Brasil e os BRICS
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Brasil e os BRICS


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de São Paulo (USP). Possui 
graduação em Ciências Econômicas pela Universidade de São Pau-
lo (1959) e doutorado em Planificação Econômica pelo Instituto 
Plejanov de Moscou de Planificação da Economia Nacional (1967). 
É organizadora dos volumes Dinâmica do capitalismo contemporâ-
neo: Homenagem a M. Kalecki (EdUSP, 2001) e Perestroika: Os desa-
fios da transformação social na URSS (EdUSP, 1990). Tem experiên-
cia na área de Economia, com ênfase em Economia Internacional, 
atuando principalmente nos seguintes temas: Rússia, Rússia Pós- 
-Soviética, URSS, Países Pós-Socialistas e Socialismo.
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Este texto propõe-se a tecer considerações sobre dois tópicos, quais sejam: (a) Como aumentar o comércio intra-BRICS? (b) O agrupamento dos BRICS pode ser um polo indutor de 
transformações institucionais no sistema internacional? As con-
siderações estão entrelaçadas entre si, como se verá adiante. Em 
realidade as considerações sobre o segundo tópico são uma decor-
rência das considerações sobre o primeiro. Nestas ponderações 
privilegiam-se as perspectivas que existem sobre os BRICS no Bra-
sil e na Rússia, este último país por constituir objeto de pesquisa 
continuada da autora.
Começo pela primeira questão. A respeito do comércio intra- 
-BRICS, verificou-se, a partir dos dados de uma pesquisa, que os 
fluxos comerciais entre os países-membros são muito reduzidos, 
com exceção daqueles realizados com a China. Isso parece resultar, 
por um lado, da concentração das relações comerciais de cada país 
com países e/ou regiões de sua esfera de preponderância econô-
mica e, por outro lado, do não favorecimento resultante das es-
truturas das pautas de exportação e importação de cada um deles. 
Assim, a tabela anexa indica, em forma de matriz, as correntes de 
comércio (exportações mais importações) realizadas entre os paí-
ses que compõem o grupo BRICS, em termos da participação de 
cada um deles, conforme aparecem nas colunas, no fluxo total das 
correntes de comércio de cada um deles, conforme aparecem nas 
linhas. Os dados estatísticos utilizados correspondem aos últimos 
períodos em que são divulgados em cada país do grupo, não sendo 
exatamente homogêneos como fontes. Entretanto, na medida em 
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Lenina Pomeranz
que as participações relativas dos países do grupo nas correntes 
de comércio do país indicado nas linhas são calculadas horizon-
talmente, em relação ao total do comércio deste país, podem-se 
fazer algumas digressões, ainda que fugindo um pouco da precisão 
estatística. Em outros termos, guardada a cautela necessária na 
análise, os dados da tabela dão uma ordem de grandeza dos fluxos 
de comércio entre os países que compõem o grupo. 
Ressalta da tabela o nível bastante baixo das relações comer-
ciais entre eles, destacando-se somente o papel mais relevante que 
exerce em todos o comércio com a China: ele representa 16,6% das 
correntes totais de comércio do Brasil, 10,2% das correntes totais 
de comércio da Índia e 9,8% das da Rússia. 
Conforme foi dito, podem-se aventar duas hipóteses para ex-
plicar este baixo nível: (a) o fato de o comércio exterior de cada um 
dos países dos BRICS estar mais vinculado a uma área própria de 
preponderância econômica; (b) as dificuldades apresentadas pelas 
pautas de importação e exportação de cada um deles não favore-
cem o intercâmbio.
Um levantamento das principais direções dos fluxos de co-
mércio de cada um dos países do grupo indica o seguinte, nos pe-
ríodos indicados:
\u2022	 Brasil1: os principais fluxos de comércio do país, entre janeiro e 
setembro de 2011, ocorreram com os países desenvolvidos, dos 
quais importou 49,54% do total de suas importações, entre as 
quais 20,42% vieram dos países da União Europeia. Compor-
tamento idêntico foi apresentado pelas exportações: o Brasil 
exportou 41,07% do total de suas exportações para os países 
desenvolvidos, 20,92% para a União Europeia. Os dados para 
os Estados Unidos, parceiro tradicional do Brasil, indicam que 
1 Fonte dos dados: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do Brasil. DEPLA. Estatísticas 
do Comércio Exterior. Jan./set. 2011.
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O Brasil, os BRICS e a agenda internacional
a participação relativa do fluxo das importações desse país é 
praticamente idêntica à do fluxo das importações da China: 
14,83% e 14,45% respectivamente. O mesmo não ocorre com 
as exportações, cuja participação relativa dos Estados Unidos é 
bastante inferior à da China: 9,77% e 17,67% respectivamente. 
A alta participação dos fluxos de comércio com a China contri-
buiu para que as correntes de comércio do Brasil com os países 
do BRICS somassem 20,2% no período considerado;
\u2022	 Índia2: os principais fluxos de comércio do país, entre abril de 
2010 e março de 2011 foram realizados com países em desen-
volvimento (36,4%), especialmente com os da Ásia (28,5%), in-
clusive com a China (9,8%) e com os países da Organização dos 
Países Exportadores de Petróleo (OPEP) (28,6%), em função 
mesmo da importância que o petróleo e seus produtos têm no 
seu comércio exterior, como se verá adiante. Restaram 14,7% 
para os países da União Europeia e 7,2% para os EUA. Foram 
reduzidíssimos os fluxos comerciais para a África (4,8%) e para 
a América Latina (3,1%). O desdobramento da direção desses 
fluxos entre as importações e as exportações não alteram sig-
nificativamente o quadro: as importações vêm basicamente 
dos países da OPEP (33,8%) e dos países em desenvolvimento 
(32,7%), com a Ásia sendo responsável por 26,7% do seu total; 
da mesma forma, as exportações dirigiram-se primordialmente 
para os países em desenvolvimento (41,6%), à Ásia em particu-
lar (30,9%); e para os países da OPEP (21,5%);
\u2022	 China3: os principais fluxos de comércio da China em 20094 fo-
ram realizados com a Ásia (53,2%), nela destacando-se o Japão 
(10,4% do total). A Europa e os EUA, por sua vez, representa-
2 Fonte dos dados: Reserve Bank of India. Handbook of Statistics on the Indian Economy. Abr. 2010/ 
mar. 2011.
3 Fonte dos dados: China National Bureau of Statistics. China Statistical Yearbook 2010. 
4 Último ano para o qual se dispõe de estatística mais detalhada.
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Lenina Pomeranz
ram 19,3% e 13,5% do total dos fluxos, respectivamente, no 
período considerado. Embora com algumas diferenças, as pro-
porções se mantêm quando examinados os dados das exporta-
ções e importações separadamente. No caso das exportações, 
comparando-as com o número correspondente ao total dos 
fluxos comerciais, reduziu-se um pouco a participação da Ásia 
(47,3% do total delas) e do Japão (passou a 8,1% do total), em 
favor da Europa e dos EUA, que passaram a representar 22,0% 
e 18,4% do total das exportações, respectivamente. No caso das 
importações, no mesmo esquema de comparação com o total 
dos fluxos comerciais, a participação da Ásia subiu para 60,0% 
e a do Japão, para 13,0%; as participações relativas da Europa e 
dos EUA reduziram-se a 16,1% e 7,7%, respectivamente;
\u2022	 Rússia5: os principais parceiros da Rússia, indicados pelo ór-
gão central de estatística do país, entre janeiro e agosto de 
2011, foram os países da União Europeia, representando qua-
se metade do total dos fluxos comerciais (48,4%) e a China, 
com 10,0% desse total. Os EUA aparecem em terceiro lugar, 
com 3,6%. Cabe observar que a participação relativa da China 
elevou-se quando comparada com a que obteve no mesmo pe-
ríodo de 2009, já refletindo, talvez, a perspectiva de um redi-
recionamento maior da atenção russa para com a China. 
Os dados apresentados6 corroboram a hipótese de que os flu-
xos de comércio são prioritariamente realizados com as zonas de 
preponderância econômica de cada país, não tendo maior impor-
tância aqueles referentes aos países do grupo BRICS. 
No que diz respeito à composição das pautas de importação 
e exportação de cada um deles, a hipótese demandaria