partida interessante para reflexão, embora eu creia que, hoje, 
ainda são impossíveis respostas cabais e definitivas que esclareçam 
o que será o grupo no médio prazo. Assim, passamos a colecionar 
umas tantas observações que, se não resolvem o problema, talvez 
ajudem a pensar o fenômeno BRICS.
Uma primeira anotação teria que